Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 21.07.2009 21.07.2009

Cristovão Tezza rindo à toa

Por Ramon Mello e Bruno Dorigatti

Foto de Tomás Rangel

> Assista à entrevista exclusiva com Cristovão Tezza ao SaraivaConteúdo 

Entre risos e gargalhadas, Cristovão Tezza falou sobre seu ofício literário, que começou nos anos 1980, em Curitiba, cidade que o catarinense de Lages habita desde os 7, 8 anos, quando perdeu o pai. De um mundo de “paisagem do Cebolinha” à uma cidade fria (no clima e nas pessoas), que não tem Carnaval, como ele mesmo define, aos poucos, foi criando relação com ela, se entranhando no seu jeito curitibano. Em 1988, foi publicado Trapo, pela editora Brasiliense, livro que abriu espaço para o escritor e conta com um curioso posfácio de Paulo Leminski, “que praticamente convida o leitor a não ler aquele livro. Felizmente, é no fim, daí você já leu”, como nos conta Tezza nessa conversa.

O escritor ficou conhecido nacionalmente no ano passado, quando O filho eterno (Record, 2007) arrebatou os prêmios mais importantes do país – o Prêmio São Paulo de Literatura, o Portugal Telecom de Literatura, o Jabuti, o Prêmio Bravo!, e o da Associação Paulista dos Críticos de Arte. Desde então, tem tido pouco tempo para se dedicar ao novo romance, que tem o título provisório de Um erro emocional e teve um trecho lido durante a última Festa Literária Internacional de Paraty [veja ao final da entrevista], onde Tezza participou da mesa ao lado do mexicano Mario Bellatin. “Mas eu preciso de tempo para me concentrar, agora no segundo semestre realmente vou conseguir escrever. Faz um ano que estou vivendo só de fama. [risos] Escrever que é bom, nada”, admite.
Recentemente, Tezza viu-se enredado na polêmica questão dos livros indicados a estudantes. A história que começou com um álbum de quadrinhos, indicados para crianças, quando continha conteúdo para adolescentes, por conta do baixo calão e de termos obscenos, seguiu com uma coletânea de poesia e um livro do poeta Manoel de Barros, também com a indicação equivocada de faixa etária. Até aí tudo bem, uma questão de idade, já que crianças não estão em tempo de lidar com certos temas. A coisa modifica-se, porém, quando se trata de adolescentes a partir de 15 anos, que já têm discernimento para lidar com temas e linguagens mais ásperas, digamos. 
 
Foi o que aconteceu com a graphic novel de Will Eisner, Um contrato com Deus e outras histórias de cortiço (Devir, 2007), acusada de apresentar cenas de violência doméstica e insinuações de pedofilia, no áspero e brutal retrato que Eisner faz da Nova York dos anos 1930, na rebarba da crise de 1929, supostamente impróprias para jovens. E com o romance de Tezza, Aventuras provisórias (Record, 2007, 2. ed.), indicado para o vestibular em Santa Catarina, mas considerado por uma auxiliar pedagógica de ter linguagem chula, discurso logo encabeçado por alguns pais de alunos. Em entrevista à Agência Brasil, Tezza disse que “a escola tem muita dificuldade em lidar com literatura, com a vida real da linguagem. O Brasil é um país conservador. O caso de Santa Catarina chamou a atenção porque foi uma reclamação pontual e o estado imediatamente mandou recolher todos os exemplares. Foi uma coisa exagerada. Até porque o livro era para o ensino médio, que tem estudantes acima dos 16 anos. Se podem dirigir ou votar, podem ler também”. O escritor não vê o caso como censura. “São manifestações isoladas de conservadorismo, visões retrógradas da literatura, que pipocam aqui e ali. Não é sistêmico”, acredita. A respeito escreveu a coluna “Não me adotem”, na Gazeta do Povo, de Curitiba, onde colabora toda terça-feira.
A seguir, na entrevista realizada em Paraty, durante a Flip, o escritor fala ainda de outros assuntos, como o seu começo no teatro, como iluminador de Denise Stoklos e depois como ator, a relação com o leitor, que enfim se fez presente para Tezza quando passou a escrever para jornal, e a necessidade de inadequação para se levar a sério neste ofício. 

Curitiba é muito presente nos seus livros. Como é essa relação da cidade na sua literatura?

