Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 21.03.2014 21.03.2014

Dois livros celebram os 45 anos do filme ‘A Noite dos Mortos-Vivos’

Por Carolina Cunha
Uma mulher visita um cemitério e, de repente, aparece um morto-vivo faminto. Ela precisa fazer de tudo para sobreviver. Parece a trama de uma conhecida série de TV? Assim começa A Noite dos Mortos-Vivos, filme independente de 1968, dirigido pelo americano George Romero e cujo roteiro também é assinado por John Russo.
O longa, considerado um clássico do cinema de terror e precursor do gênero moderno de apocalipse zumbi, completa 45 anos em 2014. O filme influenciou produções da cultura pop como a série The Walking Dead, o videoclipe “Thriller”, de Michael Jackson, o game Resident Evil e os filmes World War Z e Zumbilândia.
E para comemorar a data, a editora DarkSide Books lança este mês dois livros com os romances escritos por John Russo:A Noite dos Mortos Vivos, com a já conhecida história, e A Volta dos Mortos Vivos, uma sequência do clássico que nunca chegou a ser filmada.
“O que me chama atenção no roteiro é o quanto ele é improvisado e mesmo assim funciona. Essa improvisação torna o filme crível, o desespero dos personagens, suas reações aos acontecimentos e os desfechos criam uma atmosfera de suspense perfeita. A direção é meio displicente, mas os planos fechados, as sequências de fuga e as cenas de ataque provam que ele sabia exatamente o que estava fazendo, tornando Romero um diretor de terror e criador de um estilo”, diz Raphaela Ximenes, jornalista e crítica de cinema.
A primeira produção de zumbis da história é White Zombie, de 1932, estrelada por Bela Lugosi. Mas se hoje essas criaturas estão por toda parte, muito se deve a A Noite dos Mortos Vivos. A partir dele surgiram novos conceitos: os zumbis são uma epidemia, comem carne humana, têm um corpo putrefato, emitem sons de grunhidos e se arrastam devagar.
Antes de 1968, os mortos-vivos eram retratados no cinema a partir da lenda do vodu haitiano, na qual cadáveres voltavam à vida por causa de uma poção mágica. “O Romero pôs coisas ali que não passavam no cinema antes, como as cenas de canibalismo", diz a carioca Renata Roxo, fã de filmes de terror.
 
O escritor e roteirista John Russo
A história de sobrevivência de A Noite dos Mortos Vivos é vivenciada por Ben (Duane Jones), que coloca a razão acima da emoção, e Barbara (Judith O’Dea), que faz uma mocinha indefesa e catatônica. Os dois se refugiam em uma casa de fazenda e têm que lidar com um grupo de pessoas que encontram por lá.
O filme teve ainda as sequências Zombie, Despertar dos Mortos (1978) e Dia dos Mortos (1986), além das refilmagens A Noite dos Mortos-Vivos (1990) e Madrugada dos Mortos (2004).
A sequência de abertura é lembrada por muitos fãs como a cena mais impactante do longa. “A cena é nauseante e experimental, faz qualquer um ficar arrepiado dos pés à cabeça. Depois disso, eu corri para ver tudo o que o Romero havia produzido”, conta Raphael Fernandes, do blog Contraversão.
“Vale ressaltar também que o filme teve grande influência de Os Pássaros, de Alfred Hitchcock, que criou o clima de uma manifestação da natureza que enfrenta o homem sem explicação. Tanto no longa do mestre do suspense como em A Noite dos Mortos-Vivos, o que menos interessa são os motivos, mas como as pessoas reagem em um momento total de estresse”, comenta Fernandes.
Produzido com um orçamento de apenas 114 mil dólares, quando Romero ainda era um estudante de cinema, o longa-metragem foi filmado em preto e branco e com apenas uma câmera. Por falta de luz, muitas cenas tiveram que ser filmadas bem de perto. “Muitos acreditam que A Bruxa de Blair foi quem iniciou o estilo documental em filmes de terror, mas não. Foi Romero que o fez com o seu Noite dos Mortos-Vivos; sua falta de recursos o obrigou a usar uma única câmera e quase nenhuma edição, dando um tom documental à produção”, diz Raphaela.
Os efeitos especiais também precisaram de criatividade. Para retratar o “banquete zumbi”, a equipe comprou carnes e vísceras num açougue, usou presunto com xarope de chocolate e cobriu braços de manequins com argila plástica. “Quem vê todos os efeitos e maquiagens nos filmes recentes de zumbi não tem ideia do que era realizar uma produção dessas na década de 1960”, comenta ela.
 
Capa do livro A Noite dos Mortos Vivos
 
Para a crítica, essa estética crua e sem recursos foi copiada incessantemente e influenciou o cinema gore, que ganhou vida na década de 1970 com cenas de violência explícita, repletas de sangue e membros amputados. Ao ser lançado, o longa foi criticado pelo jeitão sanguinolento e pessimista. “Uma experiência horrível”, escreveu um jornal da época. O impacto foi tanto que algumas salas de cinema recomendavam o uso de sacolinhas plásticas. Hoje, esses efeitos e clichês que lembram filmes B provocam mais risadas do que medo.
POLÍTICA E ZUMBIS
Muitos interpretam o Apocalipse Zumbi como uma metáfora para o momento político dos Estados Unidos, que lidava com a Guerra do Vietnã, conflitos raciais e o medo de um possível desastre nuclear. Martin Luther King havia sido assassinado pouco antes do lançamento de A Noite dos Mortos Vivos.
O protagonista da história, interpretado por Duane Jones, é o primeiro herói negro do gênero terror. “Vemos cenas assustadoras, atuações surtadas e crítica social como pano de fundo. Mas nada é mais subversivo para os anos 1960 do que ter um negro como o herói e a voz da razão”, acredita Fernandes.
Romero já disse que, em seus filmes sobre zumbis, ele gosta de destacar o fracasso dos humanos em cooperar entre si. Segundo Raphaela, as tramas do diretor “começam a partir de um ponto comum, quando não há mais esperança para o mundo. Muitos acreditam que essa é a forma dele de criticar a sociedade da década de 1960, que se encontrava acomodada”.
 
 
 
Recomendamos para você