Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Música 20.02.2014 20.02.2014

Dudu Nobre lança DVD com os maiores sucessos do Carnaval carioca

Por André Bernardo
 
João Eduardo de Salles Nobre tinha apenas 10 anos quando compôs seu primeiro samba-enredo. Com ajuda do parceiro Beto Sem Braço, escreveu “O Mundo Encantado da Turma da Mônica” para a escola-mirim Alegria da Passarela, hoje rebatizada de Aprendizes do Salgueiro. Três décadas depois, Dudu Nobre realiza dois sonhos: o de emplacar um samba-enredo de sua autoria, “Pernambucópolis, Meu Carnaval!”, na Mocidade Independente de Padre Miguel, sua escola do coração, e o de lançar um DVD, Os Mais Lindos Sambas-Enredo de Todos os Tempos, com 26 clássicos da Marquês de Sapucaí, no Rio. “O critério de seleção foi puramente afetivo. Só escolhi sambas que tocam o coração das pessoas”, afirma.
 
Para homenagear o antigo parceiro, Dudu resgatou “Bum, Bum, Paticumbum, Prugurundum” (Império Serrano, 1982). Dos 26 sambas que entraram no DVD, “Aquarela Brasileira” (Império Serrano, 1964) é o mais antigo, e “Peguei um Ita no Norte” (Salgueiro, 1993) – aquele do “Explode coração/Na maior felicidade!” –, o mais recente. Entre um e outro, alguns hits obrigatórios, como “Os Sertões” (Em Cima da Hora, 1976), “É Hoje” (União da Ilha, 1982) e “Liberdade, Liberdade! Abre as Asas Sobre Nós” (Imperatriz Leopoldinense, 1989).
 
“Há quem diga que já não se fazem mais sambas como antigamente. Discordo. O problema é que, desde 1993, todo mundo só sabe fazer samba-enredo com refrão”, explica.
 
Se tiver apoio da iniciativa privada, Dudu avisa que pretende excursionar com o show “Os Mais Lindos Sambas-Enredo de Todos os Tempos” pelo Brasil afora. “A infraestrutura é grande. Só de ritmistas, são 25. Isso sem falar em 14 músicos e 18 bailarinos”, calcula.
 
Nas horas vagas, o sambista arrisca alguns “passos” como escritor. Está escrevendo um romance que se passa nas décadas de 1980 e 1990, em cidades como Rio, Salvador e Paris.
 
Até o fim do ano, ele pretende lançar ainda dois CDs instrumentais em parceria com DJs. A ideia é tocar chorinho, samba e MPB, entre outros ritmos, com batida funk, techno e black music. “O problema é que o meu dia só tem 24 horas. Se tivesse 48, já teria acabado esse CD”, brinca.
 
Este ano, você conseguiu a proeza de emplacar dois sambas-enredo no Carnaval carioca: um no Grupo Especial, o da Mocidade Independente de Padre Miguel, e outro no Grupo de Acesso, o da Unidos do Viradouro. Qual é o segredo?
 
Dudu Nobre. Samba-enredo virou fórmula. O pessoal reclama que samba-enredo é tudo igual, mas, se você fizer um samba diferente do habitual, o pessoal da escola dificilmente abraça. Mas que fórmula é essa? É simples: primeira [parte], refrão, segunda e refrão. Refrão é algo indispensável dentro do samba-enredo. Além disso, você precisa ter um bom enredo em mãos. Sem isso, fica difícil. Você quer comparar um enredo sobre os heróis da liberdade e outro sobre a história do copo d’água? Aí, fica difícil, né, parceiro?
 
Compor samba-enredo é diferente de partido-alto?
 
Dudu Nobre. Completamente. Para compor samba-enredo, você tem que ir na onda do carnavalesco. Felizmente, o da Mocidade (Paulo Menezes) deixou a gente livre para interpretar a sinopse como bem quisesse. Daí, imaginamos o Fernando Pinto descendo em Padre Miguel numa nave espacial e levando o pessoal da comunidade para conhecer a cultura pernambucana. Minha intenção ao compor esse samba foi resgatar o orgulho do componente da escola. Já no caso da Viradouro, a sinopse falava da história de Niterói. Na hora de compor o samba, falei do Profeta Gentileza, da Ponte Rio-Niterói, do “Orgulho de Ser Niterói”. Num dos ensaios, cheguei a chorar ao ver a paradinha da bateria. Ficou lindo demais.
 
Por que quase ninguém compõe samba-enredo sozinho?
 
Dudu Nobre. Ninguém consegue. Geralmente, são sete, oito compositores. Tem gente que entra na parceria só porque leva a torcida. Tem gente que entra só porque ajuda a tocar. Na maioria das vezes, eu e mais dois fazemos o samba. Não é todo mundo que é “caneta”, entende? Na Mocidade, todo mundo é. Mas, nas outras escolas, não. Disputar samba-enredo é complicado. Você tem que traçar estratégia se quiser ganhar. Se não tiver infraestrutura, não passa nem na porta da quadra. Em algumas escolas, você não gasta menos que R$ 120 mil. Você tem que levar torcida, pagar cerveja, comprar uniforme, aquela coisa toda. Para ter uma ideia, levei 14 ônibus para a final e a semifinal da Mocidade. Não é trabalho para amador.
 
