Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 13.02.2014 13.02.2014

Dave Van Ronk, a inspiração por trás do novo filme dos irmãos Coen

Por Andréia Martins
 
“Vamos supor que Dave Van Ronk apanhasse na Gerde’s Folk City. Esse é o início de um filme”. A ideia lançada por Joel Coen ao irmão, no escritório da dupla, demorou, mas ganhou forma. A vida e obra do cantor de folk e blues deu aos irmãos Coen a inspiração para rodar Inside Llewyn Davis – Balada de Um Homem Comum, uma homenagem ao folk dos anos 1960 e seu principal expoente, Van Ronk.
O filme que estreia no Brasil sexta-feira, 21, traz no elenco Oscar Isaac (Llewyn Davis), Carey Mulligan, John Goodman, Justin Timberake, entre outros, e mostra uma semana na vida de Llewyn, um cantor de folk que tenta viver de música na Nova York dos anos 1960, passando noites em sofás, trens e bares em busca de uma audição, apesar do inverno rigoroso.
“Há seis anos os direitos de adaptação do livro de memórias de Van Ronk foram comprados. Não sabíamos por quem, achei que era alguma emissora de televisão. Descobri há pouco tempo, quando o filme foi anunciado, que foram os irmãos Coen”, comenta Elijah Wald em entrevista ao SaraivaConteúdo.
Amigo de longa data de Dave Van Ronk (1936-2002), Wald foi coautor do livro memórias do cantor, The Mayor of Macdougal Street, publicado em 2006 e que serviu de base para os irmãos Coen recriarem o ambiente de Greenwich Village, em Nova York (EUA), em 1961, ano em que a produção se passa e antes de o bairro se tornar um celeiro musical.
Assista ao trailer do filme
 
 
Nascido em Nova York, Van Ronk mudou-se ainda adolescente para Village, de onde nunca mais saiu. Lá, tornou-se ícone do folk e referência daqueles que mais tarde seriam mundialmente conhecidos, como Bob Dylan, Joan Baez, Joni Mitchell, entre outros. Dylan chegou a dizer que “queria ser tão grande quanto ele”, mas o fato é que Van Ronk nunca conseguiu, fora dali, a popularidade dos que chegaram ao bairro depois dele. Teve três “casamentos” e não ousou se afastar da região por longos períodos até o final de sua vida.
Mesmo não se tratando de uma biografia, e sim de uma ficção, algumas passagens do longa realmente aconteceram com Van Ronk, como a ida a Chicago para uma audição que não dá resultado no The Gate of Horn (o disco que Llewyn leva à audição traz a mesma capa e nome de Inside Dave Van Ronk, gravado em 1964); a recusa de se juntar ao trio Peter, Paul e Mary; e a cena em que recebe um casaco de frio emprestado do dono da gravadora. Além disso, ambos tinham amigos cantores que serviam ao Exército – no caso de Van Ronk, Tom Paxton – e eram de famílias da classe trabalhadora. Mas as semelhanças terminam por aí.
 
Capa do disco de Van Ronk e o personagem Llewyn Davis, vivido pelo ator Oscar Isaac

“O personagem de Llewyn, em si, não tem nada a ver com Dave. Ele era mais parte da ‘galera’, era um sujeito muito educado que conversava sobre tudo. Llewyn é muito ‘ele e a música dele’”, comenta Wald, que elogia a trilha sonora da obra.

Para ele, “o filme conseguiu recriar uma sonoridade parecida com a música daquela época”.
Nas interpretações e composições, a trilha reúne referências do folk como Bob Dylan, Tom Paxton, Nancy Blake – contemporâneos de Dave – e o próprio Van Ronk, na faixa “Green Green Rocky Road”, e os influenciados pelo folk, como Marcus Mumford, da banda Mumfords & Sons, além de contar com Timberlake e Oscar Isaac. O filme rendeu ao cantor pop e Marcus sua primeira parceria, a música “The Auld Triangle”.
Talvez o que mais aproxime o personagem fictício Llewyn Davis de Van Ronk seja o fato de ambos manterem um respeito pela autêntica música folk – no filme, Llewyn é alvo de piadas sobre manter-se fiel ao gênero – e pela tradição oral. E mesmo não conseguindo sobreviver com a música, nenhum dos dois parou de tentar – embora Llewyn seja mais azarado: ele engravida uma amiga após uma transa, perde o gato do vizinho, o amigo com quem cantava morre e ele sempre precisa de um lugar para dormir.
 
Dave Van Ronk
Cena de Inside Llewyn Davis

Com a produção, Wald diz que o interesse na obra de Van Ronk aumentou. “Discos estão sendo disponibilizados, e o livro já ganhou novas traduções”. O que ainda ninguém consegue entender é por que Van Ronk vendeu muito pouco se comparado aos artistas que influenciou. E não foram poucos discos. Do primeiro álbum solo, Dave Van Ronk Sings Earthy Ballads and Blues, em 1959, ao último gravado em vida, Sweet & Lowdown (2001), foram mais de 15 trabalhos, sendo três póstumos. Falta de sorte ou desapego da fama? Para Wald, nenhuma das duas opções.

“É claro que ele queria ser famoso, ter dinheiro para conseguir viver. E ele nunca conseguiu fazer isso na música, que era tudo para ele. Ele tentou introduzir mais rock, por exemplo, mas não deu certo. E aquela cena folk era para garotos. No Brasil, por exemplo, Caetano Veloso é um artista visto como intelectual, que os intelectuais gostam porque acham que ele é um deles. Com Bob Dylan foi assim: ele era um garoto, fazia parte do grupo, fazia mais sucesso. Van Ronk era um cara alto, barbudo, de voz rouca”.
Certa vez, numa tentativa de ajudar Van Ronk, Bob Dylan, já famoso, chegou a propor que Dave desistisse do blues. "Faça isso e eu produzirei seu próximo álbum, você pode ganhar uma fortuna", disse ao colega, sem se lembrar de que, por mais que fosse um ótimo músico, Van Ronk não tinha sorte para gravar ou vender discos. A resposta de Van Ronk foi direta: "Dylan, se você é tão rico, como é que não é inteligente?". Nem sempre se pode ter tudo.
 
Pôster do filme
 
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