Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 29.07.2013 29.07.2013

DEZ livros hispano-americanos, por Joca Terron

Por Eduardo Lemos
 
Joca Reiners Terron é fissurado pela literatura produzida por autores latino-americanos. Em diversas entrevistas por ocasião do lançamento de seu novo romance, A Tristeza Extraordinária do Leopardo-das-Neves (Companhia das Letras), que chegou às livrarias em maio, Joca admitiu que a leitura de escritores latinos acabou por influenciar sua nova obra – cuja narrativa densa e fantástica foi aclamada pela crítica como “um feito literário”.
 
Em 2013, a literatura hispano-americana e Joca Terron se encontraram mais uma vez. A coleção Otra Língua (Editora Rocco), também lançada em maio, reúne autores pouco ou nunca editados no Brasil. Joca é o organizador do selo, que estreou com Asco, do salvadorenho Horacio Moya, e Deixa Comigo, do uruguaio Mário Levrero. Ambos ainda não tinham livros publicados no Brasil.
 
Desde o dia 17/07, a relação entre o escritor brasileiro e a literatura produzida pelos “hermanos” ganhou mais um capítulo: Joca ministra em São Paulo, no Sesc Pompeia, o curso “Recortes Literários – Literatura Hispano-americana Contemporânea”, em que apresenta ao público obras dos autores mais originais surgidos na América Latina nas últimas décadas. O curso vai até o dia 14/08. 
 
Com exclusividade para o SaraivaConteúdo, Joca Terron listou e comentou DEZ livros hispano-americanos que merecem a atenção do leitor. Com tantos autores originais e interessantes – e cujas obras ainda estão longe do grande público –, esta é uma oportunidade única de mergulhar no melhor da literatura produzida por nossos vizinhos e, de quebra, analisada obra a obra por um dos mais importantes autores brasileiros da atualidade.
1. DEIXA COMIGO, MARIO LEVRERO (ROCCO)
 
Levrero é uruguaio (1940-2004), considerado um autor "raro" (estranho), designação originalmente usada por Rubén Dario para se referir a Lautréamont. Deve ser porque fez de tudo: palavras cruzadas, quadrinhos, humor e até contos e romances. Deixa Comigo é uma paródia policial que relata a busca de um escritor fracassado pelo autor de um original enviado sem remetente. É também uma melancólica busca do amor que arranca boas risadas do leitor.
 
2. NOITES DE FLORES, CÉSAR AIRA (NOVA FRONTEIRA)
 
Aira é o novo inventor da literatura latino-americana, um escritor que criou um método, a "máquina-Aira". Baseado em uma rotina de autômato (todo dia o escritor vai a um café de seu bairro e escreve uma página), Aira tem produzido a ficção mais livre e influente escrita em espanhol atualmente.
 
3. NOTURNO DO CHILE, ROBERTO BOLAÑO (COMPANHIA DAS LETRAS)
 
Esse chileno já é razoavelmente bem conhecido por aqui. É uma espécie de Jesus Cristo da literatura hispânica, o homem que foi enterrado debaixo dos ecos do boom latino-americano de García Márquez e Vargas Llosa e renasceu 30 anos depois, renovando a crônica do poeta jovem em desesperada procura pela liberdade. Escreveu a obra-prima 2666, e qualquer um de seus livros é recomendável, talvez incontornável.
 
4. PÁSSAROS NA BOCA, SAMANTA SCHWEBLIN (BENVIRÁ)
 
Contista fatal com os dois pés plantados no fantástico, a jovem escritora argentina é uma narradora de talhe clássico, produzindo relatos que partem de situações cotidianas e rumam inapelavelmente para o bizarro. É o que há de mais parecido com Julio Cortázar atualmente na literatura argentina.
 
5. ASCO, HORACIO CASTELLANOS MOYA (ROCCO)
 
Discurso terrível sobre a realidade do terceiro mundo, esse livro – um discurso verborrágico em primeira pessoa – é um libelo contra nossa mediocridade miserável. Passa-se em San Salvador, quando, em uma longa conversa entre dois amigos, toda a estupidez do país é passada a limpo. É sobre El Salvador, mas poderia ser sobre o Brasil.
 
6. COISA DE NEGROS, WASHINGTON CUCURTO (ROCCO)
 
Washington Cucurto é o pseudônimo endemoniado de Santiago Vega, escritor argentino. Cucurto, o personagem-narrador, é dominicano-paraguaio-peruano, um homem guiado pela própria genitália em riste que aponta ao abismo. Romance banhado de sexo, suor e cúmbia, o ritmo musical caribenho.
 
7. FLORES, MARIO BELLATIN (COSAC NAIFY)
 
Como um Edward Mãos-de-Tesoura tarado por elipses, Mario Bellatin poda suas flores a golpes de bisturi, arrancando delas uma beleza fria, surgida da mais absoluta contenção e do silêncio justapostos. Esse autor peruano criado no México é um dos escritores mais originais em atividade.
 
8. BONSAI, ALEJANDRO ZAMBRA (COSAC NAIFY)
 
Espécie de ciranda de ocultamentos que parodia o mecanismo amoroso da juventude no seu jogo típico de entrega e devolução, a narrativa segue atrás e adiante, mostrando a pré-história romântica e sexual do casal. Um “livro-árvore”, de lírica tão exata quanto frondosa.
 
9. O MATERIAL HUMANO, RODRIGO REY ROSA (BENVIRÁ)
 
A intenção declarada de Rey Rosa neste livro é localizar artistas perseguidos pela ditadura. Mas outras motivações surgem conforme o diário avança: a mãe do escritor foi sequestrada. A contradição reside no fato de que os sequestradores pertenciam à militância esquerdista, e não à repressão totalitária, o que torna tudo absurdo. E como descobrir a verdade política de um país, a não ser esmiuçando suas mentiras?
 
10. ROSTOS NA MULTIDÃO, VALERIA LUISELLI (ALFAGUARA)
 
Romance de estreia da autora mexicana, é resposta inquietante ao que se passa na cabeça de uma mulher. A narradora, uma tradutora, vive na Cidade do México com um arquiteto e dois filhos pequenos. Escreve um livro. Aos poucos, porém, descobre-se nos interstícios habilmente justapostos uma história triste. Valeria Luiselli atesta o momento especial da literatura hispano-americana.
 
 
 
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