Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 25.08.2009 25.08.2009

Dinheiro não traz inspiração. Mas ajuda

Por Simone Campos

Em Omestre e Margarita, de MikhailBulgakov, um dos meus livros preferidos, a associação estatal de escritores(MASSOLIT) é uma pocilga de talentos mal-curados que passam mais tempo comtramóias e enchendo a cara do que propriamente escrevendo algo que preste. Bulgakovescreveu essa obra excelente por vingança e despeito – sentimentos não precisamentebonitos ou feios. Como escrevia o que bem entendia, Bulgakov não conseguiupublicar mais nada no regime stalinista e ficou inédito por décadas. Compreende-seporque eu tivesse tantas ressalvas (vamos colocar assim) em ser financiada pelogoverno.

Mas decidi tentar o edital daPetrobras e olha aí: livro novo na praça. E um livro do qual me orgulho [Leia um trecho de Amostragem complexa (7Letras, 2009) ao final deste artigo]

A diferença dos escritoresfuleiros da MASSOLIT para mim é que, mesmo financiada pelo Estado, eu pude escrevero que bem entendi. Talvez porque a literatura tenha perdido relevância “com aascensão abrutalhada e fascinante da narrativa audiovisual no último século”, hojepossamos escrever o que quisermos: “ninguém está olhando” (como bem disse o Pellizzarino Failbetter).Meus contos foram acontecendo por diversão e acidente, mas saiu Brasil preloafora. Minha descoberta resumida: não estar do lado de ninguém é impossível,mas trair todo mundo não o é – o mel da agente dupla. Massacrei fundações em “Tabu”(que lembra o caso do Simonal), esculachei o funcionalismo em “Herói”, fraudeiconcursos públicos em “Wifi”, entrei na pele de um psicopata em “Tão bonito quedói”, fiz advogados serem os mocinhos em “Segundo andar”e fui publicada sem alterarem uma vírgula. Não estamos mais em1930.

Eu realmente não preciso fazerisso – não consta do contrato que eu precise escrever um texto laudatório aospatrocinadores, e é exatamente por isso que senti vontade de escrevê-lo. APetrobras e o Estado viraram meus BFGs (Big Friendly Giants), meus PêssegosGigantes. Tiraram-me da minha vida chata, atribulada de estágios, cursos efrilas e malfadadas tentativas de passar em concursos para os quais eu queriamuito não passar, e me proporcionaram uma vida em que eu podia simplesmenteescrever quando me desse na telha. Se eu quisesse passar o dia lendo, ou viajarà Europa, era pesquisa. Se euquisesse sacolejar os meus neurônios com dança do ventre ou ginástica, OK – osresultados literários é que contariam. Como o planeta-computador d’Oguia do mochileiro das galáxias (Sextante) que deveria dar a respostapara a grande questão fundamental, minha vida virou um grande instrumento (oumelhor, laboratório) para a obra.

Investir em atividadesparalelas pode frutificar, por um motivo ou por outro, num breakthrough literário. Se eu dissesse que fiz análise e isso meajudou a escrever o livro, ninguém ia rir. Mas vai ter gente guinchando quandoler isso: a dança do ventre ajudou. Ajudou, por exemplo, a perceber que nãodevo ter medo de mostrar como sou boa – na dança e na literatura. Dançando,percebi: eu não me entregava tanto à dança por medo de ser notada, eprovavelmente me continha literariamente também. Afinal, quando você é notada,pode atrair gente chata. Mas a dança do ventre também me fez ver que osbenefícios – o brilho no olhar, por exemplo – suplantam os malefícios, e que oschatos acabam sendo o seu próprio castigo.

Quando me dei conta disso, opoder foi despertado. A melhora na qualidade da dança foi impressionante.Afinal, se você dança, é porque já está buscando ser notado. Não é legal fazerpela metade. Já que vai se expor, faça o melhor possível.

Aplicado à literatura, issosignificou escrever sem tanto hermetismo. Afinal, se você publica, é porque jáestá buscando ser notado. Não é legal fazer pela metade: exponha-se o melhorpossível e valorize o dinheiro que seu leitor (mesmo que seja sua mãe) e seueditor (mesmo que seja você) investiram em você.

Outra coisa aparentemente “malversativa”que fiz: viajei à Europa. Tive que economizar bastante e ficar em hostels. Visitei vários locais queinspiraram livros que eu adorava, conheci gente, fiz trilhas e pensei bastante.Parei em cybercafés e escrevi. Cheguei à conclusão que a literatura do Brasiloferece possibilidades bem maiores que a de lá, basta explorar – e saí demachete na mão à procura do Eldorado.

Nesse ano, anoteicuidadosamente as idéias que tive enquanto usava o sistema de transportepúblico da minha e de outras cidades em caderninhos da União, da Tilibra e daPaperblanks com canetas Lakubo (isto nãoé um publieditorial, acreditem). Não sei bem por que o caderninho certo e acaneta certa são importantes. Talvez seja fetiche. Talvez a forma influencie oconteúdo. Talvez eu tenha sentido a responsabilidade que aquele confortosensorial adquirido às custas do erário implicava, e tenha decidido me aplicar– detendo-me dois minutos em orelhões e outras democráticas superfícies paraanotar a imagem ou lembrança que me vinha à cabeça, em vez de esperar atéchegar em casa e esquecê-la, como eu sempre fazia.

E aconteceu algo de curioso comesse processo todo: esbocei outro romance, terminei um projeto antigo (umroteiro de quadrinhos) e comecei a escrever um folhetim online com tema nerd (bastante inspirado em Bulgakov,por sinal).

Se ninguém dá valor ao que apessoa escreve, por mais esforçada que seja ela vai acabar desistindo. Se oescritor não publicou só para ter assunto a puxar com os freqüentadores maisatraentes da livraria, fica sentindo falta do reconhecimento – seja ele financeiro,moral ou simbólico. Como escritor é um bicho muito enjoado, é preciso darreconhecimento a ele em doses medidíssimas, ou senão ele também para deescrever, cansado do assédio… mas digressiono.

Em suma: hoje o financiamentoestatal poderia dar um belo estímulo ao escritor esforçado desde que não hajaqualquer tipo de commissariatrestringindo o tema ou o tratamento – “ah, é pop demais; é sociológico de menos;obviamente não podemos admitir uma coisa dessas…”

Claro, também é preciso conteros que não levam literatura a sério e só enxergam nos editais de criaçãoliterária mais uma opção para se dar bem às custas do governo… Pareceu-me boaa medida da Petrobras de exigir dos candidatos à mamata que já tenham um livropublicado e expliquem o projeto do novo (além de apresentar uma parte dele).

Sim, porque é uma mamata – aMãe-Pátria está sendo efetivamente sugada. Mas só é maracutaia se o bebê mamare não crescer. Aliás, o sentido da palavra “fomento” é este.

> Simone Campos na Saraiva.com.br


> Leia três contos do novo livro de Simone Campos

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