Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 06.12.2013 06.12.2013

DEZ referências pop da trilogia ‘1Q84’

Por Maria Fernanda Moraes

 
O ano é 1984, e o Povo Pequenino é o ícone onisciente e onipresente que “tudo vê” nesse enredo. Calma, calma, você não está ficando louco! Esse é o cenário da trilogia 1Q84 (lê-se "um quê oitenta e quatro"), do escritor japonês Haruki Murakami, que faz referência explícita ao clássico de George Orwell, 1984. E as referências da obra não ficam apenas na metaliteratura: vão desde a música ocidental até elementos da cultura pop.
 
Nada disso é novidade na carreira do japonês. Camila Kehl, autora do blog de resenhas literárias Livros Abertos e fã do escritor, conta que as referências já se tornaram marca registrada das narrativas de Murakami.
 
“O jazz é um grande favorito. Louis Armstrong, Billie Holliday e Duke Ellington são figuras recorrentes nos livros do autor (Murakami foi proprietário de um bar de jazz em Tóquio). Norwegian Wood, título de um de seus trabalhos mais conhecidos e bem-sucedidos do ponto de vista comercial, remete aos Beatles. A própria estética naïf e algo antiquada, que não chega a ser uma referência propriamente dita, pode ser percebida na roda-gigante que funciona como o elemento central de Minha Querida Sputnik. Caçando Carneiros e Dance Dance Dance, dois dos livros mais bizarros já imaginados por Murakami, estão cheios de coisas do tipo. E não é diferente em 1Q84”.
 
Aproveitando o lançamento do terceiro volume da trilogia 1Q84, o SaraivaConteúdo convidou Camila para listar algumas referências que, segundo ela, mesmo tão distintas, têm a curiosa função de tornar a obra mais palpável, de escorá-la na realidade. Acompanhe.
 
1. 1984, DE GEORGE ORWELL
 
Impossível escapar da referência mais óbvia e difundida de todas. Você não precisa ter lido a trilogia japonesa para saber (ou intuir) que a inspiração de 1Q84 vem da distopia imaginada por George Orwell.
 
A diferença mais significativa entre 1984 e 1Q84 é explicitada, também no primeiro volume da trilogia, pelo professor Ebisuno – que desempenha o papel de uma espécie de tutor da garota Fukaeri.
 
“Em 1984, como você deve saber, George Orwell criou a figura do Grande Irmão. (…) Mas, em nossa realidade do ano de 1984, o Grande Irmão é famoso demais, uma existência óbvia demais. Se ele aparecesse aqui, nós imediatamente apontaríamos o dedo e diríamos: ‘Cuidado! Aquele é o Grande Irmão’. Em compensação, eis que surge esse tal Povo Pequenino. Você não acha interessante o contraste entre as denominações?”
 
Quando se avalia a substituição de um pelo outro, o Povo Pequenino de Murakami passa a ser um elemento ainda mais sinistro e interessante.
 
2. SINFONIETTA, DE LEOŠ JANÁCEK
 
Essa referência, também marcante, aparece já na cena inicial do primeiro livro. Presa num táxi em um engarrafamento, atrasada para um compromisso importante – assassinar um sujeito -, a protagonista Aomame escuta a melodia do compositor tcheco.
 
“Mas o incrível era o fato de Aomame saber prontamente que a música era a Sinfonietta de Janácek, e que havia sido composta em 1926”, escreve o autor. Quando a personagem volta sua atenção para os acordes, coisas estranhas começam a acontecer com ela.
 
3. ANTON TCHÉKHOV
 
Murakami definitivamente é fã de Tchékhov. Numa das cenas da trilogia, o protagonista Tengo lê para Fukaeri alguns trechos de A Ilha de Sacalina – precisamente os que falam dos guiliaks, um povo curioso.
 
Numa espécie de metanarrativa, a analogia do revólver também é constantemente repisada. Nela, Tchékhov ensina que, se um revólver aparece em determinada cena, ele deve ser disparado em outra. Nada pode ser gratuito em uma obra de ficção.
 
4. AS NARRATIVAS DE HEIKE
 
No primeiro volume da trilogia, Fukaeri recita o épico japonês de cor. Nada além das imagens poderosas dos versos – até mesmo sua moral – parece ter algum propósito para a história de 1Q84.
 
