Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 31.08.2011 31.08.2011

Dois lançamentos turcos exploram a beleza e tragédia de um povo

Por Luciana Stabile
 
A orelha do livro dá a entender que uma história de amor impossível entre uma concubina e um sultão otomano aconteceu, em pleno século XVIII. Sou mulher, então fico maluca com a teoria e essa é minha primeira pergunta para a escritora turca Gül Irepoglu, autora de A Concubina (Sá Editora).

Por e-mail Gül, que significa rosa em turco, confirma a veracidade do amor desesperado de um sultão por uma de suas concubinas, fato que inspirou seu livro. Cinco cartas encontradas dentro do palácio Topkapi, em Istambul, provam o acontecimento nada convencional. “É raríssimo um sultão implorar para que uma das mulheres do harém venha deitar-se em sua cama. Mas as cartas encontradas no arquivo do palácio confirmam seu desejo. De acordo com os manuscritos, ele escreveu para ela palavras que eram quase um poema, porém ela recusou ceder aos seus pedidos”, conta Irepoglu. Eu espero que essa seja apenas metade da história e ainda existam outras cinco cartas desaparecidas em algum lugar.

 
No livro de Gül, o amor entre os dois é impossível, mas mútuo. E a concubina Askidil (que significa amor da alma, essência do amor) espera todas as noites que o homem mais poderoso da face da terra, o grande líder otomano, convide-a novamente para partilhar do seu leito.
 
Como pano de fundo à bela história de amor; costumes, educação, vestuário, jóias magníficas e decoração da época são minuciosamente descritos pela autora, que é formada em História da Arte pela Universidade de Istambul.
 
Já no livro Palavra Perdida (Sá Editora), da escritora e socióloga turca Oya Baydar, não encontramos tanta beleza assim. Encontramos a violência.
 

Oya Baydar
 
O enredo, que se desenrola através da vida e da tragédia de um jovem casal, faz alusão à língua curda, utilizada por milhões de curdos que habitam a Turquia. Oya demonstra como a perda ou a supressão da palavra representa uma das formas mais cruéis de violência que podem ser imputadas a um indivíduo ou a um povo.
 
“A Bíblia diz, no começo era o verbo… Estou convencida de que a opressão de um povo começa com a opressão da língua. A Palavra Perdida tem um sentido metafórico que faz alusão, em primeiro lugar, à existência humana, que não pode ser separada da língua. É uma alusão às nossas crenças, nossos ideais, nossas esperanças de um mundo melhor. Nesse sentido, a palavra é meio de compreender “o outro”: é a palavra que une os homens”, explica a autora. Pergunto qual sua palavra preferida, a resposta é óbvia. “Liberdade”, diz.
 
Oya explica que o aumento do terror e violência na Turquia e no mundo, principalmente entre 2005-2007, foi o estopim para esse romance. "Palavra Perdida é meu protesto contra qualquer tipo de violência”. Uma das fundadoras do Partido Trabalhista, a escritora já foi presa em razão de suas atividades de esquerda e, depois de libertada, viveu 12 anos no exílio, na Alemanha.
 
O livro de Oya fala ainda sobre outras formas de violência do mundo atual, desde a dissecação de cobaias em laboratório, a imposições de nossos valores às crianças, a assassinatos e guerras civis. Sua narrativa densa, montada em três planos de histórias e personagens, envolve e arrebata o leitor.

 

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