Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 21.05.2014 21.05.2014

DEZ dicas de Roberto Taddei para jovens escritores

Por Zaqueu Fogaça
 
Pablo Neruda costumava afirmar: “Escrever é fácil: você começa com uma letra maiúscula e termina com um ponto final. No meio você coloca ideias”. De fato, o poeta estava correto, nada mais simples e didático para um jovem escritor do que ter conhecimento dessa lição.
 
A única certeza sobre o ato de escrever é a de que não há regras ou fórmulas. Se você busca por elas, talvez seja importante tomar contato com as palavras de W. Somerset Maugham sobre o assunto: “Existem três regras para se escrever ficção. Infelizmente ninguém sabe quais são elas”, disse o autor de A Servidão Humana (Globo Editora).
 
Para quem está no impasse de escrever o primeiro livro e enfrentar o papel em branco não tem sido nada fácil, o ensinamento do autor norte-americano E. L. Doctrow pode dizer muita coisa. “Planejar escrever não é escrever. Esboçar… pesquisar, conversar com as pessoas sobre o que você está fazendo, nada disso é escrever. Escrever é escrever”, disse.
 
Para entender os elementos estruturais de uma obra ficcional, o SaraivaConteúdo conversou com o Coordenador de Pós-Graduação em Formação de Escritores do ISE Vera Cruz e autor do recém-lançado romance Terminália (Prumo), Roberto Taddei, que listou dez dicas para jovens escritores.
 
1. PLANEJAMENTO
 
Escrever um romance, para emprestar a metáfora do escritor japonês Haruki Murakami, é como correr uma maratona. É preciso fôlego, persistência, planejamento, conhecimento e também preparo físico: seja para suportar as horas em frente ao computador ou ao caderno, seja para reconhecer os momentos da escrita e saber respeitá-los.
 
2. ENREDO
 
Há um vídeo do escritor Kurt Vonnegut na internet onde ele resume, com algum sarcasmo, as curvas dramáticas dos enredos conhecidos. No mínimo, serve para perceber que dificilmente você criará um universo inteiramente novo. Já o crítico Norman Friedman propôs uma organização dos enredos em três tipos: de destino, de personagem e de pensamento, com algumas subdivisões. Resumidamente, diz que o tipo de enredo se define a partir do relacionamento entre duas coisas: uma sequência de eventos que resulta em um completo processo de mudança, bastando saber se a mudança é de destino, de personagem ou pensamento. Otto Maria Carpeaux identificava, a partir da formação histórica das literaturas, três tradições romanescas: a anglo-saxã, a francesa e a ibérica, respectivamente com enredos de tipo moral, filosófico ou social. Escolha o seu, ou deixe-se escolher.
 
3. GÊNERO
 
O escritor Colson Whitehead escreveu há alguns anos um artigo no “New York Times” com sugestões de gêneros para o seu próximo romance. Tiro desse artigo apenas um exemplo: “O romance metaficcional: o romance que fala do romance enquanto fala do leitor que lê o romance e do escritor que escreve o romance para o leitor ler e lembrar do escritor por trás de tudo.” A lista é extensa e inclui gêneros inspirados em familiares imigrantes, catástrofes, mulheres com asa e homens sem boca, thrillers… Há textos mais sérios sobre o assunto, evidentemente, se você quiser se aventurar no romance policial, no realismo fantástico, estranho ou absurdo. É bom ter a medida do que é invenção e do que é repetição em suas próprias escolhas.
 
4. PERSONAGEM
 
Para Hemingway, os escritores não deveriam criar personagens e sim pessoas reais. Um personagem, dizia, não passa de uma caricatura. Para E.M. Foster, os personagens podiam ser “flats” (unidimensionais) ou “rounds” (tridimensionais). Para James Wood, um bom personagem é o que distingue a boa literatura. De uma maneira ou de outra, algo parece ser crucial: a identificação do leitor é com o personagem.
 
O recém-lançado romance Terminália (Prumo)
 
5. NARRADOR
 
Os tipos de narrador são basicamente três: em primeira, segunda e terceira pessoa. Com isso, cria-se o infinito. A primeira pessoa, que parece ser confiável, quase nunca o é. A terceira é confiável em termos, e nem sempre é onisciente. Ela pode estar limitada à visão de um personagem, como no caso de Desonra, de J.M. Coetzee, ou se misturar a muitos registros diferentes, como em As Meninas, de Lygia Fagundes Telles. Esse é um dos assuntos mais fascinantes da escrita romanesca e não há material que o esgote.
 
6. AMBIENTAÇÃO
 
O que o cenário diz sobre o seu romance? Ele é apenas o que aparece no fundo enquanto os personagens interagem? Para exemplificar, reflita: você existe independente do ambiente em que está, dos objetos ao seu redor? Apesar de potencialmente acreditar na indivisibilidade da alma, no “penso logo existo” que dá forças para crer na existência até de olhos fechados, você está, desde o dia do nascimento até o último deles, sempre em algum ambiente e cercado de objetos. Será que isso diz pouco sobre os personagens que você criou?
 
7. DISCURSO
 
Os tipos de discurso, como muitas outras coisas que você precisa para escrever, você já aprendeu na escola (ou pode facilmente recuperar em uma gramática, ou no clássico Comunicação em prosa moderna, de Othon M. Garcia). Há questões importantes de ritmo, fluidez, verossimilhança, e riqueza linguística associadas aos discursos que você pode investigar. Mas o que vale a pena ressaltar aqui, entre o discurso direto, o indireto, o indireto livre, o fluxo de consciência, etc.… é que quando falamos de discurso em romance, nunca estamos falando do discurso do autor. Lembre-se disso.
 
8. REALIDADE
 
O que é real e o que não é? O que é a verdade ficcional? O escritor argentino Cesar Aira, preocupado com a questão, perguntou-se: “mas o que faz a realidade parecer tão real?”. O resultado, que se pode ver em livros como Um acontecimento na vida do pintor viajante, é a mistura de realidade e ficção de maneira inextricável. O problema todo se resume a um: a realidade, na ficção, deve ser construída por dentro, e não dada a priori. Quem julgará se a construção do real ficcional se dá ou não é o leitor.
 
9. LINGUAGEM
 
Digamos que você comece balançando entre dois polos de uma gangorra. De um lado está Luis Fernando Verissimo, ou Albert Camus, com uma economia verbal. Do outro, Guimarães Rosa e James Joyce, eternamente alargando o poço do infinito. O que fazer? T.S. Eliot dizia que não é um grande escritor que faz um idioma, mas um grande idioma que faz o escritor. Em que idioma você escreve? O que há para dominar nele ainda? O caminho, você sempre soube: leitura. Para ficar em uma análise mais prática, James Wood lembra que o autor deve dominar três tipos de linguagem em um romance: a língua do autor (seu estilo); a língua do personagem (como ele se expressa e pensa); e a língua do mundo (da história).
 
10. O INÍCIO, O MEIO, E O FIM
 
Aristóteles teria dito: o começo é aquilo que não requer que nada o preceda; o fim é o que não requer que nada o suceda; e o meio é aquilo que precisa de algo antes e algo depois. Simples, não é? Acrescente a isso a ideia de que a primeira frase de um romance necessariamente contém e define a última frase do mesmo. E como você saberá disso? Quando chegar à última frase do livro. E como chegará a ela? Partindo da primeira. Ao final do processo, às vezes é inevitável reescrever a primeira frase. Mas, se você não chegar à última, nunca saberá disso.
 
                                                                                                                           Cris Lyra
Roberto Taddei
 
 
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