Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo HQ 17.07.2012 17.07.2012

De super-heróis a artistas renomadas, a comunidade LGBT vêm ganhando mais espaço nas HQ’s

Por Marcelo Rafael
 
O ano de 2012 está sendo um ano de grande visibilidade para a comunidade LGBT. Não apenas pela capa da revista Newsweek, que abordou Barack Obama como o primeiro “presidente gay”, por suas posições a favor dos direitos humanos (o que inclui os homossexuais) nos EUA. Mas também por causa da presença do assunto nas histórias em quadrinhos.
 
O tema é tão relevante no mundo das HQs, que, este ano, ganhou até mesa de debate sobre os 40 anos deste tipo de liteatura na principal convenção de cultura nerd dos EUA, a San Diego Comic Con. Para os gays, é apenas o começo de uma nova etapa de visibilidade.
No começo de junho, a editora DC Comics revelou que Alan Scott, o primeiro homem a usar o anel do Lanterna Verde, na década de 40, é gay. Em um trecho da HQ divulgado na internet, Alan (que não é o mesmo do filme) encontra-se com seu namorado.
Em março, um dos gibis mais populares (por retratar a sociedade norte-americana), 'Archie', estampou na capa do nº. 16 de 'Life with Archie' a celebração do casamento de um militar (com direito à farda durante a cerimônia) com outro homem.
 
O exemplar, vendido sem nenhum tipo de restrição nas livrarias dos EUA, gerou críticas e protestos de um grupo conservador chamado One Million Moms, que desejava impedir a venda da HQ com a cerimônia. Sem conseguir evitar a publicação da revista, o grupo promoveu um boicote que acabou tendo um efeito contrário: o exemplar teve a tiragem esgotada em todas as livrarias norte-americanas. E vendeu, inclusive, para o exterior.
 
Kevin Keller casa-se com seu noivo na HQ norte-americana 'Archie'
Outra tentativa de censura e boicote foi feita assim que a editora Marvel anunciou o casamento de um super-herói gay, o Estrela Polar. A edição nº. 51, de junho, do gibi 'The Astonishing X-Men', traz na capa a cerimônia de casamento do herói canadense com seu noivo, o gerente de eventos de uma empresa esportiva, Kyle Jinadu, com direito ao comparecimento de “astros” como Wolverine, Tempestade e Homem de Gelo.
Estampar a capa com grandes e esperados casamentos é comum no mundo dos quadrinhos: em 94, Ciclope e Jean Grey, ambos dos X-Men, ganharam sua capa, assim como Superman e Lois Lane, em 95. Sem nenhum tipo de chiadeira.
Para Marcio Caparica, designer gráfico e leitor de quadrinhos desde a infância, apresentar os homossexuais sem grande alarde é importante para o público infantojuvenil. “Para o leitor criança, se você não apresenta a coisa como escândalo, ele não acha um escândalo, ele acha normal”, diz, citando também a Batwoman, que tem sua própria HQ e namora Renee Montoya, uma policial de Gotham City.
A personagem Montoya assumiu-se homossexual antes de Kate Kane, a Batwoman. Em 2006, as duas passaram a ter um romance.
A bibliotecária e militante em direitos humanos com ênfase na sexualidade, Guilhermina Cunha, concorda com Caparica. “Sendo a ‘adolescentada’ a maior consumidora de gibis e mangás, nada melhor que tirar os personagens do armário, colocá-los nas ruas, de maneira comum, tranquila, sem alarde… Assim, ver gay, lésbica ou trans deixa de ser chocante. Sendo normal, deixa de ser objeto de disputa. Disputa no que diz respeito à violência, catarses, chacotas e outras coisinhas”.
Assim como no caso do personagem gay da HQ 'Archie', além de homossexual, o relacionamento de Estrela Polar é inter-racial. A quebra de tabus é característica dos X-Men.
 
“A Marvel tem esse mecanismo já estabelecido: os mutantes servem como substitutos genéricos pra qualquer minoria injustiçada do momento. Quando eles foram criados, focava-se o preconceito contra os negros. Agora a questão é a dos homossexuais. E eles estão na frente também”, afirma Caparica.
E não é de hoje que gays, lésbicas e transgêneros ocupam as páginas dos quadrinhos. Desde a década de 80, Neil Gaiman preenche as páginas de seu clássico Sandman com personagens LGBT. Um exemplo é Wanda, transexual que aparece na história 'Game of You'.
Também nos anos 80, a Marvel criou o polêmico personagem Extraño, um super-herói espalhafatoso e considerado caricato por alguns críticos. Atacado por um vilão que transmitia AIDS, Extraño tornou-se HIV-positivo.
O alemão Ralf König, sem muitos pudores na linguagem e no traço despojado, retratou com humor a cena gay europeia dos anos 80. Seu primeiro álbum, 'O Homem Ideal', foi publicado no Brasil apenas em 1997. Primeiro título da editora Via Lettera a obra hoje está esgotada. O sucesso permitiu o lançamento dos volumes que tocam em outros temas: 'E, agora, os Noivos Podem se Beijar', sobre uniões homossexuais, e 'Como Coelhos', sobre relacionamentos hétero e homossexuais.
Assunto sério
Além dos quadrinhos de König, outro álbum que chamou a atenção da crítica, ganhando o prêmio Will Eisner – a maior premiação norte-americana da categoria –, foi 'Fun Home', de Alison Bechdel, que tocou em assuntos graves e vividos por muitos homossexuais.
 
A filha “masculina” e o pai “feminino” na biografia de Alison Bechdel, 'Fun Home'
Crédito: Alison Bechdel
A HQ autobiográfica mostra como Bechdel lidou com sua sexualidade em um lar disfuncional e de como, mais tarde, acabou descobrindo que seu pai também era gay.
“O interessante dessa obra é como ela lida com as questões de masculinidade e feminilidade não necessariamente associadas ao feminino e ao masculino. Alison é uma menina com traços e trejeitos masculinos e seu pai é o oposto disso, é um homem feminino. E ela descreve os dois como "invertidos", puxando a classificação antiquada que se tinha”, comenta Renata Dalmaso, pesquisadora em literatura inglesa e doutoranda com uma tese sobre Fun Home.
A força com que Alison narra sua própria vida e os problemas ao ir se descobrindo gay (e descobrir que seu pai também o é) lhe valeu a menção como melhor livro do ano de 2006 pela revista Time.
 
“Não é exatamente uma história especificamente voltada para o nicho gay. É a história dela e do pai dela, de como essa relação acabou se misturando com a descoberta de ser homossexual e como acabou influenciando a vida dela como um todo, inclusive como artista”, conta Dalmaso.
E vem mais por aí este ano. A editora norte-americana Fantagraphics prometeu o lançamento de No Straight Lines – Four Decades of Queer Comics, que aborda os trabalhos de Bechdel e König, entre muitos outros que trouxeram às páginas aquilo que se vê no mundo real: a existência de gays do sexo masculino, lésbicas e trangêneros e sua luta para conseguirem seus direitos.
 
 
 
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