Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 19.08.2011 19.08.2011

Diretor de A Alegria conta sobre a realização do filme que faz parte da nova geração do cinema nacional

Por Marina Fidalgo
Na foto ao lado cena do filme A Alegria
“Mais coragem”, é esse o diferencial que a nova geração de cineastas brasileiros traz ao nosso cenário cultural na opinião de Felipe Bragança, co-diretor do filme A Alegria, que estreia hoje (19/8).
Bragança divide a direção do longa com a também jovem cineasta (eles têm apenas 30 anos), Marina Meliande. Para este projeto, eles partiram de elementos da cultura popular e pop, tentando criar uma certa fantasmagoria das imagens que encontrasse também uma intensa afetividade nos personagens.
E conseguiram. Com ares de fantástico, sem seguir uma narrativa previsível, A Alegria conta a história de Luiza, menina de 16 anos, que não agüenta mais ouvir falar no fim do mundo. Sua realidade começa a mudar quando em uma noite de Natal, seu primo João é baleado misteriosamente e desaparece. Semanas depois, enquanto Luiza passa dias sozinha no apartamento onde vive com sua mãe no Rio de Janeiro, um misterioso visitante vem bater à sua porta: João, como um fantasma, pedindo para se esconder ali.
A parceria dos dois diretores cariocas começou na época da faculdade de cinema, e desde cedo rendeu frutos: realizaram dois curta-metragens premiados, Por Dentro de Uma Gota Dágua e O Nome Dele (o clóvis). Individualmente, o currículo também impressiona. Bragança fez parceria com Karim Ainouz como diretor-assistente e roteirista de O Céu de Suely, escreve roteiros e participa da concepção de novos filmes. Marina atuou como montadora, editora de som e diretora, e já tem mais de 40 filmes editados.
Em 2008, eles retomaram a parceria, e idealizaram a trilogia de filmes que chamam de Coração no Fogo (que inclui os títulos A Fuga da Mulher Gorila – premiado na Mostra de Cinema de Tiradentes, A Alegria e Desassossego – em fase de finalização), focada no imaginário juvenil e escrita de forma complementar.
Ao SaraivaConteúdo, o cineasta Felipe Bragança conta sobre o processo de criação de A Alegria
O que é a trilogia Coração no Fogo e por que vocês consideram A Alegria o filme fundador do projeto?
Felipe Bragança. São três filmes em torno de representações poéticas das possibilidades de desejos utópicos, aventura e coragem nos dias de hoje. Cada filme olha a relação das personagens com o Rio de Janeiro de um jeito: Gorila… olha de fora, na perspectiva da fuga e do abandono; A Alegria olha por dentro, os personagens assombram a cidade onde vivem; Desassossego é um colcha de retalhos de diferentes visões de outras cidades brasileiras e outros cineastas, falando desses mesmos temas como numa troca de correspondências.
A Alegria é o filme fundador porque a Luiza, protagonista do longa, é o ser mítico que reúne os três. Ela é sonhada e idealizada pela protagonista de Gorila, ela é protagonista de A Alegria e é a co-autora da carta que originou Desassossego. É também o filme que se passa por dentro do Rio de Janeiro e, portanto, é eixo central dos sentimentos que perpassam os três filmes.
 
A Alegria é um filme com protagonistas adolescentes, não-atores. Para desenvolver esses personagens, você fez uma longa pesquisa em blogs e redes sociais de internet. O que descobriu nessas pesquisas e por que a escolha por não-atores?
Felipe Bragança. Descobri adolescentes e jovens cheios de utopias, sonhos, energia e capacidade de propor novas formas de comportamento, muito longe dos clichês contemporâneos de que se trata de uma geração sem ideais e sem viço. Isso é coisa de um olhar externo, preconceituoso e que fica confuso diante do novo. Queríamos pessoas com energia própria, com vigor que fugisse da vontade de composição de personagens, mas sim que aceitassem vestir esses alter egos deles como codinomes de super-heróis dentro do filme. Apenas o Cesar Cardadeiro, entre os meninos, tinha experiência como ator. Mas pelo talento dele, conseguiu entrar no tom dos não-atores. No núcleo mais velho: Maria Gladys, Mariana Lima e Marcio Vito nos deram o contraponto mais técnico e preciso na interpretação dos dramas adultos que sobrevoam o núcleo central.
 Vocês dizem que A Alegria é um filme de super-heróis. O que esse cinema fantástico para você?
 

Felipe Bragança. Gosto do cinema fantástico como a forma de distorcer a ideia do real como algo dado e pronto. O real é um elemento do imaginário social e por isso, o cinema pode ser um lugar onde o real pode voar, se distorcer, ser reconstruído e se pensar dessa forma. Nossos super-heróis fazem isso: confrontam o real como algo já dado e pronto.

A Alegria participou da Quinzena dos Realizadores do 63° Festival de Cannes e recebeu os dois prêmios no Festival Brasília 2010. Como foi participar desses dois eventos?

Felipe Bragança. Cannes é o maior festival de cinema do mundo. Foi forte, intenso receber os elogios da critica francesa, troca ideias com realizadores de todo o mundo. Depois o filme passou em mais 12 festivais lá fora, incluindo Rotterdam. Em Brasília, ficamos felizes por ter tido a chance de mostrar o filme pela primeira vez no Brasil e ter a direção de arte genial do Gustavo Bragança e o talento enérgico do Rikle Miranda, premiados.

 
Quais foram suas influencias ao criar o longa?
 

Felipe Bragança. Muita gente, pedaços de filmes, trechos de livros. Leituras de Spinoza, Melville, musicas de Bowie, cinema do John Hughes, do Myiazaki, do Tim Burton, do Manoel de Oliveira, do Sganzerla entre outros.

 
 
Cenas do filme
 
 

Cena do filme A Alegria

 
 
 
 
Cena do filme A Alegria
 
 
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