Cristovão Tezza. Dois motivos: Curitiba é uma cidade bastante diferente no panorama brasileiro. Eu cheguei à cidade em estado de choque porque meu pai tinha morrido – eu tinha sete, oito anos. Saí do mundo da “paisagem do Cebolinha”: aquelas casas na rua e amigos, e de repente fui morar em Curitiba, em 1961. Uma cidade fria, que eu não conhecia ninguém. Então foi um impacto a chegada à Curitiba desde criança. E depois você vai entranhando naquele jeito curitibano, para dar uma definição: uma cidade que não tem Carnaval. [risos] Você vai criando uma certa relação com a cidade. E por ela eu também fui descobrindo um registro da minha literatura. Eu lembro quando escrevi o Trapo, em 82, foi a primeira vez que comecei a usar a cidade como espaço geográfico, como cartografia, dar nome de rua, dar nome de espaço. Era coisa que me intimidava antes, criar esse vínculo com uma microrrealidade. Isso acabou me dando uma dimensão para meu tipo de texto que trabalha com esse registro espacial bastante preciso. E é uma forma de criar uma relação de intimidade entre personagem, autor e leitor com um determinado espaço geográfico concreto. E que não tem importância nenhuma se o leitor conhece ou não o espaço. Mas ele sente essa aura, você está falando de uma atmosfera vivida, intensa.

Sobre essa relação da realidade com a cidade: quando você publicou Trapo (Brasiliense, 1988. 1. ed.; Record, 2008, 7. ed.), o poeta Paulo Leminski se identificou com o personagem Paulo…
 

Tezza. Essa é uma histórica anedótica. [risos] A Brasiliense na época resolveu… Porque levei muito tempo para publicar o Trapo, escrevi em 82 e levou seis anos: foi recusado por editoras, perdeu concurso e tal. Até sair finalmente em 88. Aqueles eram tempos duros para quem escrevia, hoje é mais fácil. Quando o livro saiu, sem nenhum aviso prévio, eu vi lá: posfácio de Paulo Leminski, na capa. 

Na época, você levou quase um mês para ver o livro…
 

Tezza. Exatamente. Havia uma greve de Correios, em julho… Vi primeiro alguma referência no jornal, acho que o Estadão botou que saiu o livro com posfácio de Paulo Leminski. Fiquei curioso: "De onde saiu isso?".

O Leminski falava mal do livro…
 

Tezza. Exatamente. É um caso único na literatura brasileira que se tem um posfácio que praticamente convida o leitor a não ler aquele livro. Felizmente, é no fim, daí você já leu. [risos] Algum tempo depois acabei encontrando o Leminski, com quem eu não tinha propriamente intimidade, vi o Leminski raras vezes na vida. Ele era de outra geração, pertencia a mundos diferentes. E ele confessou, bebendo cerveja: “Eu achava que o Trapo era eu”. [risos] De certa forma, teve uma chave para a leitura. Anos depois, saiu uma edição das cartas do Leminski, muito interessante. Curioso era que as cartas do Trapo tinham relação com o jeito do Leminski escrever, alguns traços estilísticos.

Você o conheceu?
 

Tezza. Conheci duas ou três vezes. Ele era uma referencia obrigatória no final dos anos 70, principalmente em Curitiba. O próprio Leminski pichava os muros, botava assim: “Pau no Leminski”. [risos] Era um performático de alto estilo, Leminski era uma figura engraçada. Lembro que Catatau (Edição do autor, 1976) foi um impacto quando ele publicou. Eu era de uma geração mais nova, mais insipiente também. Eu estava em processo de aprendizagem. Os anos 70 eu acompanhei de longe, nunca fui precoce literariamente. Minha literatura amadureceu mais tarde. Essa é uma história anedótica, não tem importância nenhuma. [risos]

Em 1975 você publicou o seu primeiro livro: Gran Circo das Américas (Brasiliense). Não é isso?
 

Tezza. Isso. Foi um livro que saiu na Coleção Jovens do Mundo Todo. Foi um acidente. O surgimento desse livro foi muito engraçado: eu vivia na comunidade do Wilson Rio Apa, que era um mestre e guru de teatro. Eu escrevia os primeiros contos de A cidade inventada e o Rio Apa disse assim: “Você não sabe escrever diálogo, seus contos não tem diálogos. Você não domina o diálogo!” Eu levei aquilo a serio e escrevi o romance Gran Circo das Américas, é quase inteiro dialogado… [risos] Tem muita conversa, muito teatral. Foi uma coisa que me afinou o ouvido, o teatro me ensinou muita literatura.

Você fez teatro?
 

