Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Música 10.11.2011 10.11.2011

Depois de cinco anos sem entrar em estúdio,Marisa Monte volta a lançar um CD de músicas inéditas

Por André Bernardo
Na foto, Marisa Monte
 
Marisa Monte sempre gostou de transgredir as regras do mercado. Não é todo dia que uma cantora em início de carreira lança um primeiro álbum ao vivo. Caso de MM, de 1989. Ou, então, que alcança a marca de três milhões de álbuns vendidos, sem conceder entrevistas ou fazer shows. Como Tribalistas, de 2003. Ou, ainda, que resolve lançar dois álbuns simultaneamente. Casos de Universo ao Meu Redor e Infinito Particular, de 2006. “Acho legal que eu consiga ser tão popular sem necessariamente precisar me submeter a todas essas coisas que se espera de um artista popular”, afirma. Desta vez, Marisa Monte adotou a internet como plataforma oficial de divulgação de seu mais novo CD, o nono da carreira, O que Você Quer Saber de Verdade, que chega às lojas após um intervalo de cinco anos sem lançar material inédito. “Fiz esse disco em um momento legal porque fiquei mais em casa. Tive mais tempo para aproveitar a vida, viver a música, ouvir o coração”, divaga.
Depois do lançamento simultâneo de Universo ao Meu Redor e Infinito Particular, Marisa Monte saiu em turnê por 17 países, lançou o DVD Infinito ao Meu Redor, produziu o documentário O Mistério do Samba, dirigido por Lula Buarque de Holanda e Carolina Jabor, e, ainda, teve uma filha, Helena, hoje com quase três anos. “Quando você está com a vida corrida e chega ao hotel, a última coisa em que pensa é em continuar tocando e cantando. Você só quer saber de ficar quieta, ler um livro e, sei lá, fazer tricô”, confessa. “A última vez em que emendei um trabalho no outro foi quando gravei o álbum Barulinho Bom, em 1996, um disco ao vivo do Cor-de-Rosa e Carvão. Não foi uma experiência totalmente prazerosa e acho que, quando trabalho com prazer, tenho mais chances de fazer as pessoas sentirem esse prazer ao ouvir o meu trabalho”, relembra a cantora, que contabiliza nove CDs (sete em estúdio e dois ao vivo) e seis DVDs.
 
Toque tribalista
No novo álbum, Marisa Monte volta a trabalhar com dois amigos de longa data: Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown. Juntos ou separados, Marisa, Arnaldo e Brown compuseram nove das 14 faixas. “O Tribalistas não nasceu com a intenção de se tornar um grupo. Cada um já tinha sua história. Quando criamos o projeto, a gente só queria realmente fazer o disco. Não descarto a possibilidade de a gente se encontrar e, mais adiante, fazer alguma coisa especial. Mas, se a gente fizer só um ou dois shows, nunca vai ser o suficiente”, pondera. Uma das canções compostas por Marisa e Arnaldo, “Ainda Bem”, foi escolhida como o primeiro single do álbum. Desde que a cantora liberou, em streaming, a canção em sua página na internet, “Ainda Bem” já ultrapassou a marca de 1,2 milhões de acessos, o que inclui, também, as exibições do clipe da música no YouTube. Nele, Marisa Monte aparece dançando com o lutador Anderson Silva, atual campeão mundial dos pesos médios do UFC.
“Como a música fala da celebração de um encontro, achei que um par dançando representaria bem essa ideia. Convidei o Anderson porque sabia que ele dançava. Já o tinha visto entrar como Michael Jackson antes de uma luta e dançar com a filha na festa de 15 anos. Felizmente, ele aceitou o convite e tudo fluiu bem. A gente sequer ensaiou a coreografia”, entrega a cantora, que gosta de frequentar bailes na cidade do Rio. A exemplo de “Ainda Bem”, boa parte das músicas que compõem o repertório de O que Você Quer Saber de Verdade fala de amor. “A relação do canto com o amor é ancestral. Até os passarinhos cantam quando querem atrair um parceiro. No meu caso, a minha preocupação ao cantar o amor hoje é falar do amor de uma forma contemporânea. Não um amor idealizado, mas, sim, um amor vivido”, garante a cantora, que teve uma de suas músicas mais famosas, “Amor I Love You”, cantada por Roberto Carlos e Reginaldo Rossi.
Além das canções inéditas, O que Você Quer Saber de Verdade traz duas regravações. Uma de “Descalço no Parque”, de Jorge Ben Jor, e outra de “Lencinho Querido”, sucesso nos anos 50 na voz de Dalva de Oliveira. Muito antes de “Descalço no Parque”, Marisa já tinha revisitado, também de Jorge Ben Jor, as canções “Balança Pema”, em “Verde, Anil, Amarelo, Cor de Rosa e Carvão”, de 1994, e “Cinco Minutos”, em “Memórias, Crônicas e Declarações de Amor”, de 2000. “’Descalço no Parque’ é daquelas canções que está na minha vida há um bom tempo. Sempre gostei de tocá-la em casa, ao violão, e também durante as turnês”, derrama-se. No novo álbum, há lugar também para duetos inéditos. Como o que ela fez com Rodrigo Amarante, ex-Los Hermanos, na canção “O Que se Quer”, a primeira parceria da dupla. “Essa música fala sobre o que se quer e sobre pagar o preço do que se quer, mesmo parecendo loucura para todo mundo em volta”, define.
 
Diva pop
 
Apesar de seus mais de 20 anos de carreira, Marisa Monte admite uma certa insegurança sempre que lança um novo álbum. “Eu não tenho controle do que as pessoas vão achar. Por mais que eu faça o meu melhor, nunca vou satisfazer a todos”, reconhece. Mesmo assim, Marisa não tem do que reclamar. Ao longo da carreira, colecionou inúmeros prêmios: três Grammy Latinos, seis TIM, sete VMBs (MTV Video Music Awards Brasil) e nove Multishow. A versão brasileira da revista “Rolling Stone” chegou a elegê-la como a mais importante cantora brasileira viva e incluiu dois de seus álbuns – “MM”, de 1989, e “Verde, Anil, Amarelo, Cor de Rosa e Carvão”, de 1994 – no ranking dos 100 melhores de todos os tempos. “Minha música sempre teve uma vocação popular. Minha linguagem é direta, clara, simples. Acho uma qualidade você ser simples. Dizem que sou cult, mas nunca tive a intenção de ser cult. Às vezes, a minha música se confunde com a minha postura reservada”, avalia.
De fato, Marisa Monte não é a frequentadora mais assídua de programas de auditório, badalações noturnas ou revistas de celebridade. “Hoje em dia, existe uma confusão muito grande entre arte e artista. Pessoalmente, eu me sinto confortável em servir à música. Mas não tenho a vaidade de querer aparecer mais do que ela”, avisa. Quem admira o trabalho da cantora terá que esperar até o ano que vem para assisti-la ao vivo. “Já estou com algumas ideias para o show novo. Mas, neste momento, estou muito mergulhada no lançamento do CD. Estou deixando para pensar em show um pouco mais para frente”, frisa. Entre os muitos sonhos, cantar com orquestra. “Existe um projeto para uma série de shows de entrada franca, ao ar livre, com orquestra sinfônica, que passaria por algumas cidades”, adianta. Ou, quem sabe, fazer um show online. “Por mais que eu faça turnês, nunca poderei estar em todos os lugares. Neste caso, a internet pode ser uma solução”, especula.
 
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