Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 13.09.2011 13.09.2011

Do clássico ao contemporâneo

Por Bia Carrasco
 
Natureza plural e híbrida que se manifesta em língua e escrita. Essa é a grande característica da literatura latino-americana segundo Murilo Jardelino da Costa, um dos curadores de um evento que tem como objetivo discutir as questões sociais e estéticas da produção literária do nosso continente. O 1º Encontro com Pesquisadores da Literatura Latino-Americana Contemporânea, que acontece até novembro no Memorial da América Latina, na capital paulista, ainda busca destacar o relacionamento dessa produção com a mídia, o mundo globalizado e a indústria cultural.
 
“De alguma maneira, a literatura latino-americana antecipou discussões atuais sob a invenção de tradições e culturas, e pode ser colocada como uma releitura crítica do Ocidente. É só ler os jornais para ver como esse entendimento é conflitivo na Europa. Parece ser mais fácil hoje saber o que significa ser latino-americano do que europeu”, diz Murilo ao comentar sobre essa literatura que, durante décadas, foi considerada periférica em relação aos modelos centrais e que, para se desenvolver, adotou fórmulas próprias.
 
Sempre retratando a diversidade do seu povo, em especial a partir da década de 1980, a literatura latino-americana passa a dar voz de destaque ao negro, ao marginal, ao homossexual e às camadas da sociedade tradicionalmente vitimizadas ou discriminadas. O curador explica que “procura-se subverter as formas tradicionais de constituição espacial, desconstruindo a percepção unidirecional do homem e do mundo que ele habita, e instaurando o diverso, o oblíquo, o instável”.
 
A estética dos oprimidos
 
Entre as pesquisas expostas, sobre autores consagrados e ainda não tão conhecidos por parte do público, o primeiro evento abordou o grotesco na obra de Clarice Lispector. O próximo tema a ser discutido é a estética de Lima Barreto que, por meio da ficção, deu voz ao oprimido de sua época. Ministrada por Maurício Pedro da Silva no dia 13 de setembro, a palestra também fará o lançamento de seu livro A Resignação dos Humildes: Estética e Combate na Ficção de Lima Barreto.
 
 
Lima Barreto
 
Negro e combatente da grande imprensa, do establishment da Primeira República e da Academia Brasileira de Letras, Lima Barreto não só era um defensor radical dos oprimidos, mas ele mesmo também era um deles. Além disso, fez de sua obra uma espécie de “panfleto”, com inegável qualidade estética, em favor dos desfavorecidos.
 
Ao viver na periferia do Rio de Janeiro, capital do Brasil em sua época, Lima Barreto foi vítima de vários tipos de discriminação, o que refletiu tanto em sua vida quanto em sua produção literária. “Em muitos aspectos, acredito que ele tenha sido o precursor de um viés da literatura, sobretudo da chamada literatura marginal, que se produz hoje em dia. Sua principal vantagem, nesse sentido, é que vivenciou muito de perto a realidade oprimida que representou em sua obra, marcada pela exclusão e pela marginalidade pessoal e social”, observa Maurício.
 
Ao atuar com frequência na imprensa, Lima Barreto praticamente aprendeu a produzir seus romances escrevendo. Além de romancista, o autor também foi um grande cronista “responsável por tornar a crônica um gênero mais fluido, mais próximo do prosaísmo cotidiano, apesar de essa já ser uma característica intrínseca do próprio gênero”, explica Maurício ao destacar estudos realizados sobre a atividade do autor como cronista, que o apontam tanto como um observador atento à dinâmica social do Rio de Janeiro das primeiras décadas do século 20 (ao lado de nomes como Machado de Assis e João do Rio), quanto como um engajado combatente dos oprimidos do mesmo período (ao lado de Antônio Torres, como exemplo).
 
Por meio de seus personagens, que reproduzem, de certo modo, as experiências-limite que o autor conheceu na época em que viveu, Maurício destaca como ele utilizava “tanto uma resistência sutil, em passagens relativamente discretas de seus romances, quanto uma resistência mais feroz, sanguínea, que não hesitava em pregar abertamente a revolução”. Por não estar afinado com as ideias sociais da elite, Lima Barreto foi recusado pela ABL, como conta o pesquisador: “a Academia Brasileira de Letras, em sua época áurea, antes da decadência que se verificou a partir da década de 1920, era regida mais pela ética do que pela estética. Mas é preciso entender que não se tratava de qualquer ética, senão a de uma ética burguesa, urbana, preferencialmente branca e bem comportada, tudo o que Lima Barreto não era”.
1º Encontro com Pesquisadores da Literatura Latino-Americana Contemporânea – Memorial da América Latina – próximos eventos
 
13/09/2011 às 19h30 – Sala dos Espelhos
A Resignação dos Humildes: Estética e Combate na Ficção de Lima Barreto, por Maurício Pedro da Silva.
 
07/10/2011 às 9h30 – Biblioteca Victor Civita
Poéticas da Imanência: Ana Cristina César e Marcos Siscar, por Annita Costa Malufe.
 
19/10/2011 às 19h30 – Biblioteca Victor Civita
Mesa redonda: Literatura e Modernidade na América Latina, por Rita Couto e Daniel Glaydson Ribeiro.
Um estudo da poética de Vicente Huidobro, por Rita Couto.
Condições e forjaduras da linguagem para a poesia épica moderna em Altazor de Vicente Huidobro, por Daniel Glaydson Ribeiro.
 
21/11/2011 às 19h30 – Biblioteca Victor Civita
"No entremeio das línguas: a poesia neobarrosa de Néstor Perlongher", por Pablo Gasparini.
 
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