Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 14.11.2012 14.11.2012

Diretor e produtora de ‘Valente’ contam como criaram uma princesa cheia de atitude

Por Carolina Cunha 
 
Nos tradicionais contos de fadas, a princesa sempre espera por um príncipe encantado para mudar seu destino. Não em Valente, o primeiro filme de animação da Pixar que traz uma mulher como protagonista.
Lançado pela Disney em julho de 2012, o longa-metragem chega neste mês às lojas, em DVD e Blu-ray, com um vasto material bônus como cenas extras, comentários da equipe, curta-metragens e um minidocumentário com os bastidores das filmagens na Escócia.
A animação conta a história de Merida. Filha de um Rei da Escócia medieval, ela é uma jovem princesa que faz tudo que as meninas de sua época não podem: praticar o arco e flecha, cavalgar entre os bosques, rir alto demais e fugir dos bordados. Além de uma vasta cabeleira ruiva, ela também é dona de um vibrante espírito de independência.
Um dia, sua mãe avisa à Merida que chegou o momento dela se casar e tornar-se uma dama. Casar com um príncipe? Não é este o plano da garota, que ao confrontar um antigo costume, faz com que uma bruxa jogue um feitiço desastroso na mãe. O perigo força a princesa a usar toda a sua coragem a fim de desfazer a maldição e evitar o caos no Reino, antes que seja tarde demais.
O SaraivaConteúdo conversou por telefone com o diretor Mark Andrews e com a produtora Katherine Sarafian, ambos da Pixar, sobre este inusitado filme inspirado nos conto de fadas, com um humor que pode agradar crianças e adultos.
 
A produtora Katherine Sarafian
Mark Andrews
Antes de dirigir Valente, quando estreou como diretor principal num longa, Mark Andrews esteve à frente do curta A Banda de Um Homem Só e participou dos filmes John Carter: Entre Dois Mundos e O Gigante de Ferro.
Já Katherine, uma produtora veterana, com uma carreira de 18 anos no estúdio, é uma das mentes por trás do projeto, tendo passado por todas as etapas durante os seis anos de produção da animação.
 
Como surgiu a história de Valente
 
Katherine Sarafian. A ideia veio da diretora original (Brenda Chapman), que na época tinha uma filha de seis anos, com um espírito muito questionador. Esse conflito central que mostramos no filme (entre mãe e filha), a diretora estava passando por isso. A gente gosta de escrever sobre o que conhecemos. Fora que ela realmente adorava a Escócia e o diretor, Mark, também tem ascendência escocesa. Eles estavam animados com essa possibilidade. 
 
Valente é o primeiro filme da Pixar que traz uma mulher como o personagem principal. Por que demorou tanto?

Mark Andrews. Não foi uma escolha do tipo “agora precisamos de um personagem feminino”. A gente não tem fórmulas na Pixar. Todas as ideias saem das cabeças dos diretores e elas surgem de um jeito natural. Todos são muito apaixonados pelo que fazem. Então quando veio o argumento da diretora, de mostrar uma heroína forte e aventureira, a gente percebeu que nunca tinha feito isso antes.

 
Merida é muito diferente das mulheres tradicionais dos filmes de animação, como A Branca de Neve e Ariel. O que você gosta mais nesta personagem?

Mark Andrews. Eu gosto muito deste tipo de heroína. Ela está numa fase de transição, tornando-se adulta e todo mundo passa por isso. Ela é atlética e fala o que pensa. Só que ela é responsável pelos próprios erros, ela está descobrindo o mundo e quer fazer suas próprias escolhas, eu acho que isso pode inspirar garotas de qualquer lugar. Ser valente para ser quem você é.

 
A família dela é muito divertida e o lar é cheio de afeto. Isso também é diferente das antigas histórias, não é?

Mark Andrews. Desde o começo a gente quis fazer uma família divertida, que tivesse uma dinâmica familiar mais real. Porque isso é mágico, as pessoas se veem ali. É uma coisa diferente e mais real das histórias antigas. Nos contos de fadas clássicos como a Branca de Neve ou Cinderela, os autores afastam os pais e a heroína fica sozinha, esperando ser salva por algum tipo de bondade alheia ou poção mágica. Elas não têm uma mãe, pai ou irmãos amorosos, como em Valente. Em nosso filme, você vê uma adolescente que precisa passar para a fase adulta e lidar com seus problemas. Mas ela não tem uma vida miserável. Ela só quer a liberdade de decidir seu destino. 

