Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 17.08.2011 17.08.2011

Do jornalismo para a ficção: Eliane Brum fala sobre seu primeiro livro ficcional, Uma Duas

Por Andréia Silva
 
“Tinham me contado que os escritores eram uma espécie de deuses. Eles criavam um mundo em que podiam viver e escapavam deste pela porta dos fundos. Me preparei a vida inteira para ser deus. E só o que faço agora é desinventar a mim mesma. Acho que é isso. A realidade é uma ficção”.
 
O trecho do livro Uma Duas (Editora LeYa), a primeira obra de ficção da jornalista Eliane Brum, revela um pouco do que foi o esse novo processo para a autora. Um criar outro mundo para se desinventar.
 
Acostumada a ser uma “escutadeira” de histórias, como ela mesma diz, Eliane agora trocou de lugar: em vez de dar voz aos personagens do dia a dia, agora deu ouvidos ao seu “mundo de dentro” para esmiuçar os sentimentos mais profundos, nesse caso, da relação entre mãe e filha. Mas ela avisa: não se trata de uma obra autobiográfica.
 
Jornalista reconhecida – já ganhou os prêmios Esso, Vladimir Herzog e Rei da Espanha, e recebeu o Jabuti em 2007 por A Vida Que Ninguém Vê, além de ser finalista ao reconhecimento em 2009 por Olho da Rua (Globo, 2008) –, Eliane disse que escrever um livro de ficção sempre foi um sonho e que esse desejo começou a ganhar força quando a morte cruzou seu caminho no jornalismo.
 
No novo título, a sensibilidade à qual seus leitores estão acostumados em seus textos dá lugar a um sentimento mais agressivo para falar de que são feitos os laços entre mãe e filha, de como desamarrar essa união, talvez a mais inseparável de todas.
 
Em um bate-papo concedido ao SaraivaConteúdo ela falou um pouco mais sobre o mais recente livro. Confira.

Quando você percebeu que era hora de contar uma história ficcional?

 
Eliane Brum. Eu sempre sonhei em escrever um livro de ficção. Mas o desejo só se transformou em necessidade, em algo inescapável, quando comecei a trabalhar com a morte no jornalismo, especialmente nos anos de 2008 e 2009. Não a morte violenta, que é o tema mais frequente da imprensa, mas a morte que a maioria de nós vai ter, já que a maioria de nós não morre de bala perdida, acidente ou assassinato – mas de velhice e de doença.
 
Trabalhar com a morte me obrigou a um profundo confronto com a vida – e me fez perceber que há certas realidades que só a ficção suporta. E, para dar conta delas, eu precisava criar uma outra voz para mim. Uma voz na ficção. É assim que a ficção surge na minha vida, como uma perturbação muito grande, que acabou virando uma insônia e por um fim um romance.
Você costuma dizer que é uma “escutadeira”, com relação às histórias e reportagens. Para esse livro o processo foi diferente, afinal a história está em você.
Eliane Brum. Na ficção também sou uma escutadeira. Só que, em vez de escutar a vida do outro, o mundo de fora, como na reportagem, o desafio da ficção é escutar as vozes dos meus abismos, alcançar o mundo de dentro. Na reportagem, precisamos nos esvaziar de nossas visões de mundo, de nossos preconceitos e julgamentos, para se deixar possuir pela voz do outro e pelo seu mundo. Na ficção, a direção é oposta, mas o movimento é similar: temos de nos deixar possuir pela nossa própria voz – ou vozes.
Neste sentido, a experiência me fez pensar que o mais aterrorizante não é ser possuído por demônios, entidades, alienígenas ou mesmo vírus, como acontece na literatura e no cinema de terror. O mais aterrorizante e o que exige mais coragem é se arriscar a ser possuído por si mesmo. E esta é, pelo menos para mim, a experiência da ficção.
Uma curiosidade: a personagem Laura é jornalista. Por quê? Você escolheu por ser um universo que conhece bem?
Eliane Brum. Ela já me veio como jornalista. Nasceu assim. Não foi uma escolha racional, acho que preferia até que ela não fosse. Às vezes eu inclusive a detesto. Mas ela queria ser e não houve negociação. Mas ela é uma jornalista muito diferente de mim, em vários sentidos. Como eu não me canso de repetir, não é um romance autobiográfico.
Esses conflitos entre pais e filhos são um tema recorrente. No seu livro, esse conflito tem humor, drama, tristeza, reflexão, ironia. Qual é o ponto alto dessa relação entre?

Eliane Brum. Acho que este romance trata de um drama universal, que atravessa a História e assume várias roupagens conforme a época. É talvez sobre a principal questão feminina: como uma filha se arranca do corpo da mãe. No meu livro, este embate se dá no palco das palavras – tanto no que é dito, naquilo que vira palavra, quanto naquilo que não pode virar palavra, no para sempre indizível. Para mim, o mais bonito da relação das duas é a descoberta do amor, em meio a tanto ódio. Quando Laura escolhe ter um ato de amor pela sua mãe, Maria Lúcia – mas um ato de amor que é brutal. Se falar mais, acabo contando o final…

Foi complicado deixar a linguagem do jornalismo para contar essa história?
Eliane Brum. Não. Ter uma outra voz, uma voz na ficção, era uma necessidade profunda em mim. Essa necessidade me perturbava tanto nos últimos anos que ela já veio em uma forma definida, que penso ser muito diferente de minha voz na reportagem. Essa voz da ficção já habitava os meus subterrâneos e queria sair. Me parecia que, se não escrevesse esse romance, ela viraria um tumor e me arrasaria por dentro. Tenho medo de tudo que não vira palavra – embora saiba que a vida está sempre além das palavras.
Há uma frase em especial, logo no início do livro, em que você [ou melhor, a voz de Laura] diz: “como pode a vida absorver tanto horror e seguir adiante”. Talvez a maioria das suas reportagens no mostre, exatamente, histórias de vivência e sobrevivência. Ao longo desses anos, você conseguiu chegar a alguma resposta sobre o que faz essas pessoas seguirem adiante?
Eliane Brum. Na reportagem, a minha grande busca é por compreender o que dá sentido à vida das pessoas, já que a vida é caos. O fascinante, para mim, é descobrir como cada um cria uma vida a partir de muito pouco. E reinventa uma vida mesmo quando já está perdendo as unhas e os dentes, escorregando no precipício.
 

Acho que o que faz as pessoas seguirem adiante é a capacidade de fazer da sua vida uma história contada, é a possibilidade da narrativa. E, como narrativa, essa história pode ser inventada e reinventada. Isso é fascinante no humano – o fato de ele, como natureza, se reinventar na cultura. E por isso a reportagem não é o que faço, mas o que sou. Assim como a ficção.

 
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