Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 04.02.2013 04.02.2013

‘Divino Cartola – Uma vida em verde e rosa’ resgata histórias do poeta do samba

Por Maria Fernanda Moraes
 
Muitos leitores talvez não o reconheçam pelo seu nome de batismo, Angenor de Oliveira. Mas é só falar em Cartola que imediatamente a associação dele com o samba e com a Estação Primeira de Mangueira se faz no imaginário popular. Além do apelido famoso – que ganhou ainda jovem, quando trabalhava como ajudante de pedreiro e usava um chapéu-coco que os colegas assimilaram a uma cartola –, Angenor também atendeu por muitas outras alcunhas: “Divino”, “Mestre”, “Gênio Musical”, “Poeta do Samba”.
 
As histórias desse carioca nascido no Catete e que fundou a Verde e Rosa são reveladas por Denilson Monteiro na fotobiografia inédita Divino Cartola – Uma vida em verde e rosa. O livro, editado pela Casa da Palavra, traz também no encarte um CD com 11 clássicos do compositor, cantados por ele em seu último show gravado.
 
Denilson resgata a história do sambista a partir de entrevistas, uma série de manuscritos de letras emblemáticas, poemas publicados pela primeira vez e imagens históricas raras, como fotos do casamento de Cartola com Zica e dos encontros musicais com Dorival Caymmi, Ismael Silva e Tom Jobim na lendária casa de shows Zicartola, palco onde talentos como Paulinho da Viola foram revelados.
 
Capa de Divino Cartola – Uma Vida em Verde e Rosa
 
Além disso, algumas passagens famosas da vida do compositor são esclarecidas. Denilson confirma, por exemplo, a conhecida história de que Sérgio Porto encontrou por acaso Cartola num bar em Ipanema, numa época em que o escritor e a maioria das pessoas achavam que o compositor estaria morto. O historiador também aborda o caso da música “O mundo é um moinho”, que muitos acreditavam ter sido composta para a filha de Cartola, quando ela saiu de casa. Mas Denilson revela que, na verdade, foi inspirada em um amigo abandonado por sua mulher.
 
O autor Denilson Monteiro
 
Como surgiu o interesse em escrever o livro sobre ele?
Denilson. Esse projeto nasceu com Nilcemar Nogueira, neta de Cartola, e havia outro escritor envolvido, o Vagner Fernandes. Eu fui chamado para realizar a pesquisa de imagem e, nesse meio tempo, Vagner não teve como prosseguir com o trabalho e fui convidado pela Casa da Palavra. Obviamente, não tive como recusar um personagem como o Angenor de Oliveira.
 
O livro também traz manuscritos. Onde estava guardado esse material?
Denilson. Com Nilcemar [a neta de Cartola], que faz um bonito trabalho de preservação das raízes do samba.
 
Quais são os entrevistados do livro?
Denilson. Os principais destaques são o Sérgio Cabral – alguém que eu já queria ter entrevistado desde o meu primeiro livro e cheguei perto no segundo –, grande amigo do Cartola e verdadeira memória viva do samba, Carlinhos Vergueiro e a Nilcemar. 
 
O livro também desmistifica algumas lendas sobre a vida de Cartola. Como foram essas descobertas?
Denilson. No caso de "O mundo é um moinho", descobri isso num depoimento que Zica deu ao programa "Roda Viva". As demais descobertas vêm de outros livros, revistas, jornais, entrevistas, depoimentos do Cartola em programas de TV… 
 
Cartola ao centro com o violão
Cartola com chapeu na mão no Cassino da Urca

 

É também exposto um lado mais politicamente incorreto do artista, mais boêmio, mulherengo, bom de copo e propenso a confusões. Você teve algum cuidado para retratar isso no livro?
Denilson. Eu sou partidário da opinião de que não é o que se escreve, mas a maneira como se escreve. Anteriormente, escrevi dois livros sobre pessoas com vidas muito mais polêmicas do que a do Cartola. Contei tudo o que queria e jamais sofri qualquer crítica dos familiares, e também não fui acusado de escrever biografias "chapa branca". 
 
Cartola com a mulher durante a missa em comemoração aos seus 70 anos
 
Esse trabalho te chamou a atenção de alguma maneira diferente em relação aos seus outros personagens já biografados?
Denilson. O que me chamou a atenção foi o fato de ninguém ter falado mal do Cartola. Com Carlos Imperial e Ronaldo Bôscoli, duas figuras bastante polêmicas, a coisa foi diferente, pois volta e meia aparecia alguém para criticá-los. Isso tem sido uma experiência nova para mim (risos).
 
Quais os projetos futuros?
Denilson. Eu estou trabalhando na pesquisa para o site do radialista César Ladeira, homem que revolucionou o rádio brasileiro, e também vou escrever sua biografia. Também espero obter a autorização para escrever a biografia de Elis Regina, uma personagem de quem venho falando em todos os meus livros, inclusive nesse sobre Cartola.
 
Em conversa com o pesquisador, o SaraivaConteúdo pediu que ele elegesse algumas passagens do livro:
 
Um fato surpreendente da vida de Cartola
Denilson. O lado irresponsável dele na juventude.
 
Um momento triste
Denilson. Exílio na favela da Manilha no Caju, quando foi até dado como morto lá na Mangueira.
 
Uma passagem engraçada
Denilson. O conhaque e a cerveja que tomava às 8h da manhã, [fato] que deixava Sérgio Cabral espantado, mas que ele justificava dizendo que acordava cedo. E realmente acordava: pulava da cama às 4h da manhã para fazer as tarefas de casa, como regar a roseira que acabou dando origem a uma das mais belas canções já compostas.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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