Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 19.12.2011 19.12.2011

Cultuado pelos jovens, ‘Tchick’ é “road book” alemão que resgata o espírito aventureiro de ‘On the Road’ e ‘O Apanhador no Campo de Centeio’

 
Por Zaqueu Fogaça
O autor de Tchick, Wolfgang Herrndorf
 
Os anseios existenciais e o despertar do espírito aventureiro da juventude têm sido temas recorrentes na literatura mundial, mas enganam-se aqueles que pensam que essas obras ficam restritas aos leitores adolescentes.
 
 
Prova disso são obras consagradas como O Apanhador no Campo de Centeio, de J. D. Salinger, On the Road, de Jack Kerouac, entre tantas outras que se tornaram clássicos da literatura e continuam alimentando debates entre os leitores, dos mais jovens aos mais veteranos no assunto.
 
Agora, outro livro se junta a esse seleto grupo de “road books” que conseguiram pontuar com extrema fidelidade os desejos e sonhos da juventude de suas gerações. Quando foi lançado na Alemanha, Tchick rapidamente tornou-se uma febre entre os jovens.
 
Esse sucesso repentino não se deve somente aos prêmios conquistados pela obra, mas, sobretudo por sua história desconcertante, que, de forma inteligente, consegue construir uma narrativa ágil com altas doses de humor. Assim, o leitor é convidado a embarcar numa viagem pelas estradas inimagináveis da Europa na companhia do nerd Maik Klingenberg e do malandro Tchick.
 
As férias de verão se aproximam e, como nos anos anteriores, Maik não rascunha muitos planos senão ficar em casa sem fazer nada e acordar tarde. Sua mãe interna-se novamente numa clínica de desintoxicação enquanto o pai resolve fazer mais uma de suas viagens a negócios, acompanhado de sua secretária de apenas 19 anos.
 
Tudo parece correr sem grandes novidades, até que o projeto de férias de Maik se esvai com a chegada de um novo aluno no colégio, Tchick, um jovem rebelde descendente de russos, cuja sabedoria consiste em chegar embriagado em todas as aulas.
 
Maik é um nerd e, como a maioria dos nerds, não é nem um pouco popular entre os colegas de classe, mas sua vida sem emoção é abandonada, assim como seus desencantos amorosos, para embarcar numa jornada tanto existencial quanto territorial, na qual descobrirá um mundo à parte do qual vive, experimentando pela primeira o verdadeiro sentimento de liberdade.
 
Embalado pelo som do piano de uma fita cassete e deslumbrado pelas paisagens que se formam diante de seus olhos ao longo da estrada, Maik se vê a bordo de um velho Lada roubado por Tchick, cortando os campos e gramados numa viagem sem destino certo, mas carregada de grandes emoções e descobertas.
 
 
A narrativa em primeira pessoa confere à obra uma proximidade maior com o leitor e, assim como ocorre em O Apanhador no Campo de Centeio, a descrição em forma de diário cede espaço para inserções de pensamentos fragmentados do protagonista, injetando realismo e humor à história.
 
No entanto, enquanto Maik é um nerd com uma vida sem grandes emoções, Holden, protagonista da obra de Salinger, resguarda um temperamento tempestuoso, transgressor e inconformado com a mesmice dos outros, entregando-se aos prazeres da noite, da bebida e do cigarro; sem a ingenuidade característica de Maik.
 
Logo nas primeiras páginas de sua obra, Wolfgang Herrndorf deixa claro que a aventura não termina nada bem, nada que comprometa o restante do livro, que, embora comece pelo final, reserva histórias surpreendentes em sua trama. Com um lirismo narrativo, o livro explora com sensibilidade o despertar da juventude para novos sentimentos, como o valor da amizade.
 
A estrada sempre representou uma via de fuga, o início de uma nova jornada e, conforme o velho Lada avança estrada adentro cortando ruas e campos, fica latente essa sensação de liberdade, é como se revivêssemos uma boa e velha carona que pegamos com Kerouac em seu On the Road, na qual, ao lado de sucessivas gerações, percorremos os Estados Unidos de ponta a ponta na companhia de Sal Paradise e Dean Moriarty, embalados por muitas drogas e ao som do bom e velho jazz.
 
 
 
 
 
 
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