Ramiro Fajuri por Ramiro Fajuri Outros 04.06.2020 04.06.2020

Dia D: porque 6 de junho de 1944 entrou para a história

dia D 6 de junho dee 1944

6 de junho é o dia em que o mundo relembra a maior, mais complexa e provavelmente a mais arriscada operação militar da História.  Dia D e hora H eram os códigos para a data e o horário do desembarque na Normandia de tropas aliadas formadas por soldados americanos, britânicos, canadenses, franceses livres e poloneses, para libertar a Europa Ocidental do domínio dos nazistas, em 1944.

Com o nome de Operação Overlord, a ofensiva que mudou a história da Segunda Guerra Mundial foi planejada desde 1943, e envolveu desde elaborados esquemas para despistar os alemães, para que eles não soubessem o dia ou o local em que os aliados atacariam, até o desenvolvimento de novas tecnologias, para que fosse possível desembarcar milhares de homens, tanques de guerra, veículos e armamentos na França ocupada.

O objetivo da operação era atravessar a Muralha do Atlântico, uma linha de fortificações nazistas que ia da Noruega até a fronteira entre a França e a Espanha. Caso tivessem sucesso,  seria a primeira vez que um exército dos aliados entraria na França desde a retirada de Dunquerque, quando entre 25 de maio e 4 de junho de 1940, 65 mil soldados britânicos e franceses foram resgatados do cerco do Exército Alemão na Operação Dynamo.

Às 6:30 da manhã, na hora h, as tropas aliadas desembarcaram em 5 praias, que receberam nomes de código. Utah e Omaha foram atacadas por tropas americanas, Gold e Sword pelos britânicos e Juno pelos canadenses. No total, foram 156 mil soldados , que incluíam ainda soldados australianos e franceses livres e poloneses, incorporados às tropas britânicas.

Saraiva indica: Diários de guerra. Os maiores confrontos da história mundial.

Os comandantes do Dia D.

Aliados

Por se tratar de uma coalizão militar, a cadeia de comando dos aliados no dia D foi também um arranjo político, que levou em conta tanto o peso de cada país na aliança, como a vaidade e as rivalidades entre os comandantes. Dessas, talvez a mais famosa fosse entre o americano Dwight D. Eisenhower e o britânico Bernard Montgomery, apelidado de Monty, que embora fosse reconhecidamente competente, era tido como uma pessoa arrogante e de trato difícil.

Aparadas todas as arestas, o habilidoso Eisenhower foi escolhido o comandante supremo das forças expedicionárias aliadas e Montgomery o comandante do 21º grupo de Exército. Em campo, as tropas americanas eram comandadas pelo general Omar Bradley e as britânicas e canadenses, pelo general Miles Dempsey.

Alemães

Os alemães, por sua vez, eram comandados por um velho conhecido dos aliados,  o Marechal de Campo Erwin Rommel, já considerado um herói alemão desde a I Guerra Mundial, e que eles já haviam enfrentado no Norte da África, à frente do Afrika Korps, força expedicionária alemã cuja missão era auxiliar os italianos, aliados dos nazistas que estavam em dificuldades naquele teatro de operações.

Pela sua competência, respeitada inclusive entre os comandantes aliados, Rommel ganhou o apelido de raposa do deserto. Como não compartilhava da ideologia e fanatismo nazistas, consta que ganhou o comando da Muralha do Atlântico como uma punição pela retirada do Afrika Korps para a Tunísia. Hitler e Hermann Goering acreditavam que a “muralha” era forte o suficiente para desanimar qualquer ataque aliado, e Rommel seria esquecido lá.

Ausência ilustre

Considerado por muitos, inclusive pelos alemães, como o mais brilhante comandante aliado, o general George S. Patton não participou do desembarque na Normandia. Apesar do sucesso que teve no norte da África, Sicília e Itália, sua personalidade extravagante lhe causava problemas, como quando ignorou as ordens de proteger o flanco de Montgomery na Sicília, e, indo em frente com seu plano original, conquistou a ilha antes de Monty, que não gostou.

Mas o que realmente fez com que perdesse o comando das tropas americanas nas praias de Omaha e Utah para outro desafeto, Omar Bradley, foi ter esbofeteado em uma enfermaria um soldado que chorava, provavelmente em stress pós traumático, gritando a frase:  Não vou permitir que um safado poltrão chore na frente de outros feridos. Mandem-no para o front!

