Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 25.05.2009 25.05.2009

De volta do ostracismo

Wilson Simonal é o Barbosa da nossa música popular brasileira. Assim como o goleiro da fatídica Copa de 50, Simonal também era negro, de origem humilde e teve o seu nome, a certa altura da vida, gritado pelas massas. Até que um ato (ou seria mero boato?) o devolveu ao ostracismo e à condenação inglória dos renegados nacionais. Simonal e Barbosa morreram ambos estigmatizados, cumprindo um tipo de pena expiatória, isenta de julgamento ou apelação, e sem jamais serem anistiados pelos crimes que não cometeram.Descoberto no início da década de 1960 pelo polêmico Carlos Imperial, Simonal logo estourou nas paradas de sucesso. O seu carisma, aliado à facilidade que tinha de manipular as multidões, o tornou um showman sem precedentes no país. Fez sucesso, fama e dinheiro de maneira quase meteórica. Com apenas três anos de carreira já fazia turnês pela América do Sul e Central. Uma ousadia imperdoável para as classes dominantes brasileiras que logo o taxaram de traidor, delator, alcagüete, dedo-duro ou qual seja o outro nome que se dê a mais imperdoável, juntamente com o estupro, das misérias humanas.Durante oitenta e seis minutos o documentário Simonal – Ninguém sabe o duro que dei flui impecável no que tange ao visual, se impondo não só pela força trágica do personagem, mas também pelo precioso material de arquivo, fruto de longa e depurada pesquisa. O projeto gráfico, a cargo de Duda Souza, incrementa o filme com um toque anos 60, meio tropicalista, meio kitsch, num barroquismo nada gratuito. Assim como o músico Arnaldo Baptista, Simonal também conheceu o inferno em vida; mas, ao contrário do primeiro, jamais encontrou o caminho de volta. Com todas as portas fechadas, a ele só restou se consolar no álcool. Morreu de cirrose hepática em 2000, aos 62 anos.Os atuais documentários brasileiros cada vez mais cumprem o papel de resgatar ou simplesmente lançar uma nova luz sobre expoentes da nossa música. Foi assim com Cartola, Waldick Soriano, Humberto Teixeira, Simonal, Vinícius de Moraes, Tom Zé, Caetano Veloso, Titãs, Bethânia, Paulinho da Viola, Tati Quebra-Barraco e Nelson Freire, dentre outros. No caso de Simonal, a coisa se confirma, pois o filme traz à tona não só o perrengue pelo qual ele passou nos últimos 30 anos de sua vida, mas também recupera o grande intérprete que foi, apresentando-o à geração coca-cola, para a qual o nome Wilson Simonal não quer dizer absolutamente nada. A partir do filme, em circuito comercial desde 15 de maio, todos poderemos relembrar a sua apoteótica apresentação no Maracanãzinho, ou no intervalo do Festival da Canção, ou ainda de suas memoráveis apresentações com Sarah Vaughan, Elis Regina e tantos outros.O documentário Simonal – Ninguém sabe o duro que dei, dirigido por Claudio Manoel, Micael Langer, Calvito Leal, antes de mais nada, é um libelo à saga deste artista que teve o talento amputado no auge da carreira: primeiro pelos meios de comunicação (leia-se: Central Globo de Comunicação e Pasquim), depois pela própria classe artística e, por último, pela opinião pública. Sem direito a protestos, Simonal sofreu todo tipo de patrulha e humilhação. Tentaram apagar o seu nome da recente história musical brasileira. Seus discos saíram de circulação, fora dos catálogos. Shows? Impossíveis. Apresentações em programas de televisão? Impensáveis. Seu nome virou tabu. Sovaram na mesma massa homem e artista e o botaram em banho-maria para todo o sempre.

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