Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 16.07.2010 16.07.2010

Dzi Croquettes: ainda há muito o que aprender com eles

Por Bruno Duarte e Marcio Debellian

Depoisde uma longa temporada de sucesso por festivais de cinema brasileirose internacionais, estreia em circuito o premiado documentário DziCroquettes, de TatianaIssa e Raphael Alvarez. O longa narra a trajetória do grupo deatores bailarinos que, em meio ao cenário repressor da ditaduramilitar, se estabelece como símbolo da contracultura no Brasil, eacaba por ganhar grande repercussão também no exterior,especialmente em Paris. A atuação do grupo também abre portas paraoutras iniciativas artísticas que surgiriam no país em seguida,como o teatro besteirol.

Ofilme resgata o marco histórico que representou a atuação do grupode teatro carioca Dzi Croquettes na vida cultural e política do paísnos anos 1970. Imagine 13 homens barbados e de pernas cabeludasvestindo trajes femininos e maquiagem extravagante, atuando, dançandoe cantando em performances provocativas e com forte conteúdocrítico. Mais que debochar dos padrões morais, o que já era muitonos anos de chumbo, as performances transbordavam ironia, talento,humor, profissionalismo e muita coragem para chocar e conquistarplateias aqui e lá fora.

Osnúmeros do grupo, criações coletivas que mesclavam elementos dasrevistas musicais e dos shows de cabaré, borravam as linhas quedividem o masculino e o feminino, abusavam do duplo sentido e seapropriavam dos tons da farsa. A brincadeira começa no nome dogrupo que surge na mesa do bar, onde Dzijoga com a má pronúncia do artigo definido inglês the,maiso trocadilhoentre a figura das elegantes moças francesas, as coquetes,e os aperitivos em cima da mesa – daí Croquettes.

Atrupe tinha à frente o bailarino, cantor e coreógrafo nova-iorquinoLennie Dale e o autor Wagner Ribeiro de Souza. Dale, egresso dospalcos da Broadway, destacou-se artisticamente no Brasil entre osexpoentes da MPB nos anos 1960 e se tornou uma das grandesinfluências de Elis Regina. Cláudio Gaya,Cláudio Tovar, Ciro Barcelos, Reginaldo de Poly, Bayard Tonelli,Rogério de Poly, Paulo Bacellar, Benedictus Lacerda, CarlinhosMachado, Eloy Simões e Roberto de Rodrigues complementavam a trupeque já não devia saber mais se era um grupo ou uma família.

Anarrativa do filme transpira afeto. Não só por parte dosentrevistados, que se prontificaram a participar do filme tão logoouviram a palavra mágica “Dzi Croquettes” – gente comoGilberto Gil, Nelson Motta, Miguel Falabella,Cláudia Raia, Ney Matogrosso, Marília Pêra, Aderbal Freire Filho eLiza Minelli, uma espécie de madrinha do grupo em Paris – mastambém por conta dos depoimentos dos membros do grupo que aindaestão vivos e se emocionaram ao recontar a sua própria história.Merece destaque também o depoimento de Nega Vilma, uma espécie de“mãe preta”, que organizava a casa e tratava de dar alguma ordemao convívio coletivo.

Éneste contexto “familiar” que também está inserida a diretorado filme, Tatiana Issa. Ela é filha de Américo Issa, cenógrafo dogrupo, e na infância morou junto com a trupe. “Eu era uma espéciede Barbie na mão deles. Eles me pintavam, brincavam comigo, e eunão sabia exatamente o que eles eram.Para mim era como se fossem palhacinhos.”

Umdos méritos do filme é justamente a transposição para a teladeste olhar primeiro, amoroso e despido de julgamentos. Ao recuperara trajetória dos Dzi Croquettes, Tatiana resgata também a suahistória pessoal, e transita com elegância nesta corda bamba de seincluir numa narrativa documental. Este traço contribui para que ofilme dê um salto entre um registro meramente jornalístico para umdocumentário que tem grande capacidade de emocionar o público.

Entrea costura de depoimentos que reconstituem a história do grupo, estãopreciosas imagens de arquivo. O registro de um show ocorrido emParis, feito por uma TV alemã, foi o que permitiu que o filmerecriasse a atmosfera dos Dzi Croquettes. “A ditadura brasileiraapagou todo e qualquer registro do grupo”, conta Tatiana, quepassou por uma verdadeira gincana para localizar e resgatar esta latade filme com as imagens da apresentação.

Libertários,transgressores e propagadores das tendências que impulsionariam asgerações futuras, o Dzi Croquettes way oflife ainda parece ter muito a ensinar. Oolhar infantil de Tatiana gravou a impressão de que o que elesdeixavam transparecer era: “Não somos homens, nem mulheres, nóssomos gente.” Este simples conceito seria o fim de muitasdiscussões que permanecem até os dias de hoje, e mostra que oespírito vanguardista dos Dzi Croquettes ainda não foicompletamente assimilado.

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