Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 03.02.2011 03.02.2011

Duas décadas entre escritores e editores

PorFelipe Pontes
Foto de Garapa – Coletivo Multimídia (http://garapa.org/) 

 

Poucoconhecida no Brasil, a profissão do agente literário é fundamental para uma boarelação entre o autor do livro e a editora que o publica. É ele quem cuida dosdireitos autorais dos livros, da obra, da carreira e da imagem do escritor. “Minha carreira não é a minhacarreira, é a carreira do meu autor”, costuma afirmar Lucia Riff, a maisimportante agente literária do país, cuja agência que leva o seu sobrenomecompletou 20 anos em meados de janeiro.

Otítulo faz sentido ao olharmos os nomes dos escritores que Riff representa.Entre eles, Lygia Fagundes Telles, Luis Fernando Verissimo, Ariano Suassuna,Rubem Fonseca, Adélia Prado, Zuenir Ventura, Lya Luft, Marina Colasanti,Beatriz Bracher e Letícia Wierzchowski. Grande parte dos esforços de Lucia édespendido também em administrar junto aos herdeiros o espólio de cânones daliteratura nacional, como a obra de Carlos Drummond de Andrade, João Cabral deMelo Neto, Erico Veríssimo, Josué de Castro, Mário Quintana, Rachel de Queiroz,Paulo Mendes Campos, entre outros. No total, são 71 autores dos quais seencarrega de gerir a obra, a carreira e a imagem pública. “Estou trabalhandomais do que aguento há mais de 20 anos…”, ressalta Riff, motivo pelo qualraramente admite novos autores. “É sempre muito gratificante, mas cada novarepresentação exige um grande esforço e não quero ir além do que posso fazer”,alega.

A oportunidade de trabalhar no meio surgiu em meados dos anos 1980, quando acatalã e agente literária Carmen Balcells a convidou para ser a cabeça de pontede sua agência no país. Balcells é conhecida por administrar a obra de nomescomo Pablo Neruda, Gabriel García Márquez, Julio Cortázar e Mario Vargas Llosa,para ficarmos com os mais conhecidos. Ao receber o Prêmio Nobel na Suécia, em2010, Llosa inclusive a escolheu para estar ao seu lado, o que dá a dimensão desua importância. Além disso, parte de seu arquivo acaba de ser adquirido peloMinistério de Cultura del Archivo espanhol.Os 2.500 metros lineares de documentos vão servir como marco de criação doArchivo de la Creación Literaria en Español.

“”Conheci a Carmen no início de 1983. Trabalhei um ano na agência que ela mantinha no Rio de Janeiro, junto com Ana Maria Santeiro. No início de 1984 fui trabalhar na Nova Fronteira e em 1987, fui para a José Olympio. Só fui reencontrá-la no início de 1990 – neste momento, ela e Ana já não estavam mais juntas. Em janeiro de 1991, fundamos a BMSR””, recorda. Abrasileira então levou à frente o legado, carregando-o através dos difíceisanos de hiperinflação, catastróficos devido à própria dinâmica comercial doramo. Quase rendida, ela se reergueu junto com a estabilidade econômica trazidapelo Plano Real, acabando por adquirir o restante do negócio em 2003.

Ao completar 15 anos, já com os filhos advogados João Paulo e Lauraincorporados à firma, a agência assumiu o nome da família e foi então a vez daprópria Lucia Riff expandir sua atuação para além-mar. Desde 1991, a agência representa autores brasileiros, no Brasil para o Exterior e também agências e editoras estrangeiras para o Brasil e Portugal. “”Isto nunca mudou, o que mudou foi a divisão das tarefas: a partir de 2003, eu passei a ficar 100% dedicada aos autores brasileiros, ficando toda a área de representação de obras estrangeiras a cargo da Laura Riff e do João Paulo Riff, e também do Roberto Matos””, completa.

Hoje a Agência Riff coopera comdezenas de editoras e agências em nove países, tão diversos quanto Croácia,Índia, Israel e Singapura. “Esta troca [entre os países] é uma delícia. Éimportante que o movimento não seja apenas de publicarmos no Brasil autoresestrangeiros, mas também de levarmos nossos autores para serem publicados láfora. Este trabalho é feito através da rede de contatos entre agentes, editorese autores, e também tradutores”, destaca Lucia. 

Aagente, que um dia já assumiu uma postura duramente crítica em relação aosescassos programas de apoio à tradução, um dos gargalos para a divulgação daliteratura brasileira lá fora, já adota uma posição mais amena. “O programa daFundação Biblioteca Nacional (FBN) está melhorando, ganhando força – maseles mesmos reconhecem que ainda precisa melhorar bem mais para realmenteajudar na divulgação do autor brasileiro no exterior”, adverte. 

Umadas decanas no Brasil em uma profissão cujo papel é atuar nos bastidores, LuciaRiff acabou por se tornar a própria face da agente literária no país, muitasvezes levando à falsa impressão de que é a única em atividade por aqui. “Aúnica, nunca fui. Quando comecei, em janeiro de 1991, já havia outras agênciasfuncionando no Brasil, algumas só para autores estrangeiros, outras só paraautores brasileiros. Mas sempre foram poucas as agências em atividade: estequadro ainda não mudou”, alerta.

Sobreas transformações em cena com o advento das novas tecnologias, ela recorda astraquitanas que um dia utilizou e comenta a vertiginosa mudança no setor.“Quando abri a agência, ainda se usava o telex: pensei um pouco e achei quebastava comprar um fax. Imagina só! Ainda se usava máquina de escreverelétrica. O PC veio depois, a internet, o celular. Mudou muito o mercadobrasileiro, e a força dos nossos autores nacionais.”

Eo que mudou de lá pra cá? “O governo passou a comprar livros para bibliotecas(coisa da qual não se falava em 1990…). Mudou a economia brasileira. A imagemdo Brasil lá fora. Mas, pensando bem, a grande, fundamental mudança, veio nacarona da internet: emails, sites, blogs, Skype, Amazon e Google mudaram, radicalmente,a forma de se negociar direitos autorais, o relacionamento entre as pessoas, arapidez dos contatos, e tudo mais”, atesta Lucia Riff.

Elaque foi pivô nas negociações de edições em ebook,com a pioneira comercialização de Oseminarista (Agir), de Rubem Fonseca, na loja virtual Amazon, em 2009,já abraçou o Kindle como ferramenta essencial de trabalho, “principalmente paraler originais”, comenta.

Agora,ao completar 20 anos a Agência Riff lança em breve o novo site da casa, maisbonito, fácil de consultar, integrando os autores brasileiros e os clientesestrangeiros e com atualizações diárias. “Está tudo aprovado. Estamostransferindo as informações e logo teremos tudo pronto (assim espero!)”,comemora. Com o novo site, Riff pretende “facilitar a consulta dos editoresbrasileiros (para que encontrem com facilidade os livros e informações queprocuram) e também facilitar pesquisas sobre os autores brasileiros querepresentamos. E ainda servir de fonte de notas, novidades, dicas de leituraetc.”, finaliza. 

 

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