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Dez anos sem Cartier-Bresson

Por Andréia Martins
Truman Capote deu uma definição muito pessoal ao colega e fotógrafo Henri Cartier-Bresson (1908-2004).Para o jornalista e escritor, o francês “dançava na calçada como uma libélula inquieta” com suas três Leicas penduradas no pescoço, mas era também “um homem solitário no plano da arte, uma espécie de fanático”.
Cartier-Bresson é um dos mais importantes nomes da fotografia mundial. Falecido em 2004, aos 95 anos, Bresson é do tempo em que boa parte das pessoas conhecia o mundo pelas fotografias nas revistas. Cobriu a morte de Gandhi, presenciou os últimos dias antes da Revolução Chinesa em 1949 e foi o primeiro europeu ocidental a fotografar a União Soviética comunista, só para citar algumas de suas coberturas.
Teve como uma de suas principais influências o fotógrafo húngaro André Kertész (1894-1985), considerado um dos percursores da fotografia urbana.E foi outro fotógrafo húngaro o responsável por fazer Bresson se decidir pela profissão. Em 1931, ele contemplou uma foto tirada por Martin Munkácsi e publicada na revista Photographies que mostrava três jovens negros correndo em direção ao mar, no Congo. A imagem fez o francês decidir o que queria ser para o resto da vida.
Ao longo de sua produção, Cartier-Bresson fez das palavras “instante decisivo” seu lema e metodologia. O termo era parte de um axioma de Jean-François Paul de Gondi (1613-1679), cardeal de Retz, segundo o qual “não há nada no mundo que não tenha o seu momento decisivo”. O francês defendeu que os fotógrafos deviam buscar esse instante decisivo nas fotos, ou seja: o clique no momento exato de registrar determinada situação que não voltará a se repetir.
“Ele formou o pensamento dos fotógrafos durante décadas. A ideia de que a foto é o que se vê num exato momento em que nosso instinto deve estar preparado para captar foi incutida por ele. E para isso temos que estar na rua, fotografando e experimentando. Foi, talvez, o fotógrafo mais hábil a criar imagens belas retratando a essência da hora e do local”, diz a fotógrafa gaúcha Nádia Raupp Meucci.
Para Bresson, toda foto deveria contar uma história, refletir um momento natural com informação suficiente para que o espectador entenda o que está acontecendo e possa imaginar o que vem depois. Por isso dizia que sua principal função era “observar, observar e observar”.
 
                                                                                                                               Henri Cartier Bresson / Magnum Photos
Fila de clientes de banco em Xangai na China pré revolucao em 1948
A última mulher de HCB, a também fotógrafa belga Martine Frank, é fotografada lendo um livro em 1965
“Ainda que a era da informação e da velocidade se iluda com a crença de que o instante decisivo ocorre o tempo todo, on-line, Cartier-Bresson e sua obra permanecem como o fio da meada para o resgate de uma sensibilidade em aparente extinção”, comenta Eder Chiodetto, curador da exposição “Henri Cartier-Bresson: Fotógrafo”, que passou por São Paulo em 2009.
Esse direcionamento mais para a reportagem aconteceu após 1943, quando ele saiu de um cativeiro nazista onde permaneceu por três anos. Como passou a viajar muito, fotografou acontecimentos e personalidades importantes da história. Essa relação com a narrativa que a foto deve impor fez com que muitos o considerassem o “inventor do fotojornalismo” ou “pai da fotografia artística associada ao jornalismo”, título que ele não apreciava.
O PIONEIRISMO DA AGÊNCIA MAGNUM
Em 1947, Cartier-Bresson criou a Agência Magnum, em parceria com outros quatro fotógrafos (Bill Vandivert, Robert Capa, George Rodger e David Seymour). O francês definia o grupo como “aventureiros movidos a ética”. Tratava-se de um negócio pioneiro até então: uma cooperativa de fotógrafos que vendiam fotos para veículos e publicações especiais. Hoje, ela agencia mais de 80 fotógrafos e tem um acervo superior a um milhão de imagens, um dos mais significativos (senão o mais importante) da história do século 20. Cartier-Bresson ficou na agência até 1966, mas permitiu que suas fotografias continuassem no grupo.
 
Matisse em sua casa, fotografado por Cartier-Bresson
Em paralelo à sua produção para a imprensa, Cartier-Bresson também construiu um acervo mais pessoal de imagens, fazendo retratos e fotos menos preocupadas com o “instante decisivo”. Boa parte dessa coleção, que ele chamava de “uma combinação de reportagem, de filosofia e de análise social, psicológica”,foi exposta na mostra dedicada a ele no Centro Pompidou, em Paris, no início deste ano. Uma delas é um retrato de Matisse, em sua casa, com seus pássaros.
Embora tenha testemunhado importantes momentos da história do século 20, Cartier-Bresson ficou famoso também pelos cliques que fazia do cotidiano. Cenas simples e corriqueiras do dia a dia compõem boa parte de seu acervo. Inspirado nesse lado do fotógrafo, o carioca Pedro Garcia criou a versão brasileira do francês, o Cartiê Bressão, em 2012.
“Logo antes de criar o tumblr , por acaso eu tirei uma foto que me lembrou daquela clássica do Bresson que tem um cara saltando uma poça, e a partir daí foi um pulo”, conta Pedro sobre o início do projeto. Hoje, com um livro publicado (Cartiê Bressão: Liberté, Egalité et Brasilité, da editora Versal) e centenas de seguidores nas redes sociais, ele segue fotografando anônimos, especialmente os cariocas. Se pudesse encontrar o francês, a maior curiosidade de Pedro seria saber como Cartier-Bresson faria uso das cores em seu trabalho, já que HCB, como ele era chamado pelos amigos, gostava de usar o preto e branco.
De posse de uma Leica, a câmera que dotou os fotógrafos do poder da invisibilidade graças ao tamanho e ao peso diminutos se comparada a outros equipamentos de época, Cartier-Bresson costumava resumir o que lhe interessava nessa arte de registrar imagens em uma frase: “A foto em si não me interessa, mas sim a reportagem, a comunicação entre o mundo e o homem comum. E há este instrumento maravilhoso, a câmera, que passa despercebida. Pelo visor, a vida é como uma dança!”. Parece que Capote não estava assim tão errado.
 
O fotógrafo francês Henri Cartier Bresson
 
 
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