Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo HQ 21.03.2014 21.03.2014

Da Corte à Mônica e Disney Brasil: 145 anos de histórias que estão no gibi

Por Marcelo Rafael
Em 2014, o quadrinho nacional completou 145 anos de existência, segundo data firmada pela Associação dos Quadrinhistas e Caricaturistas do Estado de SP. As Aventuras de Nhô Quim ou Impressões de uma Viagem à Corte, de Angelo Agostini, publicada em 30 de janeiro de 1869, no jornal Vida Fluminense, é considerada a 1ª HQ nacional pela Associação. E, de lá para cá, o mercado nacional se agigantou.
Apesar de ter começado com histórias voltadas para adultos, retratando o cotidiano da corte imperial brasileira, o quadrinho nacional se consolidou entre as crianças. Tanto que um dos sinônimos de “revistinha” é “gibi”.
Gibi era o título de uma revista publicada pela editora Globo. A palavra significa “negrinho” e dizia respeito ao menino presente no topo de cada capa. A 1ª edição de Gibi foi publicada há exatos 75 anos, em abril de 1939.
Em 1950, surgiu O Pato Donald nº 1, com mais de 80 mil exemplares. Em 1970, houve um salto: Mônica nº 1 teve 200 mil exemplares.
A Turma da Mônica Clássica, infantil, foi e continua sendo uma grande geradora casual de leitores. Entre outros motivos, isso levou Mônica a ser nomeada, em 2007, a primeira e única personagem embaixadora do UNICEF, o Fundo das Nações Unidas para a Infância.
“O gibi é a cartilha informal que as crianças têm fora da escola”, afirma Mauricio de Sousa, criador da personagem. Para ele, esse foi um grande trunfo inesperado. “Não estava programado. Isso foi acontecendo e, de repente, a gente se deu conta de que somos educadores, ensinamos a ler. A criançada gosta, continua lendo, depois vai para livro”, afirma.
Paulo Maffia, editor infantojuvenil e responsável pela publicação da Disney no Brasil, reconhece a importância. “Os dois maiores vendedores (de gibis), que são o Mauricio e a Disney, são gibis baratos porque a gente forma leitor”, diz.
Napoleão Figueiredo é um dos artistas da Disney Brasil. Ele desenhou a capa do espacial do Urtigão, que foi finalizada por seu filho, Fábio Figueiredo, editor de arte dos gibis Disney aqui

Em 1980, o Brasil se destacou como o país que mais produzia histórias Disney, segundo Maffia. Muita coisa surgiu no País, e não foi ao redor do Zé Carioca. Alguns personagens “nasceram” aqui, como Morcego Vermelho, a identidade secreta do Peninha, criado há 40 anos; Biquinho, irmão do Peninha; e Afonsinho.

Em outros casos, personagens criados lá fora ganharam formatação própria aqui, como Urtigão, que este ano completa 50 anos. “O Mauricio de Sousa havia saído da Abril, e (a editora) precisava de uma revista para espelhar o Chico Bento. Urtigão vem pro Brasil, ganha todo um universo, uma casa, uma companheira e vira sucesso”, diz Maffia.
O mesmo se deu com Margarida, nos anos 1990. “As histórias produzidas no Brasil até hoje são consideradas à frente do tempo. Margarida ali é uma mulher independente, que vai trabalhar no jornal do Tio Patinhas, tem atitude”, conta o editor infantojuvenil.
Ele acredita que essa molecada que começa lendo revistinha alavanca o mercado nacional. O mesmo não acontece nos EUA. “Eles mataram o gibi infantil. Disney não é publicada nos EUA, hoje, em quadrinhos. Assim, não entra leitor. (No Brasil), começa-se lendo gibi do Pato Donald, da Mônica, depois parte-se para um super-herói, para uma coisa mais ‘cabeça’, mais adulta. Se você corta a porta de entrada (o infantil), o cara não tem como entrar”, analisa.
De olho nesse salto da molecada do infantil para outra literatura, Mauricio lançou, em 2008, a Turma da Mônica Jovem (TMJ), voltada a adolescentes. O sucesso foi tão grande que os números superam as vendagens de gibis norte-americanos.
Em 2011, a DC Comics anunciou que a HQ Justice League (Liga da Justiça) nº 1 foi a mais vendida do ano, com cerca de 200 mil exemplares. Isso foi desmentido pelo site Bleeding Cool, que noticiou que a TMJ, com mais de 400 mil exemplares, era o verdadeiro quadrinho americano (considerando todas as Américas) mais vendido.
A revistinha que virou sinônimo de História em Quadrinhos
A editora Abril nasceu com um gibi. O nº 1 de O Pato Donald, em julho de 1950
“Os números são acachapantes. Conforme a capa, conforme o tema, a revista pula (em tiragem) e aí precisa ser reimpressa uma, duas, três vezes”, afirma Mauricio, que diz que a tiragem do beijo da Mônica e Cebolinha assustou todo mundo.
“Eu sabia que ia vender, eu avisei a editora (Panini), que acho que fez uns 300 mil exemplares, o que é um grande número em qualquer lugar do mundo. Mas não deu. Nem pro cheiro. Precisamos fazer 500 mil e depois ainda reimprimir. Aí, foi para quase 600 mil exemplares. Em seguida, teve o casamento – meio de ‘mentirinha’, mas teve – e foi mais do que a edição do beijo”, diz.
Em 2012, o gibi mais vendido nos EUA, segundo dados da distribuidora Diamond, foi Walking Dead nº 100, com mais de 320 mil exemplares. A tiragem do nº 50 daTMJ, no mesmo ano, atingiu quase 600 mil, estampando uma cena de casamento entre a dentuça e Cebolinha.
Além da Panini, outras 18 editoras publicam Turma da Mônica, e os personagens estão presentes em 50 países, inclusive no Japão. “Hoje a revista TMJ é a mais vendida no Ocidente. A gente só perde para algumas revistas japonesas”, diz Mauricio, que afirma abocanhar 85% do mercado de quadrinhos nacional.
A MSP também se prepara para expandir seu universo adulto com as narrativas para esse público, no selo Graphic MSP. Visando os colecionadores, a Disney iniciou, este ano, pela primeira vez, o lançamento de álbuns encadernados de capa dura.
Dos anos 2000 para cá, um número cada vez maior de editoras tem lançado álbuns voltados ao público adulto, com temática variada: Panini, com o romântico Valente; Balão Editorial, com as crônicas românticas gays Ciranda da Solidão; e Cia. das Letras e Nemo, com As Barbas do Imperador e Estórias Gerais, respectivamente, entre tantas outras.
Artistas nacionais também têm ganhado prêmios no exterior com HQs adultas, como Rafael Grampá e os gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá.
“Acho que estamos contribuindo com leitura, informação, divertimento, entretenimento e, logicamente, estamos dando trabalho para muita gente nas bancas, nas gráficas, aqui nos estúdios e no merchandising/licenciamento”, finaliza o empresário Mauricio, que arremata: “História em quadrinho também é um bom negócio”.
Novos títulos da linha adulta da Turma da Mônica
Recomendamos para você