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Críticos de cinema falam sobre sua relação com a sétima arte

Por Luma Pereira
Na foto ao lado, cena de Excalibur
 
Quando vamos ao cinema, esperamos que o filme escolhido seja no mínimo bom – sentamos em frente à telona e nos deixamos envolver pela história. Mas e quanto aos críticos: conseguem se desprender de seu olhar técnico e serem apenas espectadores?
 
“Ser crítico é ter espírito crítico, é perceber uma questão nos filmes e saber verbalizá-la; mas, quando ele não está trabalhando, nada impede que se divirta mesmo com os piores filmes”, afirma Marcelo Hessel, do site Omelete.
 
Hessel é formado em jornalismo pela faculdade Cásper Líbero e, no terceiro ano da graduação (2001), fez um curso de crítica cinematográfica. Antes disso, já trabalhava em um veículo cobrindo o roteiro cultural da cidade – exposições, filmes e shows.
 
“Até hoje atuo como jornalista, não só como crítico, e a principal lição que aprendi – e uso para tudo – é saber ver e ouvir. Ter atenção, não se distrair, é o fundamental”, diz.
 
Para Celso Sabadin, crítico de cinema e autor do livro Vocês Ainda Não Ouviram Nada: A Barulhenta História do Cinema Mudo (Summus, 2009), é impossível separar o espectador do crítico – ambos fazem parte dele.
 
Conta que, quando vai ver um filme para, depois, escrever uma matéria, sua cabeça é de público – deixa-se envolver pela história. Mas quando vai assistir a uma produção sobre a qual não terá de escrever, sua postura não muda muito.
 
Sabadin recorda de certa vez em que foi assistir A Lista de Schindler (Spielberg, 1993), e depois do filme tinha marcado de jantar com alguns amigos. Ele revela que teve de cancelar com eles, pois não conseguia parar de chorar após a sessão.
“Eu me coloquei na posição do Spielberg – um cineasta que falou ‘pronto, eu fiz o filme da minha vida, contribuí para a história do cinema’ – e fiquei extremamente emocionado com isso”, conta.

Sabadin diz ainda que, ao ver um filme, já vai pensando no texto espontaneamente, pois já está acostumado com isso. “Temos uma função e uma obrigação um pouco mais diferenciada, mas somos espectadores. O crítico não pode se esquecer de que também é público”, diz.
A Lista de Schindler
Decidiu se tornar crítico para unir duas paixões: o cinema e o jornalismo. Foi autodidata no estudo da sétima arte e, em seguida, cursou jornalismo por causa de burocracias que exigiam o diploma para exercer a profissão.
 
Diante da telona
 
“Prefiro, na medida do possível, assistir a um filme sem ter nenhuma noção sobre ele. Nada, nada, nada. Eu vou o mais zerado que puder”, garante Sabadin. Para ele, tanto faz ir sozinho ou acompanhado, mas é importante não ter lido nem a sinopse.
 
Ele repara em elementos básicos do filme: roteiro, direção, atuação, fotografia, trilha sonora. “Na verdade, falando assim parece complicado, mas você acaba vendo essas coisas de uma forma mais automática”, explica.
 
“Mas a questão mais importante é se o filme te emocionou. Não adianta nada ele ser tecnicamente perfeito e estar com a história certinha se não causou emoção. Se não inspirou, é porque alguma coisa não está funcionando”, completa.
 
Certa vez, foi assistir a Indiana Jones: Os Caçadores da Arca Perdida (Spielberg, 1981) – primeiro episódio da franquia – e perdeu a noção do tempo. Quando subiram os créditos finais, ele pensou que só tinham passado 15 minutos.
 
Em outra ocasião, quando viu Excalibur (Boorman, 1981), a sensação foi outra. “Quando saí do filme, me deu um branco, eu não sabia mais onde estava – se em São Paulo, em outra cidade, no século XX, no XXI – foi algo de segundos, mas me lembro de ter parado na porta do cinema e pensando assim ‘onde é que eu estou?’”, conta.
 
Hessel também faz o mesmo, procura não saber nada sobre o filme antes de assisti-lo. Em função do trabalho como crítico, está habituado a ver as produções de manhã e isolado – “acho que é um ambiente que ajuda a manter o foco”, diz.
 
“Embora a experiência coletiva no cinema possa ser transformadora – já peguei sessões lotadas na Mostra que pareciam um transe religioso –, no dia a dia do circuito eu prefiro ver filme sozinho”, comenta.
 
Ele afirma que não existe receita para avaliar um filme. “Alguns críticos escrevem o texto como se fossem jurados de Carnaval, avaliando cada quesito separadamente”, comenta.
 
E completa: “mas não dá pra implicar com uma atuação canastrona, por exemplo, se esse jeito de atuar está na proposta do filme. A análise é uma questão de treino e de atenção”. 
Na sala de cinema, crítico e espectador são a mesma pessoa. Com as influências do olhar profissional ou não, o que acaba chamando mais atenção é se o filme faz perder a noção do tempo e do espaço, e se emociona.
 
 
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