O que aconteceu antes do Dia D.

Entre 1938, quando anexou a Áustria e a Tchecoslováquia sem dar um único tiro, passando pelo início da guerra propriamente dita com a invasão da Polônia, França, Países Baixos, Bélgica e até a Invasão da União Soviética, em 1941, na Operação Barbarossa, Hitler não havia sofrido nenhuma derrota, tendo conquistado praticamente toda a Europa Central e Ocidental, além do Norte da África. Somente o Reino Unido, sob a liderança política inspiradora de Churchill, resistia.

A conquista da França, uma potência militar, em apenas 40 dias, criou uma grande reputação para a Wehrmacht (o Exército Alemão). Foi instalado no país um governo fantoche, em Vichy, liderado pelo Marechal Petain. O general Charles De Gaulle fugiu para a Inglaterra com seus soldados e liderou um governo no exílio, a França Livre, que atuava em coordenação com a resistência francesa.

A maré da guerra só começou a mudar em novembro de 1942, quando na Operação Tocha, americanos e britânicos conseguiram vencer o Afrika Korps de Rommel, partindo em seguida para a Operação Husky, a invasão da Sicília e da Itália pelas tropas aliadas, que acabaria por depor e capturar o ditador fascista Benito Mussolini, inspirador ideológico e aliado de Adolf Hitler.

Entretanto, os historiadores consideram que a grande virada da Segunda Guerra Mundial foi a Batalha de Stalingrado, quando após 2 meses de uma batalha sangrenta, com milhões de mortos e feridos dos dois lados, o exército alemão comandado pelo General Von Paulus se rendeu aos soviéticos. A partir dali o Exército Vermelho havia iniciado uma longa marcha em direção a Berlim, que todos os esforços dos alemães não foram capazes de conter.

5 curiosidades sobre o Dia D

Os alemães acreditavam que um eventual desembarque aliado na França só poderia acontecer em  Calais, um porto onde eles poderiam atracar navios com a quantidade necessária de soldados, tanques de guerra, transportes e armamentos para penetrar no território francês. Rommel desconfiava que o ataque poderia ser na Normandia, e pediu que todos as divisões dos tanques TigerPanzer ficassem perto da costa para repeli-la, mas Hitler o ignorou.

As comunicações alemãs eram criptografadas através da máquina Enigma. Boa parte do sucesso dos aliados em enganar os alemães e desembarcar onde eles não esperavam se deveu ao trabalho da equipe liderada pelo matemático Alan Turing, que conseguiu decodificar as comunicações dos nazistas.

Winston Churchill não concordava com a Operação Overlord, atravessando o Canal da Mancha e se opôs a ela até o último momento. Ele achava que o ataque deveria acontecer pela costa mediterrânea da França, mas foi voto vencido. Apesar disso, ele e o general americano Eisenhower desenvolveram uma grande amizade, e admiração mútuas.

Para deixar os alemães confusos sobre onde seria o ataque, os aliados criaram duas operações militares falsas, Fortitude Norte, que supostamente atacaria a Noruega e Fortitude Sul, que atacaria Calais. O General Patton, cuja reputação atraia a atenção dos alemães, ficou até 6 de Junho em Sussex, no sul da Inglaterra, no comando de um fictício Primeiro Grupo de Exército dos Estados Unidos, para enganar os alemães.

“De castigo”, o rebelde e temperamental Patton não participou do desembarque, mas recebeu o comando do Terceiro Exército Americano para socorrer Omar Bradley, que estava em dificuldades na França. Patton cumpriu brilhantemente a missão, avançando rapidamente pela França e chegando à Bélgica.

Consequências do dia D

11 meses e 1 dia após o dia D, em 7 de maio de 1945, os alemães se renderam e a Guerra na Europa estava encerrada. Hitler havia se suicidado alguns dias antes, em 30 de abril, e a rendição foi assinada pelo marechal Alfred Jodl, que mais tarde seria considerado culpado de crimes de guerra pelo tribunal de Nuremberg e sentenciado à morte por enforcamento.

