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Diferentes livros traçam a nova cara da China

Por Marcelo Rafael
 
Longas filas para comprar celulares e tablets de última geração. Suicídios esporádicos em empresas de tecnologia. Apreensão de produtos piratas nas lojas da 25 de Março, em São Paulo, e do Saara, no Rio de Janeiro. Recentes protestos e demonstrações de força em uma disputa por ilhas desabitadas com o Japão.
 
Esses são alguns retalhos que compõem a nova cara da China, que invade, de quando em quando, os noticiários e jornais. Nas páginas de Economia e Política, o país ganha mais e mais destaque, ombro a ombro com o Brasil, formando o grupo conhecido como BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). Nesses casos, os elogios à economia são muitos, acompanhados das críticas às políticas internas e externas do país.
 
“O BRICS é um agrupamento mais fictício do que real, e cada um dos países-membros tem uma concepção diferente do que o grupo é e quais são suas metas. O Brasil e a China compartilham, num nível muito básico, três características: são grandes, estão em desenvolvimento e estão insatisfeitos com as regras do jogo político e econômico mundial”, resume Dani Nedal, co-organizador do livro O Que a China Quer?, da Série Entenda o Mundo, que integra a Coleção FGV de Bolso.
 
Nedal é doutorando na Universidade de Georgetown, membro do grupo de trabalho sobre China e América Latina do Inter-American Dialogue. Em linguagem acessível, sua obra retrata a posição regional chinesa na Ásia, a relação do país com o Ocidente e o futuro da potência emergente. 
 
CHINA PESSOAL
 
Além de O Que a China Quer? alguns outros livros também recentes, tornam possível aprofundar, de maneira mais ou menos descontraída, temas abordados em qualquer editoria de jornal.
 
O mais recente deles é o quadrinho Adeus Tristeza, de Belle Yang, lançado este ano. Assim como outras já consagradas no estilo (entre elas Maus e Persépolis), a graphic novel conta a biografia da autora, tendo, como pano de fundo, grandes momentos históricos de sua terra natal.
 
A caligrafia chinesa se funde com a arte contemporânea ocidental no traço de Belle Yang, em 'Adeus Tristeza'
 
Hoje escritora de livros de artes plásticas e voltados para crianças, Yang nasceu em uma das regiões problemáticas da imensa nação: a ilha de Taiwan. A república, surgida como estado após a revolução Comunista de 1949, sob a liderança de Chiang Kai-chek, até hoje tem seu reconhecimento de soberania posto em cheque por vários países.
 
Em sua obra, Yang nos narra não somente sua história, separada da de seus pais – uma vez que a autora se radicou nos EUA – mas também a de seus antepassados. Confucionismo, budismo (duas das maiores religiões do país), guerras e querelas políticas que marcaram a a China ao longo do século XX são entremeados com histórias ora comoventes, ora hilárias, típicas de uma família ampla e ligada à terra e às tradições.
 
Além de Taiwan, outras regiões de maior tensão dentro da China são Xinjiang, de minoria uigur, no noroeste, e o Tibet, no leste, que passou de país independente a região anexada em 1950, sob o regime comunista.
 
 
                                                                                      Crédito/ Divulgação
A sino-americana Belle Yang
 
Sônia Bridi, repórter da TV Globo, retratou o Tibet e outras províncias chinesas e reuniu os detalhes em seu Laowai, misto de livro-reportagem e diário de bordo.
 
O título da publicação vem da expressão em mandarim equivalente a “gringo”, que é como Bridi e seu marido, o repórter cinematográfico Paulo Zero, acabaram se sentindo durante a estadia como correspondentes internacionais entre 2005 e 2006.
 
Com larga experiência em jornalismo, Bridi vai nos contando, num texto fluido e atraente, não somente os bastidores de edições do Globo Repórter e de entrevistas exclusivas (como a que fez com Sua Santidade, o Dalai Lama), mas também as questões do dia a dia enfrentadas pela família que se mudou por dois anos para o outro lado do mundo.
 
Assim como os chineses que por aqui aportam e trocam de nome, Bridi virou oficialmente em documentos chineses Suo Ni Ya e seu marido, Pau Luó (em transliteração do silabário chinês). Uma ida ao restaurante ou ao banheiro ou uma entrevista com autoridades vão revelando hábitos e sons pouco comuns, até hoje, aos olhos olhos – e ouvidos –  ocidentais.  A falta de privacidade, o encontro do tradicional e milenar com o mais avançado em termos de tecnologia e cultura, o “chinglish” (mistura de mandarim com inglês), entre outros aspectos, vão sendo apresentados com riqueza de detalhes.
 
NEGÓCIOS DA CHINA
 
Outra repórter, Leslie T. Chang, foi correspondente do jornal norte-americano Wall Street Journal durante uma década em Pequim. Por três anos, ela investigou uma parte da máquina econômica chinesa: os trabalhadores. A vida de jovens garotas que deixam o meio rural, no interior do país, para trabalharem nas fábricas dos grandes centros urbanos em busca de melhores salários e condições de vida é o tema de seu livro-reportagem.
 
As Garotas da Fábrica investiga a brutal relação de trabalho, as condições insalubres e os tristes laços pessoais de garotas que produzem bens de consumo cotidiano, como eletrônicos de última geração, roupas esportivas e calçados.
Assim como as mulheres que saem do campo para as cidades, alguns camponeses deixam o país em busca do sonho de uma vida melhor. Fora das fronteiras chinesas, uma obra que ajuda a entender o outro lado da China na economia mundial é Gomorra, do também jornalista Roberto Saviano. Apesar de tratar da Camorra, uma das principais máfias italianas, o livro revela como os senhores do tráfico, a indústria da pirataria e mesmo grandes marcas da alta costura exploram a mão-de-obra barata vinda da China. Os produtos movimentados pela Camorra acabam desaguando em centros de comércio popular, como a Rua 25 de Março, em São Paulo, conforme menciona Saviano no livro.
 
Ilegal ou regularizado, o fato é que o comércio Brasil-China, cresce a cada ano. Como consequência, a disputa por mercado e influência também aumenta, segundo Dani Nedal. “A competição em lugares como a América do Sul e a África não deve ser exagerada, mas é certamente mais intensa do que no mercado interno chinês e pode se tornar foco de tensão à medida que as capacidades e pretensões de Brasil e China crescem”, afirma.
 
Ele também acredita que nenhum dos dois países tenha, atualmente, poder suficiente pra desafiar ou alterar a ordem global ou tenha noções claras de uma ordem alternativa seja individualmente, seja em conjunto mesmo que se proponham a isso.
 
Ainda que não tenha tomado lugar de protagonista no campo da Cultura, pelos motivos expostos nessas obras e por muitos outros motivos mais, a China atrai cada vez mais o olhar do Ocidente, fascinando e chocando, revelando e escondendo aspectos de sua nova condição mundial. 
 
 
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