Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 23.12.2013 23.12.2013

Daniela Mercury conta sua história, seu amor e sua militância em novo livro

Por Marcelo Rafael
 
Elas vêm do mesmo segmento: a comunicação. Adotaram o sobrenome uma da outra, compartilham senhas eletrônicas, o mesmo teto, as mesmas expectativas, os mesmos medos e anseios e a mesma vontade de se colocar no mundo. Agora, Daniela Mercury de Almeida Verçosa e Malu Verçosa de Sá Mercury compartilham também, neste fim de ano, suas vivências por meio do livro Daniela & Malu – Uma História de Amor.
Na obra, ambas convidam os leitores a conhecê-las um pouco mais e a pensar sobre seus conceitos. "Existem milhares de religiões, raças, línguas, culturas e maneiras de pensar, agir e viver, e há quem insista em não compreender e não respeitar", afirma Daniela, que, juntamente com Ricky Martin, foi convidada pela ONU para uma campanha de Direitos Humanos a ser lançada em 2014.
Confira a entrevista que a cantora concedeu ao SaraivaConteúdo.
Qual a importância de um livro como esse para a cultura brasileira, que ainda debate a falta de beijo gay na novela das 21h, por exemplo?
Daniela. Para o comportamento, traz uma espontaneidade, uma naturalidade para quem é gay. Traz mais altivez. Acho que hoje o brasileiro, em geral, mostrou que não é tão conservador assim. O livro tem profundidade, verdade. É o testemunho de duas mulheres. Então, como eu já tinha uma história de relação, de afeto, através da minha arte – [as pessoas] já sabem da minha trajetória, da minha credibilidade –, acredito que isso faça com que as pessoas leiam o livro vendo um depoimento humano, de uma militante social, mulher, mãe, avó, de uma cantora que roda o mundo e que quis dividir um pouco esse olhar e essa compreensão do ser humano.
E como foi coescrever a obra?
Daniela. Eu também escrevo, há muitos anos. Sou compositora e, para mim, o livro tem um sabor de colocar as minhas poesias e alguns textos meus sobre a minha vida, falando um pouco dos Direitos Humanos, de ser vista também por esse lado mais intelectual. É a primeira vez que as pessoas têm um documento meu – algo escrito, não cantado. Nos próximos anos vamos perceber o que aconteceu. Mas foi um ano de tantas respostas da população em relação à nossa atitude de verdade, de dignidade, de liberdade, de amor.
E de onde surgiu a ideia?
Daniela. Quando a Leya [editora] nos convidou para escrever, chegamos a questionar: “Fazemos ou não fazemos? Que sentido tem isso?”. E decidimos fazer, já que ela [Malu] é jornalista e eu sou uma comunicadora, militante social, tenho o costume de lidar com a palavra. Eu disse assim: “Interessante”, e fomos escrevendo. Espontaneamente, intuitivamente. Chegamos a pensar: “Puxa, que exposição! Por que estamos fazendo isso? É difícil escrever uma biografia em vida”. É tão íntimo falar de discussões pessoais nossas, de nossa família. Nossos medos, nossas angústias. É um despojamento, um despir muito grande, um se mostrar que não é nada fácil. Está sendo emocionalmente desafiador até para mim, que estou um pouco protegida pelas metáforas, pelos dois, três metros de palco, pelas televisões. Estou sempre, de alguma forma, um pouco distante do olhar direto.
O livro é um ato político?
Daniela. É um ato político tanto quanto foi [a divulgação da foto no] Instagram, porque é óbvio que nós sabíamos que não era comum. A gente sabia que nenhum grande artista do Brasil tinha falado dessa maneira sobre suas relações e apresentado alguém. Talvez eu seja uma artista da festa, de grande público, de shows vibrantes, de Carnaval, sou mais leonina, então eu gritei um pouco mais o meu amor. E, no momento, coincidiu com aquele contexto: ir contra toda aquela ação retrógrada e agressiva de incitação ao ódio que vinha do deputado [Marcos Feliciano, que deixa a presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara neste mês] e dos que o apoiavam. Era uma comunicação que precisava ser feita. O livro vem a ser como se eu pudesse explicar naquela foto um pouco por que a gente estava junta e ajudar as pessoas também a ficarem mais tranquilas com suas relações. A gente sabe que isso está inspirando o amor, não só de pessoas do mesmo sexo.
Vocês acham que a obra ajuda a fazer pensar sobre o tema LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros)?
Daniela. A gente viu que [o livro] tocou as pessoas em geral e as fez repensar seus conceitos, seus "pré-conceitos". Eu podia ter cantado "O amor de Julieta e Romeu, igualzinho o meu e o seu", né? Os amores impossíveis. As pessoas viram que era sincero. Um amigo nosso, pouco acostumado a conviver com casais do mesmo sexo e a tratar disso com tanta clareza, disse que viu minha entrevista no Jô [Soares]. Ele é empresário. Disse: "Puxa, eu estou tão transformado. Vocês viraram meu mundo pelo avesso". Ele não é gay. Um monte de gente está falando isso. Sabe o que é encontrar gente na rua, de todas as idades, e eles dizerem "Poxa que legal!"?
 
Capa do livro com as fotos da divulgação do noivado no Instagram
 
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