Embora a guerra na Europa tenha terminado pelo esforço conjunto de americanos, britânicos e soviéticos, principalmente, historiadores e interessados no tema discutem se seria possível que a União Soviética, que já pressionava os nazistas desde a vitória em Stalingrado, tivesse conseguido avançar até Berlim e acabar com o Terceiro Reich sozinha, sem a segunda frente que o desembarque na Normandia criou, que obrigou os alemães a dividirem suas forças.

Embora a discussão seja interessante, esses são cenários hipotéticos , que jamais se concretizaram, e a história estuda o que de fato aconteceu, e o mundo que o Dia D criou com o desembarque das tropas aliadas na Normandia. As fronteiras da Guerra Fria entre americanos e soviéticos, que se estabeleceu após o fim da Segunda Guerra Mundial, cujo símbolo mais famoso, ou infame, era o Muro de Berlim,  foram demarcadas pelas posições em que o Exército Vermelho e o Exército Americano terminaram o conflito.

Sob esse ponto de vista, o desembarque na Normandia não salvou a Europa somente de Hitler. Manteve boa parte dela, a Europa Ocidental, a salvo de Stálin ,e seus sucessores, nos anos seguintes.

O que aconteceu com os protagonistas do Dia D.

General Dwight D. Eisenhower.

Após o fim de sua vitoriosa carreira militar, Eisenhower se candidatou à presidência dos Estados Unidos em 1952, vencendo as eleições e se tornando o 34º presidente americano. Concorreu e venceu as eleições para o segundo mandato em 1956, governando até 1961. Faleceu em 1969, aos 78 anos, sendo velado com a farda militar que  usou durante a guerra.

General Omar Bradley

Famoso pela gentileza com que tratava os subordinados, Bradley foi promovido a general de cinco estrelas em 1950, o quinto e último homem a receber essa patente honorífica no século XX. Foi o primeiro presidente do comitê militar da OTAN. Sua última aparição pública foi na posse de Ronald Reagan, falecendo em 1981, aos 88 anos.

General Charles De Gaulle

Após o fim da guerra, Charles De Gaulle fundou a quinta república francesa e concorreu às eleições, se tornando o seu primeiro presidente. É considerado o maior e mais influente estadista francês do século XX, tendo inspirado uma ideologia política ainda forte na França, o Gaullismo. Faleceu em 1970.

Marechal Bernard Montgomery

Após o fim da guerra, Bernard Law Montgomery recebeu o título de Visconde de Alamein, em homenagem à sua grande vitória na África. Mas manteve o estilo polêmico que fez com que Winston Churchill o definisse como  na derrota, imbatível; na vitória, insuportável. Entre as posições que assumiu, algumas hoje seriam consideradas muito ofensivas, como expressar apoio ao Apartheid na África do Sul e criticar a descriminalização da homossexualidade, ou descorteses com antigos aliados, como a crítica às táticas americanas na Guerra do Vietnã.

Em um livro autobiográfico, publicado em 1958, criticou duramente vários de seus colegas oficiais aliados na guerra, inclusive Eisenhower, que na época era presidente dos Estados Unidos. Faleceu em 1976, e apesar de todas as polêmicas, foi homenageado com uma estátua em frente ao Ministério da defesa do Reino Unido, em Whitehall.

General George S. Patton

Após o fim da guerra, Patton, que achava que os aliados, após derrotar os alemães, deveriam atacar os soviéticos, foi nomeado governador da Baviera. Mas não perdeu o talento para se meter em encrencas. Perguntado sobre a desnazificação da Alemanha, afirmou que achava desnecessário, comparando a filiação ao partido de Hitler à filiação aos partidos Republicano ou Democrata, os principais dos Estados Unidos.

Eisenhower o destituiu do governo da Baviera e o colocou no comando do 15º grupamento do Exército Americano, que foi seu último cargo. George S. Patton faleceu em um acidente automobilístico em 21 de Dezembro de 1945, aos 60 anos. Foi enterrado em Luxemburgo, ao lado dos combatentes mortos na Batalha das Ardenas, porque acreditava que um general deveria estar junto de seus homens.

Marechal Erwin Rommel

Rommel, o comandante da Muralha do Atlântico não chegou a ver o final da guerra e a rendição alemã. Sendo um militar profissional, sem ligação ideológica com o nazismo, ele percebeu que a guerra estava perdida, e achava que a Alemanha deveria se render para poupar as vidas de seus soldados e cidadãos.

