Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 23.11.2012 23.11.2012

Disparos: entre o policial e o multiplot

Por Edu Fernandes
 
Uma das constantes críticas que o cinema brasileiro recebe é a repetição de temas e cenários. Muitos espectadores reclamam do que julgam ser um excesso de produções que falam da seca no Nordeste ou da violência nas favelas dos centros urbanos, por exemplo.
Em sua estreia na direção de longas-metragens, Juliana Reis foge dessa sensação de redundância com Disparos, que estreia dia 23 de novembro. Seu filme se utiliza de tramas paralelas a partir de um evento central que as une, a exemplo de Crash – No Limite (2004).
Como em Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios (2011), Gustavo Machado interpreta um fotógrafo. Seu personagem é assaltado enquanto está dentro de seu carro estacionado. Antes que o bandido consiga fugir com o equipamento profissional de Henrique, ele é atropelado. “Agora eu penso que o Henrique é o passado do Caubi”, disse Gustavo em conversa telefônica com SaraivaConteúdo. O ator relaciona seus dois fotógrafos do cinema. “Ele é traumatizado pela violência e resolve ir para o meio do mato tirar fotos, onde conhece Lavínia”.
A partir desse incidente, vários personagens têm suas vidas influenciadas na noite em que o roteiro se desenvolve. Uma dessas figuras é o Inspetor Freire, responsável pela investigação do caso. Sua personalidade forte gera os melhores momentos cômicos do filme, com humor típico do cinema policial.
O policial é vivido por Caco Ciocler, ganhador do prêmio de melhor ator coadjuvante no Festival do Rio 2012 por Disparos. “Sempre acompanho o festival, por isso este é um prêmio que eu sempre quis ganhar”, comentou o ator.
A diretora reconhece as semelhanças entre seu longa e os outros multiplots, como Babel (2006) e Vidas que se Cruzam (2008). “Sou banhada por esses filmes”, afirmou Juliana Reis. “São histórias bastante pungentes, e é o que a gente vive na sociedade de hoje. A gente tem uma coisa muito forte em comum com esses filmes, que é falar de conflitos de existências. Aí a gente acaba confrontando no mesmo caldeirão de contrastes e contradições”.
 
Gustavo Machado é o fotógrafo Henrique em Disparos
 
Ciocler tem experiência em seu currículo com 2 Coelhos (2012), título que flerta com o cinema de ação norte-americano, mas com pegada brasileira. “São filmes mais baratos e mais próximos ao espectador”, analisa o ator. “A maneira como a gente entende a narrativa hoje em dia é diferente. Tomamos consciência de que o ser humano não é linear, por isso a narrativa não pode ser assim.”
Apesar da proximidade com os Estados Unidos, Caco vê semelhanças entre Disparos e outra cinematografia. “Eu acho que se aproxima do cinema argentino – do qual sou fã – por deixar de tratar da questão da violência no plano macro. Como os outros filmes temáticos, ele parte do micro, fala das pequenas violências e corrupções”.
Essa faceta social da fita é destacada por seu protagonista. “Todo mundo sofre violência, quem vive em centro urbano está exposto a ela”, afirmou. “No filme, a violência está em erupção, prestes a acontecer. Esse formato mostra um princípio existencialista, de que todos os humanos estão ligados”.
 
Juliana Reis sobe ao palco do Cine Odeon para receber o prêmio de Caco Ciocler no Festival do Rio
 
Juliana defende uma nova forma de olhar o tema de sua produção. “As violências não são mais questões de classe”, disse. “É mais uma questão de autocrítica social. O filme que eu quis fazer olha para si mesmo, com certa desconfiança”.
O objetivo de Disparos é fazer o espectador perceber os comportamentos tidos como inocentes e normais, mas que constroem a cultura da corrupção no Brasil. A diretora afirma que a assimilação dessa proposta gera uma recepção interessante. “Sempre que acompanhei sessões, percebi que as pessoas riam em alguns momentos do filme que nem deveriam ser tão engraçados”, comentou. “É mais do que um riso cômico, é um riso de surpresa e reconhecimento das situações”.
Veja o trailer de Disparos:
 

 

 
 
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