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Dubladores: De quem é a voz?

Por Karina Trevizan

Na cerimônia do Oscar deste ano, um dos apresentadores, Chris Rock, fez uma brincadeira dizendo que ser dublador é um trabalho muito fácil. Será mesmo?
 
O SaraivaConteúdo fez essa e outras perguntas ao ator Mauro Ramos, que já fez mais de 130 dublagens em filmes, animações, seriados e até um jogo.
 
Entre seus trabalhos mais marcantes em animações estão personagens como o ogro Shrek (em Shrek Terceiro e Shrek Para Sempre), o mostro Sulley (em Monstros S.A.) e o javali Pumba (nos três filmes da saga O Rei Leão), além dos mais recentes Pedro (em Rio) e o smurf Narrado (em Os Smurfs).
 
Mauro revela como é o mercado de trabalho da dublagem nos dias de hoje, fala sobre suas principais dificuldades e, a maior surpresa, revela por que concorda com a frase de Chris Rock.
 
 
 
Durante a cerimônia do Oscar deste ano, um dos apresentadores, Chris Rock, fez uma brincadeira dizendo que ser dublador era a profissão mais fácil do mundo. Concorda com ele?
Mauro. O que fazem lá fora não é mais dublagem. Desde meados da década de 90, as animações estadunidenses não são mais dubladas. Os atores gravam as falas durante os estágios iniciais do filme, sem o movimento labial das personagens. As falas são gravadas antes e sincronizadas por programas de animação específicos para os movimentos labiais, posteriormente. Assim, fica fácil realmente fazer o trabalho e ganhar um milhão de dólares! O que o Chris Rock quis criticar é que ganhar esse dinheiro todo dessa forma é mesmo moleza. No restante do mundo não é assim! Dublamos o produto já definido, e temos que adaptar sincronismo e falas em uma obra já montada. Realmente, não há muita dificuldade em se interpretar sem a preocupação de sincronia, como se fazia desde os primórdios da animação com banda sonora, nos próprios EUA. Mel Blanc, gênio das vozes de animação, dublava o movimento labial sem som-guia referencial, como os pioneiros brasileiros também faziam. O que eles fazem lá hoje podemos chamar de radioteatro.
 
No que a dublagem de animações difere das dublagens de seriados e filmes?
Mauro. No meu ver, a única diferença entre dublar animação e o chamado "live action" é a maior liberdade de criação na interpretação e adaptação dos desenhos. Acaba que são desafios diferentes. Com humanos, há o desafio de adaptação somado à restrição do sincronismo do trabalho do ator a ser dublado. O que torna ainda mais difícil é o respeito à obra e a visão de fazer com que ela seja compreendida pelo público, tudo isso em um tempo exíguo de execução.
O que é necessário para ser um bom dublador?
Mauro. Ter pendor para o "jogo" da dublagem (boa leitura, interpretação, dicção e bons reflexos), ser ator profissional registrado no Ministério do Trabalho e ter determinação e paciência para cavar seu lugar no mercado. Na visão de vários profissionais da área, um ator só pode se considerar dublador após 5 anos trabalhando semanalmente. Em minha opinião pessoal, a dublagem é uma técnica que contém a arte da interpretação em seu exercício.
 
Como acontece a "construção" da voz adequada para cada personagem? São feitos vários testes até encontrar a interpretação ideal?
 
Mauro. Não há preparação. Ficamos sabendo o que vamos fazer na hora em que chegamos ao estúdio para a gravação. Tudo é feito para ontem! Tudo é baseado no que vemos na hora e no que nos é orientado pela direção. Testes são escolhidos pelos clientes baseados nos parâmetros deles, e muitos sequer entendem o português! 
Sulley, de Monstros S.A
 
Temos como referências o que vemos, o que captamos e o que sentimos no momento da gravação. Nada é prévio para o dublador. Nem aviso é prévio, já que não somos contratados em carteira.
 
Quais são as principais dificuldades do trabalho de dublagem?
Mauro. Há uma certa falta de reconhecimento de parte da própria categoria dos atores, que veem como algo menor a especialização da dublagem. Somos atores, como todos da classe. Também fazemos teatro, cinema, televisão, rádio… Mas, como não aparecemos fisicamente e temos ainda a limitação do trabalho já feito por outro colega estrangeiro, talvez isso esbarre na vaidade natural do ator, que está sempre em busca de reconhecimento. Mas faz parte do mercado, e continuamos lutando para melhorar as condições do dia a dia da profissão.
Como está o mercado de dublagem hoje? Há muita concorrência?
Mauro. Em território nacional, contamos com duas praças em atividade: São Paulo e Rio de Janeiro. Com a diminuição no preço da aparelhagem e a gravação mais facilitada pela computação, novos estúdios surgiram no mercado, descentralizando o trabalho. Porém, fomos forçados a nos tornar autônomos, já que os estúdios não têm como sustentar uma folha de pagamento com encargos e fazer frente à concorrência que empurra os preços cada vez mais para baixo. A maioria das dublagens consideradas ruins vem de fora, feita por estúdios de outro país com pessoas, em geral, sem qualificação para o trabalho. E nós é que levamos as chibatadas!
 
