Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 16.09.2011 16.09.2011

Desassossego, parte final da trilogia Coração de Fogo, chega aos cinemas apostando no formato colaborativo

Por Andréia Silva
Na foto ao lado, o cineasta Felipe Bragança
 
Uma carta, uma história em aberto e 14 diretos para contá-la. É mais ou menos assim que nasceu Desassossego, filme de Felipe Bragança e Marina Meilande, que estreia nesta sexta-feira e é a parte final da trilogia Coração de Fogo. Dela, fazem parte também os filmes A Alegria e A Fuga da Mulher Gorila, que já passaram pelos circuitos comerciais.
 
Todos são inspirados em uma menina anônima, chamada Luiza, que desapareceu no Catete deixando um bilhete com algumas frases. “Essas frases inspiraram o roteiro de Mulher Gorila, me fizeram criar a protagonista de A Alegria e ajudaram a escrever a Carta do Desassossego que gerou o filme em questão. São filmes filhos de uma utopia juvenil, caótica e esfomeada em relação a novas formas de narrar o país que está em torno da gente, hoje”, conta Bragança.
 
 
 
O diferencial de Desassossego é a produção colaborativa. Foi mais ou menos assim: Felipe escreveu a Carta do Desassossego, sobre o fim de um relacionamento, e a enviou a 14 diretores entre paulistanos, mineiros, cariocas e cearenses. Deles, recebeu de volta fragmentos de filmes baseados na história e que ligados resultaram no filme. E não acaba aí.
 
Cena do filme Desassossego, que contou com 14 diretores
 
O filme pronto foi enviado por correio para 2010 pessoas que, esperam os diretores, enviem novos fragmentos de suas impressões sobre a produção, o que pode resultar em um novo filme. “Até agora já recebi um quadro, algumas cartas por correio, e alguns e-mails empolgados com poemas e contos relacionados ou escritos por conta do filme”, diz Bragança.
 
A produção coletiva e colaborativa tem gerado resultados interessantes no cinema. Um exemplo é o recente Life in a Day (A Vida em um Dia, em português), lançado no ano passado, com direção de Kevin MacDonald e produção de Ridley Scott. O projeto consistia em que os usuários filmassem suas vidas durante as 24h do dia 24 de julho de 2010 e postassem o vídeo no YouTube. As melhores histórias foram reunidas em um único filme.
 
Outro filme colaborativo conhecido é o The Story Beyond The Still, lançado pela Vimeo e pela Canon em 2010. A brincadeira começou com uma foto. As pessoas deveriam interpretar essa foto e enviar um vídeo dando sequência a ela. No final de cada vídeo, uma nova foto (still) era mostrada para ser interpretada e ter uma nova sequência. O pontapé inicial da produção foi dado pelo fotógrafo Vincent Laforet. O resultado foram oito capítulos que juntos compõem o filme, que teve sua grande estreia no Sundance Film Festival deste ano.
 
Em Desassossego, Felipe diz que optou pelo formato colaborativo pelo “desejo de propor um novo lugar para olhar a fusão cultural pela qual o país está passando hoje, e essa fusão deveria passar também pela fusão desses diferentes estilos e texturas dos diretores que convidamos”.
 
Participaram do projeto os cineastas Helvécio Marins Jr, Clarissa Campolina, Carolina Durão, Andrea Capella, Ivo Lopes Araújo, Marco Dutra, Juliana Rojas, Caetano Gotardo, Raphael Mesquita, Leonardo Levis, Gustavo Bragança, Karim Aïnouz, além dos próprios Felipe Bragança e Marina Meilande.
 
Perguntado se os fragmentos tomaram rumos esperados, Felipe diz que nunca alimentou muita expectativa sobre qual seria o caminho do filme. “É um filme de fluxo e ruptura sem uma trama exata. Nunca tive nenhuma expectativa exata, apenas que o filme ia expressar o caos do momento histórico e potente que vivemos hoje, principalmente dessa geração entre 25 e 35 anos que cria imagens no país. Acho que o filme final expressa isso”.
 

O filme Alegria, de Felipe Bragança e Mariana Meilande, feito para a trilogia Coração de Fogo

A Alegria, o outro filme da trilogia, gira em torno do tédio de um grupo de jovens que recorre à fantasia para quebrar essa rotina, enquanto A Fuga da Mulher Gorila acompanha alguns dias na vida de duas irmãs que atravessam as estradas do Rio de Janeiro, em uma Kombi, apresentando um espetáculo circense. Neste projeto, coube a Desassossego representar o lado mais denso e dramático do projeto, com fragmentos sobre amor, utopia, explosões e apocalipse.
 

“Jovens e adolescentes, em especial, costumam se emocionar e se identificar muito com o tom delirante, arriscado e amoroso dos filmes. Isso nos deixa muito felizes. Mas há também quem se identifique com o cinema experimental brasileiro dos anos 70. Ouvimos muito esse tipo de elogio e aproximação carinhosa, embora não sejam filmes fáceis, são amorosos com quem os vê”, comenta Bragança.

 
 
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