Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 27.03.2012 27.03.2012

Documentário recorre à emoção para contar os 100 anos do Santos

Por Andréia Silva
Com quantos craques se faz um time campeão? Ou quantos gols e títulos são necessários para que um clube de futebol entre para a história?
 
No caso do Santos Futebol Clube, a diretora Lina Chamie recorreu a todos esses detalhes e números para refazer a trajetória do time que completa 100 anos no próximo dia 13 de abril, mas preferiu puxar a narrativa pelo ingrediente principal dessa tal paixão nacional: a emoção.
No documentário Santos, 100 Anos de Futebol Arte, que estreia nesta terça-feira (27) durante o festival É Tudo Verdade, em São Paulo, o público fará uma viagem ao tempo pelos campos do Brasil, recordando os principais momentos do clube, contados por torcedores, jogadores e por quem acompanhou de perto cada passo dessa história.
“A maior dificuldade de fazer um filme sobre o centenário era justamente sair do simples registro dos fatos e jornalístico e ir para o registro emocional. O caminho que eu encontrei foi contar a vivência emocional dos fatos pela voz do jogador, do torcedor”, diz a diretora Lina Chamie, ela mesma uma torcedora fanática do alvinegro praiano.
Nos depoimentos, figuras desconhecidas e outras mais ilustres, como os torcedores famosos do clube, entre eles Marcelo Tas, José Roberto Toreiro, José Miguel Wisnik e Xico Sá, que, numa passagem engraçada e sincera, diz que “existe Dostoiévsky, Tolstói e o Santos; ele entra nesta categoria”.
Assista ao trailer:
 
 
Cercada de imagens raras, momentos marcantes, boas lembranças e histórias de superação (até aí, algo comum na trajetória de muitos clubes de futebol), era preciso encontrar o que diferenciava o time da Vila Belmiro dos demais. E não foi das tarefas mais difíceis.
Além de ter um rei no elenco, o Santos conquistou uma torcida 15 vezes maior que a população da sua cidade e é considerado o time que mais marcou gols na história do futebol mundial.
 
Revendo as jogadas de Pelé, Formiga, Giovanni, Robinho e suas pedaladas, Neymar, entre tantos outros, foi fácil reconhecer que ali se jogava um futebol-arte.
“Essa era a diferença, o futebol-arte dos meninos da Vila, que começa em 1978, com Formiga, Pita. É um futebol brincalhão, onde a beleza vence”, comenta Lina. Foi o time comandado por Chico Formiga, naquele ano, que inspirou o nome “meninos da Vila”, devido à idade de jogadores como Pita, Juary, Nilton Batata, Ailton Lira, entre outros, todos muito jovens. Geração após geração, o filme mostra que o jogo bonito, cheio de dribles e que desconcerta os adversários, é coisa que sempre se viu no Santos.
Em 1958 (20 anos antes do termo “meninos da Vila” aparecer), Nelson Rodrigues, o primeiro a chamar Pelé de rei em uma de suas crônicas esportivas, já notava que o estado elevado daquele garoto do Santos era algo que não se via todos os dias. Os dribles e categoria da geração de Pelé já davam pistas do futuro do clube.
“O que nós chamamos de realeza é, acima de todo, um estado de alma. E Pelé leva sobre os demais jogadores uma vantagem considerável: a de se sentir rei, da cabeça aos pés. Quando ele apanha a bola e dribla um adversário, é como quem enxota, quem escorraça um plebeu ignaro e piolhento”, escreveu Nelson após assistir a um jogo entre América e Santos, do qual saiu boquiaberto com a atuação de Pelé, então com 17 anos.
Para Lina, o ponto central do filme é o envolvimento afetivo das pessoas com esse esporte. “Nossa história se mistura com a do nosso time, é a relação mais duradoura e fiel que existe”, comenta a diretora, que guarda boas recordações dos jogos vistos, especialmente com o pai.
Aliás, a paternidade é outra via usada para contar a história do clube de uma forma mais emotiva. Na maioria das vezes, a escolha do time de futebol acontece por influência do pai, herança de família, e muitos depoimentos reunidos no filme trazem essa realidade com lembranças que começam com frases como “meu pai me levou ao estádio”, “meu pai havia falecido há quatro anos…”, “meu pai disse ‘Você tem que ir’”, e assim por diante.
“Procurei, assim, refletir a dimensão ampla e humana do futebol na nossa cultura”, diz Lina, que perdeu o pai durante as filmagens. “Revisitei até minha história revendo os jogos”, completa ela, que diz se lembrar de jogos importantes, como os títulos do campeonato Paulista conquistados em 1973 contra a Portuguesa – jogo que foi para os pênaltis e que Lina assistiu no Morumbi – e em 1984, quando estava fora do Brasil, mas ligava para o pai para acompanhar quase que em tempo real o andamento do jogo.
O filme refaz a trajetória do Santos até a conquista do tricampeonato pela Copa Libertadores, contra o uruguaio Peñarol, no Pacaembu (SP), no ano passado. A derrota para o Barcelona na final do mundial de clubes, em dezembro de 2011, ficou de fora, e é assunto que os santistas ainda preferem deixar de lado.
 
Encerrar o filme com essa vitória fecha um ciclo iniciado na era Pelé, há 40 anos, com a conquista dos primeiros títulos da Libertadores.
 
Não à toa, Neymar aparece dizendo que esse é o título mais importante da sua vida e que, de certa forma, o aproxima do rei.
Finalizado o capítulo do futebol, agora a diretora vai dedicar tempo para finalizar o documentário São Silvestre, cuja versão em curta metragem estreou em 2011, no mesmo festival É Tudo Verdade. Ele agora será transformado em um longa-metragem, ainda sem previsão de estreia.
 
Fã de esporte, Lina conta que encontrou um universo rico no tema, embora o filme sobre a maratona que corre as ruas de São Paulo seja mais sobre a relação da cidade com o esporte e também sobre superação.
 
“O esporte socializa, redime, é um exercício de humildade que tem um lado humano muito amplo”, diz Lina. Já no caso do futebol, nenhuma modalidade esportiva parece competir de igual para igual. “O futebol é um exercício de dramaturgia total”.
Santos, 100 Anos de Futebol Arte estreia no É Tudo Verdade com sessões em São Paulo, nos dias 27 (Cinesesc) e 30 de março (MIS), e no Rio de Janeiro, no dia 28 de março, no Espaço Itaú de Cinema, em Botafogo. A estreia em circuito nacional acontece em abril.
 
 
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