Procurado por Claus von Stauffenberg, um jovem coronel que tinha um plano para matar Hitler e encerrar a guerra, Rommel não concordou, por acreditar que assassinar o fuhrer causaria uma guerra civil na Alemanha, e preferia que ele fosse preso ao invés de morto.  Mas Hitler sobreviveu ao atentado feito pelo grupo de Staufenberg, cujos membros, capturados e torturados, entregaram o nome de Rommel nos interrogatórios.

Como o Marechal era um herói nacional, Hitler não quis passar pelo constrangimento de executar um personagem que fazia parte de sua propaganda, o que poderia afetar o moral do seu exército e do povo, e ofereceu a ele uma saída que garantiria que sua família ficaria a salvo: O suicídio, que Rommel cometeu tomando cianureto,em 14 de outubro de 1944,  vestido com sua farda do Afrika Korps.

General Miles Dempsey

De todos os comandantes do Dia D, Miles Christopher Dempsey foi o que teve a vida mais discreta após o fim da Segunda Guerra Mundial. Em 1946, foi nomeado comandante em chefe das forças britânicas no Oriente Médio, e em 1947, se aposentou. Faleceu em 1969.

Impacto do dia D na cultura pop

O impacto do Dia D na cultura ocidental é difícil de delimitar, porque ele ajudou a criar o mundo sobre o qual essa cultura foi erguida, após a Segunda Guerra Mundial e até os dias de hoje. Não somente por palavras como Dia D, e Hora H, que apesar de não serem códigos militares criados para o desembarque na Normandia, caíram no gosto popular e são utilizados quase universalmente, traduzidos, em muitas línguas.

Na cultura pop, todos os anos são lançados filmes, livros, séries de TV, histórias em quadrinhos e games que são livremente inspirados, ou narram com bastante fidelidade os acontecimentos nas praias da Normandia, que são lembrados todo dia 6 de junho.

O Mais Longo dos Dias, de Cornelius Ryan

Agonia e Glória, de Samuel Fuller

O Resgate do Soldado Ryan, de Steven Spielberg

Band of brothers

O Dia D- A Batalha que Salvou a Europa, de Anthony Beevor

Dia D – Amanhecer de Heróis, de Nigel Cawthorne

Segunda Guerra Mundial – Vitória na Europa, de Karen Farrington

Esses são alguns dos filmes e livros famosos narrando o desembarque na Normandia, mas existem muitos outros que vale a pena procurar. Praticamente toda narrativa ficcional que se passa na Europa durante a Segunda Guerra Mundial, mesmo aquelas assumidamente fantásticas e inverossímeis, como as histórias do Capitão América, narradas em quadrinhos e filmes da Marvel, até a reinvenção histórica criada por Quentin Tarantino em Bastardos Inglórios, têm sua inspiração em tudo de real que aconteceu no Dia D, e depois dele.

Games do Dia D

Para quem quer presenciar o ponto de vista dos soldados aliados ao desembarcar nas praias da Normandia, ou reconheçamos, o mais próximo possível disso, vários games recriam, com bastante realismo, as batalhas do Dia D. Entre eles, os mais famosos são:

Medal of Honor: Allied Assault

Medal of Honor: Frontline

Call of Duty

Call of Duty: WWII

Mais curiosidades relacionadas ao dia D na cultura pop

A vida de George S. Patton, o ilustre ausente, foi contada no filme Patton, rebelde ou herói, um clássico do cinema que venceu 7 Oscars em 1970. George C. Scott , o ator que viveu o polêmico general, em meio a protestos contra a Guerra do Vietnã, se recusou a receber o prêmio, vendo a cerimônia pela TV. Já o matemático Alan Turing teve sua trágica biografia contada no filme O jogo da Imitação. Finalmente, o plano fracassado para matar Hitler é o tema do  livro Operação Valquíria. Nas telas, o coronel Claus von Stauffenberg foi vivido por Tom Cruise.

Essa ninguém confirma, mas segundo o site do Museu Nacional do Exército Britânico, o grupo humorístico Monty Phyton já teria afirmado que o Monty de seu nome seria uma homenagem ao polêmico comandante inglês da Segunda Guerra Mundial. Mas, em se tratando do Monty Phyton, não há como saber se isso é verdade, mais uma piada, ou ambos.

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