Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 12.02.2010 12.02.2010

Direção de Lee Daniels salva “”Preciosa”” do maniqueísmo

Avaliar uma adaptação de livro para o cinema é sempre um negócio arriscado. Ler a obra antes de criticar é importante para separar o que são as idéias do autor das do diretor e, claro, do roteirista. E, assim, não falar bem ou mal de A quando, na verdade, trata-se de B.

Dito isso, confesso de antemão que não li “Preciosa”, o romance de Sapphire, mas vi apenas “Preciosa – Uma história de esperança”, do diretor Lee Daniels, que entrou em cartaz hoje (sexta-feira). De modo que vou tentar me ater a questões fílmicas propriamente ditas, fazendo distinguir se méritos ou problemas estão na nascente, ou seja, na obra literária, ou no roteiro adaptado e nas soluções encontradas por Daniels.

De modo geral, a impressão que se tem ao sair da sessão de “Preciosa” é de que se assistiu a uma história maniqueísta, com uma separação por vezes acentuada entre vítimas/mocinhos e algozes/bandidos.

O filme conta a história de Claireece Jones, uma jovem negra de 16 anos, semi-analfabeta, obesa, grávida de seu segundo bebê, fruto dos constantes abusos sexuais cometidos por seu pai. A mãe tampouco a priva de agressões físicas e morais.

Ok, Claireece e seus pais representam uma lamentável realidade comum nos EUA (assim como no Brasil). Mas o “problema” parece estar na maneira como isso é retratado. Sobretudo quando aparecem os “mocinhos” da história, em especial a personagem da professora (Paula Patton) que incentiva, abriga e “salva” Claireece. Faltam nuanças.

Se levarmos em conta que se trata de uma produção encabeçada pela apresentadora Oprah Winfrey, que não dispensa certo populismo na defesa de certas causas, entendemos o caráter panfletário que o longa assume. Homossexual, Daniels também parece “aproveitar” a história para fazer “manifesto”.

O que atenua esse maniqueísmo são algumas atuações, em especial a da atriz Mo’Nique, que vive a mãe. Sobretudo nas seqüências finais do filme, a balança entre vítima e algoz fica mais “equilibrada” por conta da carga emocional que ela injeta no momento em que sua personagem fala de suas motivações e “desculpas”.

É aí que entra um dos méritos do filme: a afinação do elenco, que se atribui à boa direção de atores de Daniels, cineasta acostumado a trabalhar com cantores, que extrai, por exemplo, bons desempenhos de Mariah Carey (!), como uma assistente social, e Lenny Kravitz (na foto, à esquerda), como um enfermeiro (!!). E da própria Gabourey Sidibe, que vive Claireece.

O outro mérito do filme são as seqüências em que Daniels representa as fantasias que sua personagem principal tem, sobretudo quando tenta “escapar” de situações-limite. Momentos em que ela se vê como uma pop star desejada e assediada (no “bom sentido”), ou como uma jovem branca, de cabelos louros e magra. São soluções cinematográficas que provavelmente ultrapassam as imagens sugeridas no romance de Sapphire.

Veja abaixo um trailer legendado de “Preciosa”, que concorre em seis categorias do Oscar, incluindo melhor filme, melhor diretor e melhor atriz, para Gabourey, e atriz coadjuvante (Mo’Nique):

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