Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 18.07.2014 18.07.2014

DEZ trabalhos que viraram sucesso depois de serem originalmente recusados

Por André Bernardo
Morto em 1989, aos 83 anos, o escritor irlandês Samuel Beckett não viveu para ver seu conto, “Ossos do Eco”, finalmente publicado, em 2014. Quando a Chatto & Windus publicou More Pricks Than Kicks em 1934, um dos editores, Charles Prentice, resolveu deixar “Ossos do Eco” de fora por considerá-lo “um pesadelo”. “O conto me dá calafrios. As pessoas vão ter arrepios”, tentou justificar Prentice a Beckett.
“Engana-se quem acha que a carreira de grandes artistas é feita só de glórias e aplausos. É constituída de mil tropeços, fracassos e rejeições”, desmitifica Affonso Romano de Sant’Anna, na crônica “Obras-primas Recusadas”, que integra a antologia A Cegueira e o Saber. Ele sabe do que está falando. Afinal, teve que esperar 22 anos até, aos 38, ter Poesia Sobre Poesia publicado pela Editora Imago, em 1975.
Mas Affonso Romano de Sant’Anna não é um caso isolado. Dentro e fora da literatura, são inúmeros os casos de “grandes artistas” que tiveram seus trabalhos rejeitados. A lista é extensa e inclui de astros de Hollywood, como o ator Sylverster Stallone, a bandas de rock, como a irlandesa U2; de gênios dos quadrinhos, como o americano Charles Schulz, a autores de best-sellers, como a britânica J. K. Rowling.
 
1. ROCKY, UM LUTADOR, DE SYLVERSTER STALLONE
O pugilista americano Chuck Wepner entrou para a história por ter conseguido, no 9º assalto de uma luta, fazer o que parecia impossível: levar à lona o aparentemente imbatível Muhammad Ali. A façanha se deu no dia 24 de março de 1975 e inspirou Stallone a criar um de seus personagens mais carismáticos. Escrever o roteiro de Rocky, Um Lutador foi fácil; difícil foi negociá-lo. Nenhum produtor queria que Stallone, um ilustre desconhecido, protagonizasse o filme. Chegaram a cogitar Ryan O’Neal – o galã de Love Story – para o papel. Mas Stallone não abria mão de interpretar, ele próprio, o obstinado Rocky Balboa. Na cerimônia de entrega do Oscar de 1977, Rocky ganhou três das dez estatuetas que disputou: melhor filme, diretor (para John G. Avildsen) e edição.
 
Até ter o primeiro dos sete volumes da saga do bruxinho mais querido de Hogwarts publicado pela Bloomsbury, no dia 26 de junho de 1997, a escritora britânica J. K. Rowling foi rejeitada por dez editoras. A maioria delas alegava que o livro, de 224 páginas, era grande demais para o público infantil. Já Nigel Newton, da Bloomsbury, preferiu arriscar. Mas fez um pedido à autora: que ela utilizasse um pseudônimo em vez de seu primeiro nome, Joanne. Segundo ele, os meninos jamais leriam uma história escrita por uma mulher. Foi quando a escritora recorreu à letra K, tirada do nome de sua avó favorita, Kathleen. Nascia, assim, J. K. Rowling. Segundo estimativas, Harry Potter e a Pedra Filosofal já vendeu algo em torno de 130 milhões de exemplares no mundo inteiro.
 
3. “11 O’CLOCK TICK TOCK”, DO U2
Paul Hewson, mais conhecido pelo nome artístico de Bono Vox, deve ter pulado de alegria ao receber, no dia 10 de maio de 1979, data de seu 19º aniversário, uma carta da RSO Records. Afinal, ele tinha mandado para lá uma demo de sua banda, com a música “11 O’Clock Tick Tock”. Ao abrir o envelope, porém, veio a decepção: Alexander Sinclair, dono da gravadora, agradecia pelo envio do material, mas dizia que o som do U2 não era “adequado” naquele momento. “Desejamos sorte para vocês no futuro”, concluía a carta. E eles tiveram. Em 1980, após assistir a uma apresentação do U2 no Dublin’s National Boxing Stadium, Rob Partridge e Bill Stewart, da Island Records, resolveram contratar a banda. Em tempo: o single de “11 O’Clock Tick Tock” foi lançado em 23 de maio daquele ano.
 
4. EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO, DE MARCEL PROUST
“Um dos remorsos mais cruéis de minha vida”. É assim que André Gide se referia ao erro que cometeu em relação ao original de No Caminho de Swann, o primeiro dos sete volumes de Em Busca do Tempo Perdido. Em 1912, Gide trabalhava na Nouvelle Revue Française (NRF) quando recebeu um calhamaço de 700 e tantas páginas para avaliar. Quando soube que o livro era de Marcel Proust, recusou o original sem sequer lê-lo. Para ele, Proust não passava de um dândi frívolo e enganador que jamais escreveria uma obra séria. Gide, a propósito, não foi o único a rejeitar a obra-prima de Proust. Alfred Humblot, da Ollendorff, chegou a dizer que não entendia “como um sujeito precisa de 30 páginas para descrever como ele se vira e revira na cama antes de dormir”.
 
