Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Outros 12.07.2011 12.07.2011

Discípulo do soul, Zé Ricardo cai bem no samba no disco ‘Vários em Um’

Por Mauro Ferreira, do blog Notas Musicais
Discípulo do soul, Zé Ricardo cai bem no samba no disco 'Vários em Um'
Resenha de CD
Título: Vários em Um
Artista: Zé Ricardo
Gravadora: Warner Music
Cotação: * * * *

Historicamente, cantores e compositores brasileiros ligados ao funk e ao soul norte-americano sempre encontraram dificuldades para manter uma carreira fonográfica regular e coerente com seus princípios artísticos. Uns – como Tim Maia (1942 – 1998) e Sandra de Sá – acabaram direcionados mais cedo ou mais tarde para o brega. Outros mais apegados ao conceito original de sua música – como Hyldon e Cassiano – acabaram batendo de frente com a indústria do disco e foram jogados à margem do mercado fonográfico. Possível exceção dessa regra, Ed Motta encontrou abrigo na indie Trama. Cantor e compositor carioca descendente dessa linhagem soul, Zé Ricardo integrou o grupo Fibra e lançou três álbuns – Zé Ricardo (1998), Tempero (2002) e Zé Ricardo e Convidados ao Vivo (2005) – sem consolidar de fato uma carreira fonográfica. Hoje com 40 anos, o artista apresenta seu quarto álbum, Vários em Um, produzido por Plínio Profeta com bom uso de programações eletrônicas. A novidade é que o repertório autoral cai no samba. Há grooves de funk e soul em temas suingantes como Encanto de Fada (Zé Ricardo e Edu Krieger), Vários em Um (Zé Ricardo e Jorge Salomão) – faixa que tem também algo de samba e do balanço de Lenine – e Arranhar o Céu (Zé Ricardo e Davi Moraes). Contudo, A Filha da Sorte (Zé Ricardo) e A Corda Bamba (Zé Ricardo e Régis Faria) são bons sambas à moda tradicional – prováveis reminiscências da memória afetiva de Zé Ricardo, cujo pai armava rodas de samba e choro. Sim, justiça seja feita, o samba desce bem em Vários em Um. Ouça Chibata (Zé Ricardo e Mauro Ribas) e comprove que Zé não parece um estranho no ninho do samba carioca. E o fato é que Vários em Um é seu melhor e mais coeso disco. Com levada de samba-rock e ecos do som de Seu Jorge, Me Deixa (Zé Ricardo e Gabriel Moura) é hit em potencial se a faixa for trabalhada nas rádios e TVs pela Warner Music. Exato Momento (Zé Ricardo) é outra música com chance de fazer sucesso se entrar na trilha sonora de uma novela. A bela balada aparece no álbum em duas versões. Na primeira, Exato Momento é ouvida somente na voz de seu autor. Na segunda, alocada ao fim do disco, a balada é interpretada por Zé Ricardo em dueto com TIM, vocalista da banda Xutos e Pontapés, ícone do rock português. Aliás, mais duas baladas de bom nível – Um Beijo que Atravessa a Madrugada (Zé Ricardo) e Qualquer Palavra (Zé Ricardo e Dudu Falcão) – encorpam o repertório de Vários em Um. A rigor, a única faixa realmente dispensável é a regravação modernosa de Eu Só Quero um Xodó (Dominguinhos e Anastácia) – até porque este xote lançado por Gilberto Gil em 1973 já vem sendo muito revisitado ao longo dos anos. Enfim, caindo no samba ou nos grooves que evocam o suingue do funk e do soul, Vários em Um deixa ótima impressão, se firmando como o melhor título da pouco ouvida discografia de Zé Ricardo.

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