Tezza. Fiz teatro. Nessa época eu fazia teatro. Primeira atividade minha: fui iluminador de uma peça de Denise Stoklos. [risos] No final dos anos 60, em Curitiba tinha uma efervescência muito boa: o grupo da Denise Stoklos, o diretor Ary Pára-Raios, o próprio Rio Apa com a comunidade de teatro dele… Era uma época de grandes utopias, transformações. Denise até hoje faz o teatro essencial, pelo título é próximo ao imaginário que a gente vivia no final dos anos 60. Rio Apa fazia teatro popular sem texto, teatro de rua. Eram uns lances assim, curiosos.

Como aconteceu a transição do ator para o autor?
 

Tezza. Comecei poeta, como todo mundo escrevendo poesias, imbuído daquele espírito… Nos meus 15, 16 anos eu já trabalhava num escritório, foi o grande erro que cometi em minha vida: aprendi datilografia com os dez dedos. Fui fazer demonstração em casa: “Falem o que vocês querem que eu escrevo com um venda nos olhos”. Minha mãe me pegou pelo braço e me arranjou um emprego no dia seguinte. [risos] Fui trabalhar com um advogado, naquele tempo meio expediente. Trabalhei no escritório do Dr. Blege, no centro de Curitiba, das duas às seis. Era um trabalho leve, batia contratos, não era exploração de trabalho infantil. [risos] Depois acabei me envolvendo com declamações de poesias, encontros poéticos que tinha do DCE. Eu nem era universitário, mas ia ver toda aquela agitação estudantil. Acabei me envolvendo com um grupo de teatro, conheci a Denise Stoklos e depois o Wilson Rio Apa… E pedi demissão e comecei a trabalhar em teatro. Inclusive, escrevi peças de teatro que foram montadas na época. E, paralelamente, mantinha meu projeto literário. Incrível, escrevi três romances entre os 18 e os 22 anos – todos imprestáveis, depois joguei tudo fora. 

Você tem mais de dez romances publicados?
 

Tezza. Publicados, sim. Era uma época de grande densidade. Não tinha muita pressa, era um tempo diferente do tempo de hoje. Não dá para comparar. Era tudo uma coisa de longo prazo, muito introvertida, muito para dentro. Esse livro foi o exercício de diálogo, Gran Circo das Américas, que foi publicado. Para a segunda edição, a editora queria que eu cortasse um parágrafo, o Caio Graco Prado [editor da Brasiliense]. Estavam reclamando de uma cena de um casal se beijando, naqueles anos 70. Eu tive um ataque de fúria e disse que não ia cortar nada no meu livro. E nunca mais teve segunda edição para a felicidade de todo mundo, inclusive dos leitores. [risos] Encerrou minha carreira de autor juvenil. Publiquei depois aqueles contos iniciais e A cidade inventada, escrevi O terrorista lírico, e Ensaio da paixão, que é um livro mais maduro, relançado no final dos anos 90 pela Rocco.

Seu livro último, O filho eterno (Record, 2008), ganhou quase todos os prêmios de 2008. Como é lidar com essa “revelação” a partir de um romance?
 

Tezza. É muito engraçada essa questão da lentidão da literatura. Um livro que me projetou nacionalmente, digamos, foi o Trapo em 88. Teve uma repercussão crítica maravilhosa na época, eu passei a ser uma referência no meio literário. Mas assim, aquela referência difusa. Lá no fundo você sabe que existe um cara em Curitiba que escreve romance. Cada livro você aparece um pouco e depois desaparece por mais dois anos, lança outro livro e tal… O filho eterno realmente foi um estouro, me surpreendeu. Eu sabia que era um livro que ia ter algum impacto pelo tema, mas eu estava me preparando para levar pau da crítica. Achei que eu fosse ser soterrado. Você vê que escritores são seres mesquinhos, pensam logo o pior das pessoas. [risos] E, na verdade, foi um livro muito bem recebido, literariamente inclusive – esse era o temor que eu tive, que não fosse lido como de fato é: registro ficcional sobre dados biográficos meus. E depois, lá fora, começaram a surgir traduções, isso me abriu muito caminho.