Rocky, James Joyce e Marcel Proust
 
5. CHARLIE BROWN, DE CHARLES SCHULZ
Criador de personagens memoráveis dos quadrinhos, Charles Monroe Schulz nunca foi o primeiro da turma. Pelo contrário. Na sétima série, foi reprovado em todas as disciplinas. Embora soubesse desenhar, nunca teve uma tirinha publicada no anuário da escola. Já adulto, tomou coragem e escreveu para os estúdios Disney. Foi quando pediram que mandasse algumas amostras do seu trabalho. Na mesma hora, enviou tirinhas que contavam a história de um menino tímido, introvertido, que não fazia sucesso com as meninas nem levava jeito nos esportes. Algum tempo depois, descobriu que seu trabalho havia sido rejeitado. Hoje, segundo ranking da revista “Forbes”, Charles Schulz é o terceiro artista morto que mais arrecada, atrás somente de Michael Jackson e Elvis Presley.
 
6. O DIÁRIO DE ANNE FRANK, DE ANNE FRANK
“Tolo”, “enfadonho” e “inoportuno”. Esses são apenas alguns dos adjetivos que Alfred A. Knopf, dono da editora que levava seu nome, usou para descrever O Diário de Anne Frank no verão de 1950. “Não passa de um registro monótono de brigas típicas de família, amolações triviais e emoções adolescentes”, analisou o editor. Escrito durante os 25 meses de confinamento de Anne Frank e sua família no “anexo secreto”, um esconderijo nos fundos de uma fábrica em Amsterdã, na Holanda, o mais tocante relato já escrito sobre a perseguição nazista aos judeus foi rejeitado por outras 15 editoras antes de ser publicado em 1952, pela Doubleday. Mais de 60 anos depois, O Diário de Anne Frank já foi traduzido para 70 idiomas e vendeu mais de 30 milhões de exemplares.
 
7. “MALANDRAGEM”, DE CAZUZA E FREJAT
No finalzinho dos anos 80, Cazuza e Frejat compuseram “Malandragem” – aquela do “Quem sabe eu ainda sou uma garotinha…” – pensando em Ângela Rô Rô. Quando ouviu a música, a cantora até gostou da melodia, mas não se identificou com a letra. Na mesma hora, ligou para o ex-vocalista do Barão Vermelho, a quem chamava de “irmão mais novo”, e esbravejou: “Você tá maluco? Eu, com 30 e poucos anos, cantando que sou uma garotinha esperando o ônibus da escola?”. Do outro lado da linha, Cazuza deu o troco: “Quer saber de uma coisa? Vou dar ‘Malandragem’ para a Zizi Possi gravar!”. E desligou. Em 1994, a canção foi incluída no álbum Cássia Eller e virou um dos maiores sucessos da cantora. Em 2013, Ângela Rô Rô finalmente gravou a música, no álbum Feliz da Vida!
 
8. DUBLINENSES, DE JAMES JOYCE
Nove anos. Esse foi o tempo que o escritor irlandês James Joyce, então com 25 anos, levou até convencer um editor a publicar seu livro de contos, Dublinenses, em 1919. Uns alegavam que os textos, apesar de terem indiscutível valor literário, não fariam sucesso na Inglaterra por terem a Irlanda e seus habitantes como protagonistas. Outros argumentavam que alguns dos contos de Dublinenses, como “Dois Galanteadores”, eram subversivos e pediam ao autor para fazer alterações nos textos. A certa altura, Joyce foi aos jornais para reclamar dos editores britânicos. A atitude dele, como já era de se esperar, só piorou a situação. Retrato do Artista Quando Jovem, outra obra-prima de James Joyce, também foi rejeitada. Um deles chegou a sentenciar: “Bom trabalho, mas não se paga”.
 
9. JORNADA NAS ESTRELAS, DE GENE RODDENBERRY
Criador de uma das séries de sci-fi mais cultuadas de todos os tempos, Eugene Wesley Roddenberry pode se considerar um cara de sorte. Em 1965, ele teve o piloto da série Jornada nas Estrelas rejeitado pelos executivos da rede NBC. Reza a lenda que um deles teria dito que o episódio recusado, “The Cage”, era “inteligente demais para a TV”. Mas em vez de ter a série abortada, como geralmente ocorre quando o piloto é recusado, Roddenberry ganhou uma segunda chance. Dessa vez, promoveu algumas mudanças, como cortar personagens (o único que continuou foi Spock, já interpretado por Leonard Nimoy) e trocar atores (Jeffrey Hunter foi substituído por William Shatner). O novo episódio piloto, “Where No Man Has Gone Before”, foi ao ar no dia 22 de setembro de 1966.
 
10. PANTANAL, DE BENEDITO RUY BARBOSA
Até hoje, Pantanal, exibida entre 27 de março e 10 de dezembro de 1990, detém o título de primeira (e última!) produção do gênero a ultrapassar a casa dos 40 pontos de audiência fora da TV Globo. Curiosamente, a novela só foi ao ar pela extinta Manchete porque a Globo se recusou a produzi-la. Na ocasião, o então vice-presidente de operações, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, chegou a mandar os diretores, Herval Rossano e Atílio Riccó, para avaliar as condições do Pantanal. Quando os dois disseram que só viram água e mato por lá, Boni engavetou o projeto. Na mesma hora, Jayme Monjardim, então diretor artístico da Manchete, convidou Benedito a trocar de emissora. Nos anos 70, a Globo já havia rejeitado outra sinopse do autor, Os Imigrantes.
 
Anne Frank, Ângela Rô Rô, Charles Monroe Schulz e Benedito Ruy Barbosa
 
 
Recomendamos para você