Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Música 28.10.2011 28.10.2011

Depois de dois anos de recesso, o Rappa está de volta à estrada

Por André Bernado
Marcelo Falcão
Crédito: Diego Matheus/Grudaemmim
Ninguém entendeu nada quando, em dezembro de 2009, bem no meio da turnê do álbum Sete Vezes, lançado em 2008, o grupo O Rappa anunciou que estava entrando em recesso.Em comunicado à imprensa, o vocalista Falcão, o tecladista Lobato, o guitarrista Xandão e o baixista Lauro avisavam que, durante as férias da banda, se dedicariam a outros projetos. 
 
Logo, os rumores deram como certo o fim do grupo. “Banda é igual a casamento. Se você não toma cuidado, a mesmice acaba com ele”, justifica Marcelo Lobato. Mas, a julgar pelos últimos acontecimentos, a banda está longe de acabar.
 
Depois de quase dois anos de recesso, O Rappa está de volta aos palcos. Nos dias 21 e 22 deste mês, o grupo deu início, na Marina da Glória (RJ), a uma série de 13 apresentações pelo Brasil.
 
Segundo Lobato, o repertório é composto por antigos sucessos em novos arranjos. E também por canções que, há muito, não são tocadas nos shows. “Um show do Rappa nunca é igual ao outro. O público sabe e gosta disso”, avisa Lobato.
 
Além de se dedicarem a seus projetos paralelos, os integrantes aproveitaram o recesso para compor bastante. Ano que vem, os quatro entram em estúdio para gravar o oitavo álbum da carreira. O último, Ao Vivo na Rocinha, foi lançado em 2010. “Ainda é cedo para falar sobre o álbum novo. O que eu posso adiantar é que, como sempre, a gente vai tentar fazer algo novo, diferente de tudo o que já foi feito”, garante.
 
O Rappa está retomando a turnê que interrompeu em 2009. O que mudou no show?
 
Lobato. Um show do Rappa nunca é igual ao outro. O público sabe e gosta disso. Estamos pegando algumas músicas, principalmente do álbum Sete Vezes, que é o nosso último de inéditas, e experimentando novos arranjos. Embora o repertório do show não seja inédito, a gente quer trazer algumas novidades. Antes de voltar para a estrada, o Rappa ensaiou por duas semanas no estúdio. Nesses ensaios, experimentamos sonoridades, exploramos cross-overs, essa coisa toda. É por isso que, apesar de já termos quase 20 anos de história, só lançamos sete álbuns. O Rappa gosta de explorar coisas diferentes. O Rappa é uma zebra dentro do mercado fonográfico. Apesar de todas as dificuldades, é uma banda original, que faz seu próprio som e tem um público fiel…
 
O Rappa volta aos palcos depois de quase dois anos de recesso. É a primeira vez que a banda tira um recesso tão longo?
 
Lobato. Desse tamanho, é. Já ficamos alguns meses sem tocar, mas nossos recessos nunca passaram de três meses. Sempre fizemos muito show. Esse recesso foi providencial porque serviu para a gente fazer um monte de coisas: descansar o corpo, espairecer a cabeça, curtir a família e, principalmente, dar um frescor na convivência. Banda é igual a casamento. Se você não toma cuidado, a mesmice do dia a dia acaba com ele. O Rappa sempre esteve muito atento a isso. Por isso, garanto que esse recesso foi bacana para todo mundo. Pessoalmente, eu tinha outras coisas a fazer. Nesse período, me dediquei bastante aos meus projetos solos.
 
Vocês continuaram a manter contato entre si? Ou ficou cada um para um lado?
 
Lobato. Nós nos falávamos, mas falávamos pouco. Cada um ficou num canto, respirando o seu próprio ar. Pessoalmente, eu falava mais com o Xandão. Às vezes, encontrava o Lauro. De uns seis meses para cá, a gente voltou a se encontrar com mais frequência. Até para resolver algumas pendências. Aproveitamos a ocasião para mudar de empresário. Foi uma época de reavaliações. A banda já tem quase 20 anos de história. É uma estrada e tanto!
 
Nesse meio tempo, vocês aproveitaram para compor músicas novas?
 