 
Você se inspirou em alguma experiência pessoal para os personagens?
 
Mark Andrews. Eu sou um pai de crianças pequenas. Eu também peguei muito da minha experiência pessoal para colocar no filme, como por exemplo, a bagunça na hora do jantar ou jeito que as crianças brincam.
 
A gente amou o cabelo ruivo de Merida. Como vocês pensaram no cabelo dela, existe algum significado?
 
Mark Andrews. Quando você faz um filme, tem que pensar visualmente. A expressão do seu personagem, as roupas que ele usa, tudo isso comunica. Merida não é quietinha e calada, ela tem uma mente livre e quer fazer as coisas do jeito dela. Fizemos um personagem que era dinâmico, com força de vontade e personalidade forte, voltada para a ação. Por isso ela tem um cabelo grande, mais selvagem, enrolado, vermelho como um fogo. O seu cabelo é poderoso e define quem ela é.
 
Quais foram os maiores desafios para criar o cenário do filme?
 
Mark Andrews. O maior desafio é que computadores odeiam essas coisas que a Escócia tem. (risos). O computador gosta de uma cor clean, mas a paisagem escocesa é orgânica, escura e mais suja. O computador exige perfeição. Mas as montanhas das Terras Altas são caóticas, irregulares, cheias de atmosferas e luzes diferentes. E para capturar e recriar cada detalhe deste cenário, a gente precisou de um uma tecnologia nova e um sistema mais potente.
 
Você viajaram para a Escócia para buscar referências e fazer pesquisas. Como foi a experiência?
 
Katherine Sarafian. Poderia ser qualquer outro lugar. Mas o motivo que a gente escolheu a Escócia é que existe algo único lá. A paisagem é muito interessante e cheia de obstáculos. É um ambiente escuro e quase triste. Um lugar repleto de história, castelos, valores tradicionais e lendas antigas. Tudo isso é perfeito como o cenário de uma história que fala sobre mudança.
 
A relação entre Merida e sua mãe, Elinor é um pouco complicada. Este é um dos temas principais do filme?
 
Katherine Sarafian. A relação entre pais e filhos é uma experiência universal e todos podem se reconhecer nela. No filme Valente, quisemos mostrar uma família comum e sem grandes conflitos.  Ninguém se divorciou, não existem grandes brigas, as pessoas se relacionam bem, mas como qualquer família, os pais não são perfeitos. Mostramos uma mãe que é forte, mas a sua filha também é. São valores de gerações diferentes, mas elas se amam. Queremos que o público entenda esses dois pontos de vista.
 
O que você espera que as pessoas levem do filme?
 
Katherine Sarafian. Eu espero que as pessoas entendam que a coragem pode vir desde a infância e te acompanhar até a fase adulta. Sabemos que os adolescentes passam por fases complicadas e no filme, a Merida faz alguns erros. Só que ela tem que perceber que o amor de sua família pode dar a ela a coragem que precisa para conquistar qualquer coisa.
 
Fazer animação é bem diferente de um filme tradicional do cinema. Quais são os desafios que você enfrentou ao produzir Valente?
 
Katherine Sarafian. O mais difícil sempre é realmente contar a melhor história que pode existir num roteiro. A gente nunca começa do roteiro e segue nele até o fim. Durante todo o processo, sempre estamos mudando. Só que a gente faz tudo muito devagar, e quando o projeto termina, é quase como se um milagre tivesse acontecido.
 
Na Pixar, o que faz uma história ser tão interessante para chegar às telonas?
 
Mark Andrews. Acho que a Pixar tem um padrão de qualidade e tecnologia de ponta bem definido, mas não só isso. Nossas histórias tem emoção e falam para o coração. Sempre queremos transportar o público para um mundo fantástico. Mas claro que cada diretor é diferente do outro.
 
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