Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 10.02.2011 10.02.2011

Crônicas de um outro Rio de Janeiro

Por Bruno Dorigatti

Ele é autor de “Ala-lá-ô” um dos grandes clássicos do Carnaval carioca de todos os tempos, teve parceiros do gabarito de Noel Rosa, Ary Barroso, Lamartine Babo, Wilson Baptista e Haroldo Lobo. E, como não bastasse, criou o primeiro jingle brasileiro e imortalizou no traço alguns dos principais nomes da nossa cultura na primeira metade do século passado. 

Para Millôr Fernandes, não era apenas um dos nossos maiores caricaturistas, mas um gênio – palavra usada e abusada hoje em dia, mas que, na boca do mestre, merece todo o respeito. Jaguar classifica as caricaturas dele como “logotipos”, pois em poucas linhas ele conseguia exprimir o essencial de nomes como Grande Otelo, Carlos Drummond de Andrade, Orestes Barbosa, Cartola, Manuel Bandeira, Pixinguinha, Mario de Andrade, Martinho da Vila, Tom Jobim, Lupicínio Rodrigues, Caetano. 

Antônio Gabriel Nássara nasceu na Rua Esperança, no bairro de São Cristóvão, em 1909, mas foi nas suas andanças entre Vila Isabel – onde foi vizinho de Noel – e o centro da cidade que este descendente de libanês apreendeu a vida carioca e foi dela um de seus maiores cronistas, seja cantando ou desenhando. Para ficarmos novamente com as precisas palavras de Millôr, “de uma certa maneira, o Rio é invenção de Nássara, Orestes [Barbosa] e Noel [Rosa]. Inventores também do papo furado, foram se distraindo e a cidade cresceu em volta deles”. 

Não por coincidência, Carlos Didier dedicou anos de pesquisa, investigando a vida e a obra dos três, o que resultou em excelentes livros. Nássara passado a limpo (José Olympio, 2010) é o mais recente deles. Noel Rosa, uma biografia (UnB, 1990), escrita em parceria com João Máximo é o trabalho mais bem acabado sobre a vida, obra e o tempo do nosso maior cronista, alguém que em apenas 27 anos de vida compôs mais de 300 canções, verdadeiras crônicas do Rio de Janeiro do início do século XX. E Orestes Barbosa: repórter, cronista e poeta (Agir, 2005) é o livro definitivo sobre o autor de “Chão de estrelas” (“Tu pisavas nos astros distraída/ Sem saber que a alegria desta vida/ É a cabrocha, o luar e o violão”). 

As duas carreiras de Nássara, como compositor e caricaturista, se encontram na Escola Nacional de Belas Artes (ENBA), onde cursou arquitetura. Nunca chegou a exercer a profissão, ganhou a vida como paginador e diagramador de jornais, tendo começado em 1929, no diário Crítica, de Mario Rodrigues, pai de Mario Filho e Nelson Rodrigues. Achava ter sido essa a sua “sorte na vida”, já que foi essa fonte de renda que lhe deu oportunidade e espaço para a criação. O Conjunto da ENBA foi o primeiro a tocar suas marchinhas e sambas. Foi neste  ambiente que produziu o que seria o seu primeiro sucesso, “Formosa”, que nasceu como samba, mas virou marchinha a pedido de Francisco Alves que a imortalizou junto com Mário Reis no Carnaval de 1933. O resto é história, narrada em 65 crônicas encadeadas em Nássara passado a limpo, que "registram um momento da cultura brasileira de extrema força, alegria e boemia", como afirmou Didier recentemente em entrevista à Rádio Cultura. Ao todo, Nássara deu mais de 20 depoimentos a Carlos Didier para as biografias de Noel Rosa e Orestes Barbosa e daí surgiu a empatia entre ambos. 

Sobre estes últimos 30 anos que passou pesquisando a vida dos três, Didier diz que valeu a pena. “Este esforço me levou a um conhecimento que normalmente as pessoas não têm. E que era o conhecimento deles, ligado a questão do prazer. Nássara fazia música se divertindo, caminhando na calçada, batendo papo. Não tem nada a ver com aquela atmosfera do gênio, do insight. A coisa acontecia espontaneamente, o que não queria dizer que eles não burilassem. Burilavam, não era só o improviso, não. Mas faziam isso de uma maneira muito simples. Então é uma lição de vida.” 

Apesar de focar mais na obra musical e narrar detalhes de como foram feitas muitas das canções, o livro aborda o talento de Nássara na caricatura, que também já foi tratada em outros livros dedicados a ele, como  Nássarao perfeito fazedor de artes (Relume Dumará, 1999), de Isabel Lustosa, e Nássara desenhista (Funarte, 1985) de Loredano. Como afirma Ruy Castro na orelha do livro, fica faltando uma edição abrangente que reúne tudo o que ele desenhou. Nássara merece.

 

 

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