Lobato. Também. Não exatamente para O Rappa, mas para seja lá o que for. Eu tirei férias do Rappa, mas não tirei férias da música. Nesse período, lancei um CD independente da minha banda de música africana, o Afrika Gumbe, que é uma aposta totalmente diferente da do Rappa. O Xandão gravou algumas bandas no estúdio dele. O Falcão se apresentou com os Loucomotivos. E por aí vai. Ou seja, cada um seguiu para um lado. Quando você está em turnê, sobra pouco tempo para cuidar de outras coisas. Na estrada, você praticamente perde os finais de semana. Você chega em casa numa segunda-feira, que é um dia de descanso para você, mas o mundo inteiro está lá fora. Você tem que pagar contas, ir ao supermercado, levar a filha no colégio, e assim por diante. Eu faço as minhas coisas. Não sou de delegar responsabilidades para terceiros cuidarem da minha vida. Se eu tiver que fazer alguma coisa, vou lá e faço. E faço as coisas normais de um ser humano normal. Se você não tem uma paixão muito grande pelo que você faz, desiste no meio do caminho. Mas essa é a vida que eu escolhi. Sinto que, no fundo, todo mundo do Rappa estava a fim de voltar.
 
Em 2012, o Rappa volta aos estúdios para gravar um novo CD. O que você pode adiantar sobre esse novo trabalho?
 
Lobato. O Rappa não é o tipo de banda que consegue se planejar com tanta antecedência. O que eu sei é que a gente vai tentar fazer algo novo, diferente de tudo o que já foi feito. Ainda é cedo para falar sobre o disco novo. O Falcão está vindo aí cheio de música nova. Ele gosta de compor ao violão, tem uma pegada meio Jorge Ben. Eu e o Lauro também compusemos coisas novas. Às vezes, a gente leva quase dois anos para lançar disco novo. A gente gosta de experimentar sonoridades, ouvir coisas novas, trocar de estúdio. É por isso que a gente resolveu transgredir essa tradição mercadológica de lançar um álbum novo todo ano. A gravadora já sacou isso. A gente nunca entra no estúdio com o repertório pronto. É lá que a gente mais mexe nas músicas. A única coisa que eu sei por enquanto é que vai chegar um momento no ano que vem que a gente vai ter que falar: “Bem, galera, chegou a hora…” (risos)
 
Entre gravar no estúdio e tocar no palco, do que você gosta mais?
 
Lobato. Dos dois. Durante a semana, vivo dentro do estúdio. Pessoalmente, uso muito o estúdio para compor. Antigamente, estúdio era uma coisa fria, chata, sem personalidade. Até que montei o meu próprio estúdio. Um lugar prazeroso de se estar. Mas, hoje em dia, você não pode viver só da venda de CDs. Tem que fazer turnê também. E fazer turnê tem um lado divertido porque você dá um descanso para a sua família. Ficar muito tempo em casa não dá certo… (risos) Mas tem um lado estressante também: check-in de avião, crise aérea, essas coisas. Ninguém viaja de avião porque gosta, não é mesmo? Mas o palco, para nós, é quase uma necessidade. O Rappa é uma boa banda de palco. A gente manda muito bem lá…
 
Este ano, o Rappa foi convidado para participar da quarta edição do Rock in Rio. Por que vocês não aceitaram o convite?
 

Lobato. A gente até pensou em antecipar a volta da banda para o Rock in Rio. Mas a história do Rappa ia ficar dissolvida ali dentro. Houve uma galera pedindo a nossa participação no festival. Até porque a gente nunca tocou no Rock in Rio. Há alguns anos, a gente teve um problema. A princípio, o Rappa ia tocar à noite. Depois, mudaram as regras e quiseram que a gente tocasse de tarde. A gente não topou. Durante muito tempo, a banda ficou mal vista. Mas o Rappa quis apenas cumprir o contrato, só isso. O pessoal precisa aprender a respeitar os artistas brasileiros também. Mas, desta vez, foi algo circunstancial. O Rappa preferiu fazer um negócio só dele, voltado para o seu público. Afinal, o público do Rappa merece!

 
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