Poderia apontar quais personagens de desenho mais gostou de dublar e por quê?
 
Mauro. Há vários. Mas aqueles que caem nas graças do público acabam sendo os que te acompanham feito "entidades independentes", como o Pumba de Rei Leão, o Sully de Monstros S.A., Shrek, Capitão Barbossa de Piratas do Caribe (ao lado), entre outros.
Eles nos fazem ver que a repercussão de nosso trabalho é nacional e repleta de sentimentos positivos voltados para os dubladores.
 
O personagem Shrek é muito querido pelo público. Foi difícil assumir a dublagem já no terceiro filme da saga?
 
Mauro. Para mim não, porque eu já havia sido escolhido pela DreamWorks para o primeiro filme. 
Gravei tudo e até recebi o cachê pelo trabalho. Mas o departamento de marketing da filial daqui achou por bem me substituir pelo saudoso Bussunda, já que ele, na época, estava fisicamente parecido com a personagem, o que ajudaria a vender o filme aqui no Brasil. Quando fiz o terceiro filme, já sabia o que fazer.
 
Qual é a sua opinião sobre atores famosos participando da dublagem de animações para o cinema? 
Mauro. Não são atores? Por mim, não há problema, contanto que a voz de quem foi escolhido seja adequada ao papel e a interpretação esteja condizente com a obra. Em qualquer lugar do mundo, os chamados "star talents" têm o cachê diferenciado, por terem destaque nos meios de comunicação, e são contratados para atrair bilheteria para o filme. O que me incomoda é a brutal diferença no preço do cachê pago a eles e o que ganhamos.
 
Dubladores se sentem chateados com quem não assiste a filmes dublados de jeito nenhum?
Mauro. Respeitamos quem não gosta de assistir a filmes dublados, mas não aceitamos o preconceito com o nosso trabalho. Cobrem a quem for de direito que se ofereça o leque de opções com relação ao áudio de um filme (dublado, som original com legenda e somente som original) a ser assistido na televisão, mas respeitem a maioria que prefere filme dublado – o que cada vez mais as pesquisas consagram. Preferir filme dublado não faz da pessoa um ser humano menor e nem do artista envolvido um profissional frustrado. Ninguém é obrigado a saber outra língua ou restringir o seu entendimento da obra por duas linhas com um número limitado de caracteres.
 
De quem é essa voz?
 
Muitas vezes, as produtoras escalam atores famosos para emprestar sua voz aos personagens de animação. Veja quais estrelas já fizeram esse trabalho:
 
  • Rodrigo Santoro – Túlio, em Rio
  • Márcio Garcia – Diego, em A Era do Gelo
  • Diogo Vilela – Manny, em A Era do Gelo
  • Tadeu Melo – Sid, em A Era do Gelo
  • Claudia Jimenez – Ellie, em A Era do Gelo
  • Priscila Fantin – Sally, em Carros
  • Daniel Filho – Doc Hudson, em Carros
  • Juliana Paes – Tigresa, em Kung Fu Panda
  • Lúcio Mauro Filho – Po, em Kung Fu Panda
  • Bussunda – Shrek, nos dois primeiros filmes da saga
  • Pedro Bial – Irmã Feia, em Shrek 2
  • Heloisa Perissé – Glória, em Madagascar
  • Mariana Ximenes – Hebe Marreca, em O Galinho Chicken Little
  • Sidney Magal – Amoroso, em Happy Feet: O Pinguim
  • Daniel Oliveira – protagonista de O Galinho Chicken Little; pinguim Mano, em Happy Feet: O Pinguim; e Gnomeu, em Gnomeu e Julieta
  • Vanessa Giácomo – Julieta, em Gnomeu e Julieta
  • Ingrid Guimarães – Nanete, em Gnomeu e Julieta
  • Malu Mader – Neera, em Dinossauro
  • Fábio Assunção – Aladar, em Dinossauro
  • Hebe Camargo – Baylene, em Dinossauro
  • Nair Belo – Eema, em Dinossauro
  • Reynaldo Gianecchini – Rodney, em Robôs
  • Thiago Lacerda – Metroman, em Megamente
  • Lima Duarte – Manda-Chuva
  • Fernanda Montenegro – Sra. Calloway, em Nem que a Vaca Tussa
 
 
 
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