Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 29.10.2012 29.10.2012

Documentários pessoais

Por Edu Fernandes
 
Em diversas situações, o cinema serve como ferramenta de instrução para o espectador. Em outros casos, oferece uma jornada de descoberta pessoal para seus realizadores. Esse segundo cenário é aplicável a pelo menos dois documentários na programação da Mostra de São Paulo.
 
Cesar Oiticica Filho resolveu por iniciativa própria realizar o documentário Hélio Oiticica – ele é sobrinho do artista plástico. “Falei com alguns familiares, e tinha medo da reação deles ao filme, porque mostra a intimidade do Hélio”, falou Cesar em entrevista exclusiva ao SaraivaConteúdo. “No final, todo mundo gostou. Com esse filme, pude aprender mais sobre minha família como um todo e a admirar ainda mais”.
 
Composto praticamente só por imagens de arquivo, o documentário acompanha cronologicamente a carreira do artista de vanguarda. “Descobrimos algumas raridades durante a pesquisa”, afirma Oiticica. “Mesmo assim, alguns filmes que queríamos muito, como uma entrevista que ele deu para a BBC, não conseguimos achar”.
 
Por causa do envolvimento de Hélio com outros artistas no final dos anos 1960, a produção partilha algumas imagens e parte de sua trilha com Tropicália. “Ficamos apreensivos em ceder algumas coisas para o pessoal, mas é bom que os filmes possam conversar entre si”, explica Cesar.
 
Cesar Oiticica Filho recebe prêmio no Festival do Rio
 
Hélio Oiticica fez sua estreia no Festival do Rio, evento no qual foi eleito melhor documentário. Depois da Mostra de São Paulo, a intenção é começar a carreira internacional da produção. “Nosso objetivo sempre foi o Festival de Berlim”, disse Cesar. “A ideia original era estrear em Berlim e só depois ter exibições no Brasil, mas os convites surgiram e fizemos o caminho contrário”.
 
SURPRESA DOMÉSTICA
 
Karla Holanda tem larga experiência com curtas-metragens, documentais e de ficção. Ela finalmente faz sua estreia em longas com Kátia, documentário sobre a primeira travesti a ser eleita para cargo público no Brasil.
 
Cena do documentário 'Kátia'

 

“Nunca tinha achado um projeto que coubesse em um longa”, disse Karla durante debate após a primeira exibição de Kátia na Mostra de São Paulo. “Descobri a história por uma reportagem de jornal. Achei interessante que uma conquista social tão importante tenha começado no interior do Piauí, um local tido como machista e conservador”.
 
Depois de uma pesquisa em outras matérias sobre Kátia, Karla voltou a seu estado natal para conviver com seu objeto de estudo. “Minha intenção é mostrar a figura caótica que é Kátia”, afirma a cineasta. “Ela começa em um assunto e depois já muda para outra coisa”.
 
Além da personalidade da protagonista, o longa mostra como é feita a política nas pequenas cidades do interior do Brasil. “É populista, faz um corpo a corpo pessoal”, explica Karla.
 
LANÇAMENTO GUERRILHEIRO
 
Hélio Oiticica e Kátia ainda não têm distribuidores. Seus realizadores resolveram tomar em suas próprias mãos o desafio de colocar seus filmes nas salas comerciais de cinema.
 
Depois da sessão de Hélio Oiticica na Mostra, cada espectador recebeu um cartão convidando-o a investir na produção pelo Sibite, em regime de crowdfunding. “Fazer um filme é difícil, mas o trabalho não acaba quando ele está pronto”, explica Cesar Oiticica Filho. “Esse dinheiro vai ajudar na divulgação do filme, fazer cartaz, essas coisas”.
 
Karla Holanda e Kátia apresentam o documentário no Festival de Brasília
 
A estratégia de Kátia é um pouco diferente. “O filme ainda vai passar no Mix Brasil, no Rio e em São Paulo, mas não quero que ele vá a mais festivais”, relata Karla. “Vou falar com alguns exibidores para conseguir colocar o filme no circuito”. Por essa razão, ainda não há data de estreia para Hélio Oiticica e Kátia.
 
 
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