Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo HQ 29.11.2011 29.11.2011

Danilo Beyruth faz viagem de volta ao mundo dos mortos

Por Rafael Roncato
Ilustração de Danilo Beyruth
Quando os mortos ainda possuem pendências mundanas, nem todos conseguem simplesmente caminhar com as próprias pernas para a luz e alcançar o descanso eterno. Para isso, as almas penadas, assombrações ou qualquer que seja a maneira que são chamados, contam com um empurrãozinho do "salva-vidas dos mortos” e seu moderno uniforme de super-herói, o Necronauta.
Necronauta Volume II – O Almanaque dos Mortos, lançado pela Zarabatana Books, é o mais recente trabalho do quadrinista Danilo Beyruth, que decidiu retornar com o herói do além em seis histórias inéditas. O livro também conta com passatempos e uma galeria de ilustrações do Necronauta feita por grandes desenhistas brasileiros, como Gustavo Duarte, Joe Prado e Rafael Albuquerque.
Fazendo quadrinhos desde 2007, Danilo começou com o Necronauta de forma independente, que acabou ganhando seu primeiro volume apenas em 2009, quando a editora HQM decidiu reunir as histórias sob o título de Necronauta – O Soldado Assombrado e Outras Histórias.
 
Nesse começo dos quadrinhos, o autor também participou de algumas antologias, como Jesus Hates Zombies, e publicou uma história do Necronauta na Popgun – Volume 3, da editora americana Image Comics.
"Na época, eu ainda estava começando e queria um personagem que funcionasse em histórias curtas, pois não me achava ainda capaz de trabalhar roteiros mais longos", explica o autor, que ainda conta como começou com seu herói improvável: "A primeira coisa que surgiu foi o próprio nome. A partir dele, comecei a imaginar o resto do seu universo. O lance místico e do horror me deixava desenhar quase qualquer coisa, e isso foi outro atrativo".
Acreditando que o personagem merecia uma continuidade, além de novas abordagens, Danilo decidiu voltar com o projeto: "É importante manter ele à vista do público". "Para o segundo volume, passei muito tempo pensando em histórias que podiam ficar boas e selecionei as melhores. De cara, sabia que tinha de ter dois tipos de história, as que se concentram nas motivações dos fantasmas e as que revelam novas facetas do mundo do Necronauta".
 
Bando de Dois, trabalho premiado de Beyruth
Em 2011, o quadrinista não poderia estar mais feliz e motivado. Danilo recebeu, por sua primeira graphic novel, Bando de Dois, o Prêmio Ângelo Agostini de Melhor Lançamento de 2010, e também levou o Troféu HQMix 2011 nas categorias Melhor Edição Especial Nacional, Melhor Desenhista Nacional e Melhor Roteirista Nacional. "Eu sabia que o material era bom, que tinha qualidade, mas não esperava toda essa repercussão. Estou muito feliz com tudo que tem acontecido".
 
 
Quando começou sua relação com os quadrinhos?
 
Danilo Beyruth. Acho que o gosto por desenho vem desde cedo. Eu sempre gostei, e sempre soube que trabalharia com alguma coisa ligada a isso. Animação, ilustração, artes plásticas, quadrinhos, eu não sabia o que, mas sabia que iria desenhar. Terminando o colegial, fui parar numa agência de publicidade. Naquela época, o computador ainda estava sendo introduzido nas agências, e muita gente lá dentro sabia desenhar. Ainda mais na agência em que eu estava, a DPZ. Hoje em dia não é mais assim, com o computador você consegue se virar.Depois de sair de agência, montei, junto com outros três colegas, um estúdio de ilustração voltado para o mercado publicitário, a Macacolândia. Desde então, trabalho com publicidade e, no meu tempo livre, faço HQ, sendo que os quadrinhos têm cada vez mais invadido o espaço da ilustração.
Fiz uma HQ chamada Evil King, que nunca publiquei, mas que quero um dia retomar. Meu primeiro trabalho oficial foram o fanzines do Necronauta mesmo. Leio HQ desde pequeno, mas só comecei efetivamente a levar a sério a ideia de produzir meu próprio material em 2007. Quadrinhos são a minha paixão, é o trabalho que gosto de fazer. Hoje em dia tenho mais prazer de fazer do que ler quadrinhos.
O que você acha dessa aproximação dos quadrinhos com outras áreas, como a literatura ou o jornalismo, como o caso do Joe Sacco, ou até mesmo o próprio cinema?
Danilo Beyruth. Os quadrinhos têm a possibilidade de pegar muita coisa emprestada da linguagem do cinema e da literatura. Acho que essas aproximações enriquecem mais ainda o "vocabulário" dos quadrinhos e ajudam a tirar o estigma de infantil. E, como no caso do Joe Sacco, os quadrinhos possibilitam a apresentação de um material que, de outra forma, poderia acabar sendo mais pesado e cansativo.
A sua primeira graphic novel, Bando de Dois também conta com referências além dos quadrinhos, não?
Danilo Beyruth. É uma coisa meio complicada de responder, por que eu mesmo não sei te dizer. Tem muito trabalho de pesquisa envolvido, tem muito tempo pensando sobre o assunto e anotando todas as ideias que aparecem, mas não tem um momento onde tudo fica claro e você sabe como a HQ toda vai ser. Ela vai sendo construída aos poucos, e cada HQ tem um processo diferente. No Bando, eu comecei a partir da observação de que o cinema transformou o velho oeste americano numa coisa muito maior do que o fato histórico. Resolvi fazer a mesma coisa com o cangaço. Depois vieram os personagens, depois a trama, e por aí em diante. Realmente é um processo de construção, como um quebra-cabeça, onde você vai imaginando as peças e vendo se elas se encaixam com o que você já tem montado.
 
Como foi passar de histórias curtas, como no caso de Necronauta, para algo mais extenso, como o Bando de Dois? Você sentiu alguma dificuldade ou foi algo natural, uma evolução normal do trabalho?
Danilo Beyruth. Os dois. Tive dificuldade no inicio, mas as histórias curtas já me haviam preparado o suficiente. É mais complicado manter o foco e o fôlego num trabalho maior, mas a linguagem é a mesma.Com as histórias curtas, há a possibilidade de explorar vários temas, rapidamente, sem ter que se prender a um só por um longo período. HQs como o Bando... demandam muito tempo de produção e conviver com um assunto só por um longo período.
Quais são as maiores diferenças que você vê do primeiro para o segundo volume de histórias do Necronauta?
Danilo Beyruth. Acho que amadureci um pouco em cada um dos aspectos, fruto da prática. Trabalhar é a melhor forma de melhorar. Acho também que o segundo volume é bem variado de temas e de "pegadas". Algumas histórias são mais engraçadas, enquanto outras são mais sérias ou ternas.
 
O que podemos esperar de novos projetos?
Danilo Beyruth. Estou trabalhando num dos álbuns da coleção GraphicMSP para o estúdio Maurício de Souza. É uma história com arte e roteiro meus, no meu próprio estilo.
 
 
Recomendamos para você