Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Música 05.10.2010 05.10.2010

Discos de vinil ganham exposição, debate e voltam às lojas


   Por Bruno Dorigatti

O vinil está de volta e, ao que parece, para ficar. Quemgosta de música e acompanha o mercado fonográfico deve ter ouvido falar davolta da Polysom, a única fábrica de bolachões da América Latina, situada emBelford Roxo, na Baixada Fluminense, Rio de Janeiro. Ela havia sido fechada em2007, mas voltou a funcionar em 2010, quando João Augusto, dono da Deckdisc,resolveu comprá-la e remontá-la, depois de muita insistência do filho Rafael.Além de lançar discos novos com bandas de seu catálogo, como Pitty, Nação Zumbie Fernanda Takai, a fábrica de vinis está produzindo bolachões com clássicos damúsica brasileira, encomendados pelas gravadoras que detém os direitos deálbuns como África Brasil e A Tábua de Esmeralda, de Jorge Ben, Todos os olhos, de Tom Zé, entre outros. 

Outro indicador de que a cultura do vinil está ativa é oevento a ele dedicado e que acontece até o próximo domingo, 10 de outubro, noCentro Cultural Banco do Brasil (CCBB), no Rio de Janeiro, e leva justamenteeste nome: Vinil é Cultura. Com o subtítulo “As influências e tendências sob aótica de DJ Hum”, o saguão térreo do CCBB recebe a exposição com capasclássicas dos vinis da coleção do DJ Hum, além de discotecagens, apresentaçõesmusicais e bate-papo sobre o universo dos bolachões pretos. Na abertura, sexta,1. de outubro, DJ Hum, da dupla Thaíde & DJ Hum, responsáveis pelo clássicodo rap brasileiro dos anos 1980, “Sr. Tempo Bom”, discotecou alguns clássicosdos bailes de antanho, movidos a black music, como Jorge Ben e Tim Maia,Michael Jackson e Jackson 5, Furacão 2000, Paralamas do Sucesso e RacionaisMC’s, James Brown e Originais do Samba, mas antes debateu com, entre outros,João Augusto e Kid Vinil o presente e futuro do vinil no Brasil. [Ao final dotexto, a programação deste final de semana] 

Se por aqui a produção promete crescer a partir de agora coma reativação da Polysom, cujas encomendas das grandes gravadoras focadassobretudo nos clássicos vêm crescendo, lá fora ela nunca chegou a cessar detodo. Segundo dados apresentados por Augusto, 2,9 milhões de discos de vinilforam fabricados no ano passado nas 40 fábricas existentes no planeta, 11 delassituadas nos Estados Unidos. Destas, apenas três realizam todo o processo, queenvolve, por exemplo, a galvanoplastia, procedimento que utiliza muitos produtosquímicos e, por isso, necessita de licenças ambientais para tal. Em relação aovolume dos discos, ele vem crescendo, ainda mais que, hoje em dia, singles deartistas como Beyoncé saem primeiro em vinil compacto de sete polegadas.“Claro, ele chega no formato digital via internet primeiro, mas o primeiroformato físico é em vinil”, garantiu o DJ Hum, que também recordou a históriado Coletivo Motirô, que estourou em 2005 com “Senhorita”, cujo compacto vendeumais de 10 mil cópias de mão em mão, basicamente nas apresentações do grupopaís afora. Já a indústria fonográfica, na época e até recentemente, quandoteve que voltar a encomendar os bolachões para a Polysom, taxava a ideia de seprensar discos de vinil de um lançamento como “sonho de artista”. “Sonho deartista” parece não ser o termo mais recomendado para se falar na produção dehoje. A Polysom inclusive está produzindo todo o catálogo “de uma grande banda”cujos direitos estão com a EMI. O nome, João Augusto não revelou por conta do sigiloincluído no contrato, mas não é difícil deduzir que se trata da Legião Urbana,ainda mais quando se lê que a banda segue vendendo 20 mil cópias por mês, alémde os próprios remanescentes do trio, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá, játerem falado a respeito. Renato Russo inclusive era um fã ardoroso dosbolachões e fica chateado quando seu trabalho deixou de sair no formato de longplay (LP), encaminhando inclusive uma carta de um fã que reclamava por nãoencontrar o lançamento da banda em vinil, em 1994.

