Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 24.07.2014 24.07.2014

Da tradição oral aos livros: as histórias por trás da lenda de Robin Hood

Por Maria Fernanda Moraes
 
A história do personagem fora da lei que rouba dos ricos para dar aos pobres já é bem conhecida, teve diversas versões literárias, virou revistas em quadrinhos, séries de televisão, videogames e teve algumas adaptações marcantes no cinema. Todo mundo tem algum Robin Hood que ficou marcado na memória: Sean Connery, do filme de 1976; Kevin Costner, no clássico de 1991; ou ainda Russel Crowe, no filme mais recente, de 2010.
 
Entre os livros, a diversidade também é grande. Mas a versão mais conhecida é a de Alexandre Dumas, que lançou dois volumes: Robin Hood, o Príncipe dos Ladrões (de 1872) e Robin Hood, o Proscrito (de 1873).
 
Para alegria dos fãs do personagem e para os curiosos com a relação entre a lenda mantida pela tradição oral e a história que foi passada para os livros, acaba de ser lançada a obra As Aventuras de Robin Hood (Editora Zahar), uma edição especial que reúne pela primeira vez os dois volumes de Dumas. O primeiro, O Príncipe dos Ladrões, acompanha a gênese do personagem, desde a sua adoção, recém-nascido, até a proscrição e o estabelecimento na floresta, assumindo-se como fora da lei. O segundo, O Proscrito, apresenta a sequência de suas aventuras, até a velhice e a morte.
 
Além da tradução atualizada feita por Jorge Bastos (a última versão do romance em português datava de 1954), a edição traz ainda uma apresentação, bem como notas e comentários do próprio tradutor que ajudam a compreender melhor como a história foi contada e escrita com o passar dos anos. Separamos algumas curiosidades levantadas pelo tradutor, acompanhe:
 
CONTEXTO HISTÓRICO
Segundo Jorge, no prefácio da primeira edição de Robin Hood, o próprio Alexandre Dumas fala que esse é um personagem histórico, mas “sem a menor prova material de autenticidade”. No romance, uma ambiguidade essencial fica clara: o bandido é o mocinho. Tem-se, então, os saxões de um lado e os normandos usurpadores de outro, em disputa na grande ilha britânica.
 
Floresta de Sherwood, em Nottingham, Inglaterra
 
Jorge também relata que a trama de Robin Hood abrange um período de mais ou menos 60 anos, indo, grosso modo, de 1160 a 1220, quando a Inglaterra vivia sob o reinado de Henrique II, Ricardo Coração de Leão e João Sem Terra, da dinastia Plantageneta. No decorrer do romance, entretanto, há pequenos anacronismos e imprecisões de datas, assinalados pelo tradutor.
 
SOBRE OS PERSONAGENS
 
ROBIN E MARIAN: o tradutor ressalta em seu prefácio que, dos vários personagens do romance, o par romântico é igualmente antigo e vinha de uma tradição independente. Com o tempo, o casal passou por uma espécie de evolução enobrecedora, já que no início ambos vinham de camadas menos privilegiadas: há versões dos dois encontrando-se em festas paroquiais, e ela às vezes era apresentada como dançarina mas, posteriormente, adquiriu uma ascendência senhorial.
 
ROBIN: foi aos 16 anos que começaram as aventuras pelas quais ficou famoso. Já era um espantoso arqueiro e sabia se defender com o cajado e a espada. Segundo Jorge, uma das características guardadas pelas indeterminações de adolescente foi a jovial irresponsabilidade de Robin, que o fazia comprar brigas desnecessárias contra adversários aparentemente mais avantajados. Essa foi, porém, a maneira com a qual atraiu os melhores elementos para seu bando.
 
OS ALEGRES HOMENS DA FLORESTA: era como o bando de Robin era conhecido por seus simpatizantes dos condados de Nottingham e York, e isso se deve ao espírito cordial e cavalheiresco com que o jovem chefe (quando se estabeleceu em Sherwood, tinha cerca de 20 anos) impregnou todo o grupo, esclarece Jorge. O tradutor também deixa claro que ninguém naquela comunidade fora da lei tinha vocação para a maldade ou para o delito: eram todos bons saxões, cristãos, ali agrupados por vacilações da sorte.
 
WILL ESCARLATE E MUCH (O FILHO DO MOLEIRO): são também dois personagens que vêm do mesmo suporte inicial de fixação da lenda – as antigas baladas populares, muito presentes no romance.
 
Em 2010, a bandeira de Nottingham ganhou a imagem de Robin Hood
 
TUCK E JOÃO PEQUENO: Jorge conta que o primeiro, monge beneditino que acaba se tornando clérigo residente do bando da floresta, é falastrão, mulherengo/misógino, beberrão e briguento, sem nem por isso deixar de ser bom religioso. O segundo, laico, é seu oposto: ingênuo, meigo, abstêmio (o único no romance). Arraigadamente bom, João Pequeno vem a ser o mais fiel entusiasta do líder, sua sombra admiradora e primeiro lugar-tenente no comando dos alegres homens da floresta.
 
ROBIN ENCAPUZADO X ROBIN DOS BOSQUES
Um dos pontos interessantes levantados por Jorge no prefácio da obra é em relação ao arquétipo do bom bandido da floresta, que o historiador marxista Rodney Hilton tornou símbolo nos anos 1960. O tradutor conta que esse paradigma já era antigo na tradição camponesa britânica.
 
Ele diz que, como prova disso, a filologia erudita, através de toda uma ginástica que passa pelos dialetos gaulês e bretão, remete a palavra hood a “bosque”; porém, salta de forma gritante aos olhos o fato de que o próprio nome Robin Hood significaria literalmente “Robin Encapuzado”, e não “Robin dos Bosques”   forma como a paronímia entre hood e wood foi frequentemente traduzida, sobretudo em adaptações infantis da lenda.
 
O tradutor lembra também que foram localizadas referências a certo Robinhood ou Robunhood, preso em 1228 por não pagamento de uma dívida. As menções em registros cartoriais a partir dessa data se tornam relativamente frequentes no norte da Inglaterra, mostrando que por essa época o nome já se tornara usual, pelo menos entre os desvalidos, conforme ressalta o prefácio.
 
Há várias atrações turísticas hoje em dia no condado
 
NOTTINGHAM: PONTO TURÍSTICO
Em 2010, o Condado inglês de Nottingham, onde se passa a história, inseriu a silhueta de Robin Hood em sua bandeira, confirmando-o como o maior atrativo turístico da região: o castelo de Nottingham foi transformado em museu e ostenta uma estátua do personagem em sua entrada. Também é possível fazer uma visita à caverna onde moraram os alegres homens da floresta, que foi localizada entre outras 450, a partir da iniciativa de uma universidade local, com um levantamento das grutas de Sherwood, escaneadas a laser 3D.
 
A floresta, na época da história, ocupava uma área de cerca de 40.500 hectares, estendendo-se por quase todo o lado ocidental do condado. Hoje, não passa de 180 hectares, que foram declarados de interesse científico em meados do século 20 e reserva natural em 2002.
 

Em Sherwood, é possível também conhecer o multicentenário carvalho Major Oak, sob o qual o grupo se reunia. E as referências hoodianas não param por aí: todo ano acontece um festival regional no qual são realizados grandes eventos medievais. Mais informações no site.

 
A nova edição traz um prefácio e notas do tradutor que ajudam a entender a histórias
 
 
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