Você costuma dizer que é O filho eterno  (Record, 2008) é um livro confessional e não autobiográfico…
 

Tezza. Eu digo que sou um escritor confessional. O único livro que trabalhei biografia é esse. Todos os outros não têm dados biográficos nenhum, mas têm a estrutura de confissão. Quer dizer, textos que se articulam, a apropriação da linguagem narrativa é de alguém que se confessa ao leitor e conta sua história: Juliano Pavollini, Uma noite em Curitiba, Breve espaço entre cor e sombra… O próprio Trapo tem o professor Emanuel, as cartas. Digamos, é um registro literário meu, desse processo confessional, embora não biográfico. Nesse livro [O filho eterno] não, eu juntei as duas coisas. Ele confessionalmente é até mais distante, um livro em terceira pessoa – foi a grande chave técnica do livro porque não me envolvi. A terceira pessoa me deu liberdade para lidar com o narrador. Eu trabalho escancaradamente com dados biográficos: eu tenho um filho com síndrome de Down e esse é o tema central do livro.

Você já está trabalhando no próximo livro?
 

Tezza. Estou, esse livro já está com 30 páginas e vendido para a Record. Na Flip, vou ler um trecho do próximo romance, preferi ler esse livro ao O filho eterno.

Qual o título do novo livro?
 

Tezza. Por enquanto, Um erro emocional – um título provisório, como todos os meus títulos. Mas eu preciso de tempo para me concentrar, agora no segundo semestre realmente vou conseguir escrever. Faz um ano que estou vivendo só de fama. [risos] Escrever que é bom, nada.

Você declarou que escrever crônicas em jornais mudou a sua relação com o leitor…
 

Tezza. É verdade. Aliás, de certa forma, descobri uma coisa que eu como escritor nunca tinha pensado a respeito: existe um sujeito chamado leitor. [risos] Você quando escreve um romance não tem leitor nenhum na cabeça. Meu leitor sou eu mesmo, escrevo o livro que gostaria de ler. É essa relação pessoal com o próprio texto, você não está nem aí para o que o leitor vai dizer. Num texto para jornal – comecei faz um ano que escrevo na Gazeta do Povo, em Curitiba, na página três, toda terça-feira – a figura do leitor aparece brutalmente. O jornal não é um espaço estritamente literário, só seu, é uma sala de visitas dos textos. Você está com um monte de gente, tem uma relação direta com o leitor, que é inescapável. Você não pode dar uma de autista e fingir que não tem ninguém lendo. E a resposta do leitor do jornal é imediata, às sete da manhã você recebe um e-mail comentando ou falando mal ou discordando. O leitor se sente no direito de comentar imediatamente o que se diz no jornal. E o jornal trabalha com o pressuposto da verdade, que é uma coisa interessante, não propriamente o registro ficcional. Mesmo quando você faz um registro de ficção numa crônica, ela é atravessada por essa leitura do leitor. Então, é uma experiência muito interessante. Você pode escrever tudo na crônica até certo ponto, mas não de qualquer modo. Não vai encher um texto de palavra. Aquela liberdade absoluta que se tem na ficção, ela tem restrições num texto de crônica de jornal. É um tipo de pragmatismo de texto, ele está no meio do caminho. Pode usar registro literário eventualmente, mas nunca se entregar totalmente a ele. Pode usar um registro informativo, opinativo. Mas a literatura sempre deixe um pé, um rastro, por marcas de estilo e linguagem. É um exercício interessante, a crônica.

Há diferenças entre o processo de criação de um texto de crônica e um texto de ficção?
 

Tezza. É diferente. Tem um aspecto psicológico, na crônica nunca me entrego completamente por essa objetividade. Ao pensar no leitor eu já estou me limitando, tem quase que uma função didática. Tem uma restrição prática no texto da crônica, ela tem um traço utilitário. E na literatura isso está completamente ausente, não existe. Literatura é uma viagem às cegas num buraco negro que você entra e não sabe como vai sair do outro lado. A crônica não, tem que saber até o número de toques: 2.800. No meu texto ainda tem que ter uma unidade interna, não pode simplesmente começar a escrever e interromper. É muito interessante, o escritor domesticado. [risos]

Na ficção, você tem horários para escrever?
 

Tezza. Eu sou bastante organizado com isso. Não consigo escrever numa segunda-feira à tarde e daí passar uma semana e meia sem fazer nada, e na quinta-feira da outra semana de manhã escrevo mais um… Para mim tem que ser diário, por isso eu parei completamente [o novo romance]. Porque não estava conseguindo essa continuidade. Já escrevi em vários horários: de tarde, de madrugada… Eu lembro do Trapo, no tempo que minhas crianças eram pequenas, só minha mulher trabalhava fora, eu ficava em casa e trabalhava de madrugada. Então, às dez da noite, que é a hora do silêncio total do mundo, inclusive das crianças, eu escrevia o livro. Agora estou gostando de trabalhar de manhã, acho que é coisa de velho. [risos] Acordar cedo, cinco ou seis horas de sono e não passa disso, a cabeça ainda está muito boa. Das sete as dez é um horário maravilhoso para escrever.

