Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 16.11.2014 16.11.2014

Dez elementos fundamentais para criar um herói na literatura de fantasia

por Andréia Martins

Percy Jackson é um garoto de 12 anos com TDAH (transtorno de déficit de atenção com hiperatividade) e dislexia. Com essas características, pode parecer impossível que ele se torne um herói ou protagonista de uma das séries de fantasia mais bem-sucedidas da literatura contemporânea, certo? Errado.

Seja na coleção Percy e os Olimpianos ou em Heróis do Olimpo, ambas do escritor norte-americano Rick Riordan, Percy usou a seu favor aquilo que em certos momentos era desvantagem, mas na hora da ação contribui para deixar seus reflexos mais eficientes e ativar sua criatividade.

Assim como em séries como Instrumentos Mortais, Divergente e Harry Potter, onde tudo começou, parece que o segredo do sucesso dessas publicações é a capacidade dos autores de identificar o que seus leitores terão em comum com seus personagens. Quanto mais intenso esse elo, mais forte a história fica. Geralmente, essa ligação está em alguma vulnerabilidade do personagem, algo em que os leitores, especialmente os mais jovens, podem se espelhar.

“Um dos exemplos dos livros de Rick Riordan é o fato de todos os semideuses possuírem TDAH e dislexia, mostrando às pessoas reais que elas podem ser alguém especial”, comenta o escritor Felipe Hermano Teixeira.

Em Heróis do Olimpo, série recentemente encerrada, a vulnerabilidade dos personagens serviu para cativar os leitores, sem que, com isso, eles fossem vistos como mais fracos.

“Acho que os protagonistas das histórias de fantasia têm características em comum – seja um trauma, um conflito ou até a forma de agir e pensar. No entanto, os livros de Rick Riordan costumam destacar mais o lado bem-humorado dos personagens – principalmente Percy e Leo (algumas vezes, um humor mais sarcástico), amenizando a tensão da história e fazendo com que a leitura seja mais agradável e divertida”, comenta Fernanda Siepierski, 27, economista e uma das administradoras do site Percy Jackson BR (PJ-BR).

Denys da Costa Schimidt, 19, redator do PJ-BR, vê características como o heroísmo, a lealdade e o autossacrifício muito presentes na construção desses heróis. No caso dos personagens de Riordan, ele comenta que “a ascendência divina aplicada aos semideuses permite que eles tenham relações interessantes e bem-humoradas uns com os outros, e a pluralidade de suas características não só como heróis, mas como adolescentes, faz com que sejamos capazes de enxergá-los como personagens à parte do estilo geral aplicado aos heróis principais das sagas”.

Capa de O Sangue do Olimpo, último volume da série Os Heróis do Olimpo, do escritor norte-americano Rick Riordan

Será que os escritores aplicam uma fórmula para a construção desses personagens? Conversamos com Affonso Solano, autor de Espadachim de Carvão e coordenador do selo Fantasy, da Leya; Roberto Causo, autor de Glória Sombria: A Primeira Missão do Matador (Devir); e Felipe Hermano Teixeira, autor de A Maldição de Perséfone – Bruxos e Deuses, que elencaram o que para eles é fundamental na hora de criar o “herói” no gênero fantástico.

1. Capacidade de agir

“O herói/heroína se destaca por sua capacidade de agir enquanto os outros não o fazem. Ele pode relutar ou questionar essa ação, como Joseph Campbell sugere na Jornada do Herói, mas ao final da jornada deve se render aos instintos e superar a própria inércia.” (AS)

2. Herói não nasce herói

“O herói não nasce um herói; seu moldar deve estar descrito através da história que o leitor acompanha, ou ao menos sugerido nas entrelinhas.” (AS)

3. Vulnerabilidade

“Este é meu fundamento preferido: o personagem heroico bem construído, independente de suas capacidades, deve ser vulnerável de alguma forma – física ou emocionalmente. Enquanto leitores, temos dificuldade de nos importar com personagens invencíveis ou infalíveis.” (AS)

4. Unir qualidades e defeitos

“Para a criação de um herói, não basta apenas a habilidade incomum que ele tem. Um herói consiste em várias qualidades e defeitos que todo humano tem. Você deve dar o maior realismo ao seu personagem, características marcantes que façam com que o leitor se compare com aquele personagem e se envolva até o fim da trama. Um dos exemplos dos livros de Rick Riordan é o fato de todos os semideuses possuírem TDAH e dislexia, mostrando às pessoas reais que elas podem ser alguém especial.” (FHT)

5. O herói nasce de alguém ou algo inspirador

“Um herói sempre vem a partir de alguém ou algo inspirador, a criação dele então começa. Um herói é como uma estátua representando uma pessoa, você modela e deixa ao seu modo, do jeito que quer. Rick fez isso, ao tomar as ‘diferenças’ que seu filho tinha e colocar em um ser até transformá-lo no conhecido Percy Jackson.” (FHT)

6. Características humanas

“O que mais define um herói não são os superpoderes, e sim suas características humanas. Um nome para o herói sempre será chamativo; é o que ajuda a chamar a atenção de uma pessoa para aquela história.” (FHT)

7. Viver situações de intensidade

“O herói precisa viver situações de intensidade e frequência que parecerão incomuns ou improváveis – dentro daquilo que a crítica literária anglo-americana chama de ‘melodrama’ e que não tem muito a ver com sentimentalismo. Mas, apesar de passar por situações improváveis, o herói precisa vivê-las de modo verossímil; do contrário, o leitor não se identifica.” (RC)

8. Isolamento moral

“O herói, para ser significativo, precisa passar por situações de ‘isolamento moral’: coisas que são importantes para a sua identidade e seu senso de honra pessoal não encontram ressonância no seu grupo ou na sociedade como um todo. O herói até certo ponto se sente deslocado diante dos valores dominantes e aos quais ele faz contraponto. Como disse o filósofo alemão Norbert Bolz, o herói às vezes está fora daquilo que a sociedade secretamente admite ser aceitável. Na minha série As Lições do Matador, o herói Jonas Peregrino é muitas vezes visto como uma ameaça a um status quo conformista e corrupto.” (RC)

9. Saber enfrentar desafios

“O herói precisa ser capaz de enfrentar os desafios que surgem, do contrário ele não conserva o impulso utópico representado por ele. Como afirmou a filósofa americana Susan Neiman, os heróis ‘ampliam o nosso conceito do que é possível fazer, mostrando-nos que é possível fazer muito mais do que supomos’. Ender Wiggin, personagem dos romances de Orson Scott Card, é quase destruído emocionalmente no primeiro livro, mas encontra forças para seguir adiante e encontrar algum tipo de redenção.” (RC)

10. Discurso e superação

“O herói, por sua trajetória, obstáculos e dilemas que enfrenta, precisa dizer algo a respeito da condição humana no agora e nos fazer sentir que podemos superá-la, quando ela se mostra negativa. Mesmo quando a primeira coisa que a sociedade moderna rejeita é o próprio conceito do herói – porque o ‘herói nos lembra de que o mero viver e sobreviver não são o bom viver’, como Bolz escreveu; isto é, o herói também nos lembra de que às vezes desistimos de nossos valores e desejos.” (RC)

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