Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 14.03.2012 14.03.2012

Das páginas para os palcos: A poesia invade o teatro

Por Felipe Candido

No dia 14 de março é comemorado o dia da Poesia. Nesse mesmo mês, no dia 27, outra arte é celebrada: O Teatro. Apesar de duas artes aparentemente distintas, elas são mais próximas do que se pode imaginar.
Entre caminhos, apresentações, rimas, métricas, cenas e outros elementos, a poesia e o teatro se relacionam desde os primórdios de ambas as manifestações artísticas.
 
No principio
 
O teatro, como o conhecemos hoje, nasceu com finalidade didática e religiosa, para transmitir ensinamentos de moral e conduta a quem o assistia.
 
“O teatro tem uma relação muito próxima com a poesia. No nascedouro do teatro ocidental, com o teatro grego, os registros documentados que temos de dramaturgia são em versos, seguindo inclusive um esquema rígido de métrica na sua escrita. As grandes epopeias, como a Ilíada e a Odisseia, são formadas por histórias que eram divulgadas oralmente, pelos chamados "aedos", que as declamavam em praça pública. Então, no início, a poesia era uma coisa para ser falada, cantada, não existia essa relação exclusiva da leitura. E isso continuou ainda durante a idade média, com os menestréis”, afirma Bruno Gavranic, ator, dramaturgo e diretor teatral.
Com esse principio interligado, teatro e poesia caminharam juntos ao longo da história e geraram grandes obras celebradas, encenadas e recitadas até hoje.
Com o passar dos anos e a separação dessas duas expressões artísticas, muitos autores e diretores voltaram a uni-las em espetáculos que têm textos literários como base.
 
Teatro e Poesia pelo mundo
 
Grandes autores teatrais encontraram na fonte poética inspiração para a criação de seus textos teatrais.
O maior clássico de William Shakespeare, Romeu e Julieta, seria baseado em um poema do autor inglês Arthur Brooke, publicado em 1562 e, ao chegar aos palcos, acabou recebendo outros personagens e tramas, que a consolidariam como uma das peças mais importantes da história do teatro.
Considerado por muitos o maior poema da língua portuguesa, Os Lusíadas, de Luis de Camões, também ganhou versões teatrais em diversas épocas da história, tanto em Portugal quanto no Brasil, levando para a cena a saga dos nobres marujos portugueses.
Grandes poetas da história da literatura mundial tiveram seus textos levados à cena por diretores, seus conterrâneos ou não, como é o caso de Dante Alighieri, Oscar Wilde (que também era autor de peças teatrais) e muitos outros. 
William Shakespeare
 
No Brasil
 
No Brasil, em 1965, um dos poemas mais importantes de nossa poesia tornou-se a base para um espetáculo que marcou a história do teatro brasileiro.
 
A pedido do escritor Roberto Freire, o então jovem músico Chico Buarque de Holanda musicou os versos de Morte e Vida Severina, de João Cabral de Mello, publicado em 1956, para a montagem do espetáculo de mesmo nome realizada pelo TUCA (Teatro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), que se tornou rapidamente um grande sucesso de público e crítica. A partir de então, a obra de Cabral de Mello Neto tem sido constantemente vista pelos palcos Brasil afora.
Além de João Cabral e o estrondoso sucesso de “Morte e Vida Severina”, muitos outros poetas foram e ainda são levados à magia dos palcos, mostrando que mesmo na atualidade teatro e poesia podem ser celebrados conjuntamente.
 
O caminho entre as rimas e as cenas
 
Mas como é o trabalho de transposição do texto literário para cena? Para tentar responder a essa pergunta, nada melhor do que a palavra de quem entende do assunto: “Como prender o espectador numa colagem? Como ter o conflito sem a história? O que criar trazendo à tona os poemas? A única ligação é o criador da obra, o poeta. Então, buscamos o poeta não na biografia, mas no mergulho em sua obra, extraindo dela a personagem, a “essência” do poeta, o verdadeiro Drummond”, conta Benê Silva, autor do espetáculo “Drummond”, que celebra Carlos Drummond de Andrade através de sua obra.
 
“No roteiro, os versos funcionam como filamentos da alma desta personagem. Independente da cronologia da criação ou da publicação, eles são interligados”.
Para Benê, a escolha de Drummond foi natural e cheia de lembranças afetivas. Da infância, com o som da voz da sua irmã recitando os versos do poeta mineiro, até a proximidade com o autor e seus comentários.
 
“Trago à cena um Drummond que conheci, que virou alguém próximo e a quem telefonava contando de cada progresso do roteiro, que ria, discutia, questionava, mas que se divertia e me divertia muito. Ele tinha um pouco de Vinícius de Moraes também. E é um prazer apresentar esse Drummond ao público”.

Outro poeta que chegará em breve aos palcos é Manoel de Barros, que será conduzido a esse novo universo pelas mãos dos atores Fabiano Benigno, Liliana Junqueira, Vinícius Meloni e Bruno Gavranic, no espetáculo Para Desaprender as Coisas.
Manoel também será lembrado pela infância, mas através do olhar. “A escolha de Manoel se deu pela possibilidade de trabalhar a palavra em seu nascedouro, a palavra como base e princípio da criação. É uma poesia que trabalha com esse princípio. Constantemente é evocado o olhar da criança, não como fim, uma poesia para crianças, mas como meio de se escrever a poesia, o momento na infância quando o mundo e as coisas são descobertos e começam a surgir as primeiras tentativas de fala, de expressão, quando ocorre esse alumbramento com a fala”, afirma Gavranic, que, além de dirigir, também assinará o texto do espetáculo.
 
Para finalizar, Bruno Gavranic resume a estreita relação entre a poesia e o teatro. 
Bruno Gavranic
“A poesia é uma obra aberta por excelência; mais do que outras, ela exige o olhar e a voz do leitor para se completar. É um campo de pesquisa para a construção do trabalho do ator, da cena, muito rico e muito fértil. É só aceitarmos o desafio e nos lançarmos sem boia, que o resultado será agradável aos ouvidos e aos olhos”.
 
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