                                                                                                                                             Christian Gaul
"Samba-enredo virou fórmula. O pessoal reclama que samba-enredo é tudo igual, mas, se você fizer um samba diferente do habitual, o pessoal da escola dificilmente abraça"
Desde cedo, você convive com grandes sambistas, como Jorge Aragão, Clementina de Jesus e Nelson Cavaquinho. Qual é a importância deles na sua formação?
 
Dudu Nobre. Costumo dizer que é um “mix”. Quando estou compondo, identifico o estilo do Beto Sem Braço (1940-1993). O Beto me ensinou como fazer rimas. Ensinou truques que uso até hoje: “Pedaço de mau caminho/Esse seu umbiguinho/Me deixa em desalinho/Juro que não ligo” (cantarola). Eu tinha 10 anos quando compus meu primeiro samba com ele. O Beto não me deixava fazer nada. Queria fazer tudo sozinho. Quando chegou na hora do refrão, falei: “O refrão é meu!”. “Ah, é?”, ele perguntou, “Então, manda aí”. Soltei na lata: “Sambando eu vou/Na brincadeira/Sou criança, sou Brasil/Sou a pátria brasileira!”. O Beto soltou um palavrão daqueles e falou: “Mas isso é poesia pura!” (risos).
 
Dos 26 sambas-enredo do DVD, “Peguei um Ita no Norte”, o mais recente deles, já tem mais de 20 anos. Como você vê isso? Já não se fazem mais sambas como antigamente?
 
Dudu Nobre. Não vejo dessa forma. O samba-enredo do Salgueiro é uma espécie de divisor de águas. Depois dele, todo mundo só compõe samba-enredo com refrão. Antigamente, não havia essa preocupação. Se amanhã ou depois eu resolver fazer um samba-enredo sem refrão, sei que o pessoal da escola vai reclamar. O último cara que inventou de fazer samba-enredo sem rima foi o Martinho da Vila. Em 1987, ele compôs um samba, “Raízes”, sem rima.
 
E o pessoal da Vila Isabel reclamou?
 
Dudu Nobre. Não, né? Mas Martinho da Vila é Martinho da Vila… (risos)
 
No repertório, você incluiu samba-enredo de todas as grandes escolas do Grupo Especial, como Portela, Mangueira e Beija-Flor. Foi proposital?
 
Dudu Nobre. Não. Meu critério foi puramente afetivo. Só escolhi sambas que tocam o coração das pessoas. Quando gravei o DVD, foi emocionante. Quando eu cantava o samba do Salgueiro ou da Estácio de Sá, todo mundo cantava junto. Do Grupo Especial, algumas escolas ficaram de fora. A São Clemente foi uma delas. O samba-enredo “Capitães de Asfalto”, por exemplo, é lindo de morrer. Ano que vem, lanço o segundo volume de Os Mais Lindos Sambas-Enredo de Todos os Tempos. Tem material aí para uns cinco DVDs… (risos)
 
Zeca Pagodinho foi o primeiro a gravar uma canção sua, “Eu Vou Botar Teu Nome na Macumba”, de 1993. Qual é a importância de ter um padrinho como o Zeca?
 
Dudu Nobre. No mundo do samba, todo mundo tem padrinho. O Zeca foi o meu, e eu sou o do Mumuzinho. É uma tradição, sabe? Mas padrinho não é pistolão. O Zeca nunca me pegou pelo braço e levou até gravadora. As coisas foram acontecendo aos poucos. Mas reconheço o quanto ele foi generoso. Sempre que falavam de “Posso Até me Apaixonar”, ele fazia questão de dizer que o compositor era eu. Se fosse outro, não ia dar o devido crédito.
 
Por ser afilhado do Zeca, você já é apontado como seu sucessor. O que pensa disso?
 
Dudu Nobre. Cada um constrói sua história. O Zeca construiu a dele e eu estou construindo a minha. Tem gente que não gosta. Respeito. Tem gente que gosta muito. É 8 ou 80. Uns me acham gente boa. Outros dizem que sou marrento… Bem, podem até não gostar, mas têm que respeitar. Afinal, já são 14 CDs, três DVDs e mais de 160 músicas gravadas como compositor. Já toquei no Japão, Europa, EUA… Só o Réveillon de Copacabana, fiz cinco vezes. Se faltava algo, não falta mais: ganhei um samba na Mocidade. Só não falo que já posso morrer feliz porque eu ainda quero viver muito… (risos)
                                                                                                                                             Christian Gaul
"Ano que vem, lanço o segundo volume de Os Mais Lindos Sambas-Enredo de Todos os Tempos. Tem material aí para uns cinco DVDs…"
 
 
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