 

Polysom 

João Augusto definiu a Deckdisc, como uma defensora deformatos, seja ele digital, onde a gravadora atua desde que o mp3 começou a sepopularizar, ou físico, como o vinil e o CD. “O CD inclusive é uma mídiaexcepcional”, afirma Augusto. “O boom de vendas quando ele surgiu não foi à toa,já que trouxe a portabilidade, que permitia escutá-lo no carro, por exemplo,com capacidade para o dobro de músicas em relação ao vinil, acessibilidadeinstantânea de uma música ou de um trecho dela. Estão matando o CD, não meconformo”, disse. Sobre a retomada da Polysom, ele afirma não ser algosaudosista. As pesquisas e estudos para comprá-la e reabri-la iniciaram emsetembro de 2008 e em abril de 2009 o negócio foi fechado. “Desde então,estamos em teste a cada novo disco que fabricamos. Fizemos uma fábrica paraconcorrer com as melhores, que estão nos Estados Unidos e na Alemanha.Inclusive produzimos o vinil da Pitty, Chiaroscurolá fora e aqui, para podermos comparar. O feito aqui é melhor”, gabou-seAugusto. 

O trabalho é todo artesanal, com prensas manuais, sempressa. Ou melhor, levam o tempo necessário que um trabalho feito sem o auxíliode computadores demanda. João viajou para conhecer as fábricas, os processos emanuseio do material necessário à fabricação. “Há o mito de que os EstadosUnidos só fazem disco bom, mas é mentira. Por conta da mistura do material,hoje importado da Tailândia, a qualidade cai muito. Aqui, nós fazemos estamistura, ela não vem pronta. Não tem pipoca e dura mais”, explicou o dono daPolysom. O que lhe tira profundamente do sério, porém, é alta carga de impostosque incide sobre o preço final do vinil, que chega a 66%. Tal valorjustifica-se pelo grande quantidade de produtos importados, ainda quemisturados aqui, mas que vêm do exterior, como o PVC, oriundo da Colômbia. Esobre o suposto apoio do Ministério da Cultura, ele diz simplesmente nãoexistir. “Não acreditem no MinC, não há nenhum apoio em relação à cadeiaprodutiva ou à diminuição dos impostos. A Polysom vive das pessoas que látrabalham”, disse. João recorda que abriu a Polysom para atender o mercadoindependente da música – pequenos selos como a Monstro Discos, de Goiânia, ouDJs que prensam os discos que tocam – que foi quem sustentou, ao lado dos discosevangélicos, a fábrica de vinil até seus últimos dias, em 2007. “Hoje é o menorpúblico que atendo”, lamenta. E responde a quem lhe chama de ladrão, por cobrarem torno de R$ 80 por vinil: “Podem me chamar de ladrão, mas não posso pagarpara trabalhar”, afirmou, enfatizando que apenas aumentar o volume de produçãonão reduziria o preço consideravelmente. É preciso que os impostos,responsáveis por 66% do preço final de um vinil fabricado na Polysom, caiamconsideravelmente. Hoje, dos R$ 80 pagos pelo disco, R$ 27,20 representam seuscusto final, incluídos aí toda a cadeia produtiva, e R$ 52,80, os impostos.

 

Mas e as vitrolas?

Além da fabricação de discos novos, é possível encontrar emqualquer cidade mediana do país sebos que vendem velhos discos, de qualquerperíodo e gênero musical preços módicos, a partir de R$ 1. Mas onde tocar estesdiscos, caso você não tenha herdado a vitrola de seus pais ou avós – ou mantidoa sua, dependendo da idade que tem? Não se fabricam mais vitrolas no país, as que existem sãoimportadas. Kid Vinil sugeriu marcas como a Íon, Vestax e Crosley, que fabricamtoca-discos mais simples, apenas com entrada USB, até mais sofisticados (ecaros, naturalmente), que incluem base para iPod, gravador de CD, leitor decartão de memória. Os preços, lá fora, começam em US$ 60 e chegam a US$ 350. Para quem procura por peças ou equipamentos usados, KidVinil indicou a Casa dos Toca Discos (Catodi),na Rua Santa Ifigênia, em São Paulo. No Rio de Janeiro, o lugar indicado é aRua República do Líbano, atrás da Praça Tiradentes, no Centro, que concentradiversas lojas de equipamento de som.

 

Vinil é cultura 

Além da exposição de capas de vinil da coleção do DJ Hum, oevento Vinil é cultura segue no CCBB Rio até domingo, 10 de outubro. Nesta sexta, 8 de outubro, acontece outro debate sobredireito autoral, com DJ Hum, Nega Gizza, Maria Creusa (consultora sobre otema), Gustavo Vianna e Chico Ribeiro (da Abramus) e Eduardo Pimentel (advogadoda Indie Records), a partir das 19h30. Depois a noite segue com discotecagem deDJ Hum e Nega Gizza no saguão térreo do CCBB. No sábado, 9 de outubro,  show classe A, no mesmo local, às 21h30 comDJ Hum, Coletivo Motirô e participação de Gerson King Combo, BNegão e Thalma deFreitas. E no domingo, fechando o evento, workshop de Dança Urbana comMarcelinho e Drika, da Backspin Crew, entre 15h e 16h 30, seguido de discotegamcom DJ Hum, DJ Negralha e Lula Spuerflash, com um set especial só com groovesbrasileiros.

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