Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Música 20.08.2014 20.08.2014

Discos clássicos voltam aos palcos

Por Felipe Candido
Ao longo da história da música, alguns álbuns de renomados artistas se tornaram clássicos. Por sua relevância artística e histórica, muitos discos se tornaram importantes referências para as gerações seguintes de músicos e ouvintes. Com o passar dos anos, a possibilidade de ouvir ao vivo tais obras foi ficando cada vez mais remota. Com a perda de muitos dos autores ou a dedicação dos intérpretes originais a novos trabalhos – ou ainda por se tratar de projetos especiais –, esses discos pareciam destinados a ficar longe dos palcos.
Mas nos últimos anos esse quadro parece estar se revertendo, com novos nomes da música criando shows temáticos, que se debruçam sobre obras clássicas da história musical, e apresentando ao vivo, com interpretações pessoais, esses trabalhos tão importantes. Assim, discos de Chico Buarque, Bob Marley, Secos & Molhados, Caetano Veloso e Martinho da Vila, entre outros, são revividos nas vozes de Bixiga 70, Céu, Karina Buhr, Rômulo Fróes, Otto e muitos outros artistas contemporâneos.
CLÁSSICOS SÃO REFERÊNCIA
Grande parte desses novos shows nasceu de convites para projetos especiais de homenagens. A partir de então, esses artistas passaram por um processo novo, para reviver algo que estava gravado na memória afetiva. “Fiquei feliz demais com o convite [feito pelo produtor musical Ramiro Zwetsch para o projeto 73 Rotações, com releituras de discos lançados originalmente em 1973], e foi um desafio que virou uma brincadeira maravilhosa. A gente se diverte muito fazendo esse show. Escutei muito quando era pequena, porque minha mãe sempre foi muito fã, então cantar e tocar essas músicas, tanto para mim quanto para a banda (formada por Fernando Catatau na guitarra, Regis Damasceno no violão, Mau no baixo, André Lima no teclado, Guizado no trompete e Clayton Martin na bateria), é uma experiência incrível!”, conta Karina Buhr, responsável por reviver o disco de estreia dos Secos & Molhados.
Karina Buhr
A cantora paulistana Céu também criou um show para esse projeto, e ficou a cargo dela uma releitura de Catch a Fire, um dos maiores clássicos da carreira de Bob Marley ao lado da banda The Wailers, artistas com os quais a cantora tem grande afinidade. “É uma música universal, atemporal, de resistência e que fala diretamente à alma das pessoas. Isso é muita coisa para se conseguir juntar, em todas as canções, e fazer um álbum clássico como é o Catch a Fire. É uma influência grande, um estudo que iniciei na pré-adolescência e nunca mais parei de admirar”, relata a cantora, que também decidiu fazer mudanças em seu trabalho para ficar mais próxima à sonoridade original do disco. “[O processo de criação de arranjos] foi meticuloso, logo vi que precisaria de ‘massa sonora’, então aumentei a banda, gravei os backings disparados pelo DJ para somar com os vocais dos meninos, estudei muito mesmo. Foi uma imersão no mundo dos Wailers”.
Além da experiência de reviver grandes álbuns, a recepção do público também tem sido um diferencial para as carreiras das artistas. “Tem sido maravilhoso fazer esse show. Um monte de gente emocionada de ouvir num show músicas que há muito não veem dessa forma, pessoas cantando tudo, gente ouvindo pela primeira vez. Muito emocionante para a gente a reação do público, sempre”, conta Karina Buhr, que tem apresentado regularmente o show, desde a estreia, ocorrida em 2013 na cidade de São Paulo.
Céu também afirma ter colhido bons frutos dessa experiência, em especial para sua carreira, após esse mergulho tão profundo no universo de Bob Marley: “Marley usava sua música quase que como uma arma. Combativo, porém amoroso; profundo, porém sucinto e popular… Espero que eu consiga trazer um pouquinho dessa alquimia, à minha maneira, para o meu som. Isso é coisa dos grandes artistas, e eu reverencio com toda admiração”, finaliza a cantora, que também colocou o show na estrada após a participação no projeto.
Céu
CLÁSSICO PARA CRIANÇAS
Mais uma experiência nascida de um convite – dessa vez do Centro Cultural Banco do Brasil de Brasília – aconteceu com o grupo paulistano Bixiga 70, mas essa empreitada foi mais inusitada. O desafio era ganhar os palcos com um dos maiores clássicos da música infantil, Os Saltimbancos, de Chico Buarque, lançado originalmente em 1977.
“A gente foi convidado em janeiro de 2013 para fazer parte de um projeto chamado Pequenos Contemporâneos, que reunia uma série de artistas contemporâneos para remontar esses discos clássicos. De lá para cá, a gente foi tomando gosto e tem feito esse espetáculo; sempre que surge algum convite, a gente mantém ele vivo, porque a gente gosta bastante”, conta Cuca Teixeira, integrante do Bixiga 70.
Para o grupo, o desafio foi fazer a aproximação entre as clássicas canções do álbum e a sonoridade tão particular da banda. “Foi um desafio grande, para não ser um cover do disco. A gente queria mesmo era pegar as músicas e rearranjar, fazer um trabalho que tivesse a nossa cara. Foi trabalho duro, mas no final a gente chegou num resultado que deixou a gente muito feliz, musicalmente”, relata Cuca. Além disso, a banda contou com um auxílio importante nesse projeto: “A gente é uma banda instrumental, então, para esse show, nós convidamos quatro cantores para dar vozes aos personagens. A Anelis Assumpção faz a Gata; a Alzira E., a Galinha; o Maurício Pereira faz o Cachorro; e o Skowa canta o Jumento. São pessoas com quem a gente já tinha afinidade, eles fazem parte de nossa ‘família musical’. E também convidamos a Andréa Bassitt, uma atriz, que faz uma parte mais cênica, mais narrativa. O disco tem isso; além das músicas, tem a história que é contada”.
Com Os Saltimbancos, o Bixiga 70 tem experimentado novas sensações ao subir ao palco. “Para a gente é uma delicia, porque a gente chega numa galera que não chegava antes. Às vezes os pais conhecem nosso trabalho e querem levar os filhos. Ou gente que nunca ouviu o Bixiga, mas quer ver por conta do disco. É um astral diferente quando a gente faz esse show. Tem muita criança, coisa que geralmente não tem muito nos nossos shows tradicionais, e a criançada cantando, é uma delicia”, finaliza Cuca.
Artistas contemporâneos revivem clássicos da música em shows especiais
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