“'Sei que sou apenas uma mulher, mas jamais cairei em mãos inimigas. Acompanharei Vossa Majestade. Se meias alguém também assim desejar, apressem-se e sigam-nos'; e, dito isso, a monja e o Imperador caminharam lenta e silenciosamente em direção à amurada”, cita Fukaeri.
 
             Elena Seibert
Curiosamente, Murakami nasceu em 1949, mesmo ano de publicação do clássico 1984
Aomame e Tengo são os protagonistas, e as suas histórias vão se aproximando ao longo do livro
 
5. "IT’S ONLY A PAPER MOON"
 
Música que serve de epígrafe para a trilogia, composta por Billy Rose e E. Y. “Yip” Harburg. Ela também é citada ao longo do romance, o que faz todo sentido quando se pensa nas duas luas que brilham no céu de 1Q84.
 
“It’s Only a Paper Moon” foi interpretada por Ella Fitzgerald – além de ter sido completamente destruída por Paul McCartney -, mas é com a interpretação de Nat King Cole que alcança sua plenitude.
 
6. “THE BEAT GOES ON”
 
O bordão, creditado à dupla Sonny e Cher – cantores que fizeram sucesso nos idos anos 1960 – é retomado com certa insistência. Em mais de uma ocasião, Tengo se refere a Sonny e Cher como “um par poderoso”, o que normalmente está ligado à sua luta ao lado de Fukaeri.
 
7. SIR JAMES FRAZER
 
Apenas em 1Q84 o fundador da etnografia religiosa e autor de O Ramo de Ouro, convive (mais ou menos) pacificamente com cantores de música pop dos anos 1960 e com uma narrativa épica japonesa.
 
Sim, Murakami joga tudo num imenso liquidificador – e parece gargalhar enquanto observa tudo girar e virar uma pasta quase uniforme. O personagem que cita James Frazer é uma espécie de líder de uma seita sinistra. Até a cena final do segundo livro, no entanto, não é possível decifrar por inteiro o motivo pelo qual O Ramo de Ouro foi citado.
 
8. ROPPONGI
 
Murakami traz para a ficção o bairro de Tóquio onde há inúmeros bares – e, portanto, uma vida noturna agitada. É lá que Aomame pode ser vista bebendo um Tom Collins, seu drinque favorito (que leva gim, tônica e limão, caso você queira preparar um por conta própria), ou um uísque Cutty Sark.
 
Além disso, é em Roppongi que a personagem, às vezes em companhia de Ayumi, sai à caça de homens parecidos com Sean Connery, que teriam “o tipo ideal de calvície”.
 
9. CROWN, O MAGNÍFICO
 
O filme de 1968 dirigido por Norman Jewison é citado de forma mais ou menos aleatória. No segundo volume da trilogia, Aomame fantasia que se parece com Faye Dunaway, uma das atrizes do longa. “Uma mulher segura, sexy, sempre elegante em um blazer executivo”, pensa ela.
 
Na linha dessa produção, A Fuga, de Steve McQueen, também é trazido à baila. Para entender o porquê, você precisa acompanhar as cenas finais – e eletrizantes – do segundo volume.
 
10. O CRAVO BEM TEMPERADO, DE SEBASTIAN BACH
 
Para fechar, temos outra referência conhecida. O Cravo Bem Temperado está intimamente ligado à estrutura do romance, mais precisamente à organização dos capítulos do livro.
 
Tanto o primeiro quanto o segundo volume da trilogia contam com 24 capítulos, sendo doze dedicados a Aomame e doze a Tengo. Para que o leitor possa entender a inspiração, o narrador de 1Q84 explica que a obra de Johann Sebastian Bach é composta de “um conjunto de prelúdios e fugas para cada uma das doze escalas, tanto as escalas maiores quanto as menores”. Dessa forma, a música, para os matemáticos, seria celestial. “Temos assim, ao todo, 24 conjuntos, sendo que o primeiro e o segundo totalizam 48. Um ciclo completo”.
 
Além das referências, o enredo também traz mistério, romance, uma dose de morbidez e seitas ocultas e brutais
No desfecho da história, o casal de protagonistas ainda sofre perseguição da Sakigake e do Povo Pequenino
 
 
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