Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 09.07.2011 09.07.2011

“”É obrigação do escritor invadir a privacidade dos personagens””, diz Andrés Neuman na Flip

Por Amanda Borges

Dois tipos de viagem reuniram o argentino Andrés Neuman e o americano Michael Sledge na tenda principal da Flip nesta sexta. O primeiro criou um personagem contemporâneo que caminha por uma cidade imaginária do século XIX. O segundo percorreu os passos e se baseou nas cartas da autora americana Elizabeth Bishop para se aprofundar nos traços de sua vida íntima. Cada um com sua forma de viagem, o argentino Andrés Neuman e o americano Michael Sledge percorreram quilômetros imaginários para compor seus personagens.

Em ambos os livros, a pesquisa história foi muito grande. Neuman precisou de seis anos e muitas leituras para resgatar os sentimentos da era pós-napoleônica, da industrialização e do feminismo. Já Sledge leu as correspondências trocadas entre Elizabeth Bishop e a urbanista brasileira Lota de Macedo Soares, conheceu os lugares visitados por elas e mergulhou na briografia de Carlos Lacerda para compreender o momento vivido pelo casal. No entando, mais importante do que situar historicamente os personagens, foi conhecê-los a fundo e desnudá-los (às vezes literalmente) em frente dos leitores. Em The More I Owe You, Sledge se esforçou em mostrar o lado humano da escritora que não gostava de expor sua vida privada nos poemas. Segundo ele, no livro é possível conhecer traços de Elizabeth que ela não deixava transparecer em sua obra. Esse profundo conhecimento da vida íntima de seus personagens é, para Neuman, uma característica essencial aos romances, porque "o romance é uma invasão de privacidade".

"Há algo de vampiro num escritor", afirmou Neuman. Ele começa um livro sem conhecer os personagens, mas é justamente essa ignorância que o move. A relação entre os dois se torna tão forte com o passar do processo de escrita, que o criador acaba se apegando à criatura. Questionados por uma pessoa da plateia se já tinham adquirido maneirismo dos personagens, Neuman afirmou: "me preocupo mais com a 'profunda solidão' do final de um romance do que em confundir a realidade com ficção enquanto escrevo o livro".

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