Que autores você carrega como referência para sua escrita?
 

Tezza. Eu não sei. Sou um leitor do livro, leio de tudo. Eu tenho lido muito profissionalmente também. Ou participando de júri de concursos ou escrevendo resenhas para jornais e revistas. 
E que é uma leitura completamente diferente.
 
Tezza. É diferente, ler objetivamente. É um semi-prazer. É sempre bom ler, mas às vezes você está lendo só para ter que fazer um texto. Eu estou fazendo umas leituras laterais, de história e filosofia, que não são propriamente leituras ficcionais. Estou sentindo que estou gostando de enveredar por um tipo de linguagem de ciência, de historiografia particularmente, que me interessa bastante. É uma época da minha vida que quero mergulhar nisso aí. Quando escrevo não, quando estou fazendo literatura é toda história da minha vida de escritor que está escrevendo. Sempre digo que o texto sabe mais do que eu. Por exemplo, o livro O filho eterno me ensinou isso, eu estava com uma visão muito limitada dele, até que eu disse: mesquinha. Eu percebi que escrevi um livro muito maior do que eu. Tem coisa ali que foi a minha história que escreveu, não foi aquele provavelmente sujeito que estava dizendo opiniões e colocando visões de mundo. Isso para mim é maturidade literária.

O que é necessário para ser escritor?
 

Tezza. Talvez eu puxe muito a sardinha para a brasa da minha geração: um certo sentido de inadequação. Para o sujeito se perguntar: “Será que não tem uma coisa normal que eu possa fazer?”. [risos] Se ele se sentir bem no trabalho, como médico, advogado, ótimo. Fique aí, tem coisas boas e sólidas para se fazer. Se você tiver o sentido de inadequação, que é fundamental na arte – a arte é justamente esse contra discurso –, aí sim, vá de cabeça, e veja até aonde aguentar o tranco. O Sérgio Rodrigues tem uma frase que eu acho uma ótima pergunta para se fazer: “Você é capaz de desistir de escrever?”. Se for capaz, desista, faça outra coisa. [risos] Se realmente não der jeito, vá em frente. E também mudou o panorama: aquela visão meio messiânica, que a minha geração tinha nos anos 60 e 70, a atividade artística como uma missão que você cumpre no mundo, aquela coisa em que você é o grande herói… Isso, nos tempos mais pragmáticos de hoje, mudou. A própria relação da sociedade com a literatura e da literatura com a sociedade tem um nível um pouco mais tranqüilo e menos angustiado. Parece que a atividade artística está muito mais integrada no mundo social do que aquele desajuste social que era essencial no final dos anos 60.

> Leia um trecho de Um erro emocional, novo livro de Cristovão Tezza, que deve ser lançado em 2010

Eu tive uma boa infância, ele quase disse, mas então a imagem de seus cinco anos voltou bruta à memória. A porta do quarto aberta e ele vê, quase como um ensaio, como se todas as noites eles repetissem os mesmos gestos de modo a aperfeiçoá-los – o pai na sombra, com a rigidez de um militar (havia algo de militar em seu pai); e a mãe na luz, aquele belo e ostensivo rosto na luz, o desafio na ponta do queixo, brevemente erguido, os olhos de gelo; estão a meio metro um do outro, e ela diz: ê isso mesmo. E daí? O menino lembra que se passaram alguns segundos, como se o pai tentasse recapitular o que ele teria de fazer naquele momento de ensaio, a equipe de filmagem na sombra à espera; mas certamente todas essas camadas de interpretação foram se sobrepondo nos quarenta anos seguintes, de modo que o que de fato aconteceu não importa mais. Ele viu o braço do pai se erguer e ouviu o tapa no rosto da mãe – um tapa em cheio, à mão aberta. Era como se não houvesse fúria, como se não fosse um gesto desesperado de alguém que se lança compulsivamente ao erro, para depois arrepender-se até o último dia do que fez; ao contrário, era como se ele conquistasse aquele momento duro para então ter o que fazer o resto da vida – pensar sobre ele; o corpo do pai, aquela retidão de gesso, a coluna empinada, a sombra daquele queixo também erguido na mesma esgrima mental diante do desafio do olhar dos outros, o corpo do pai praticamente não se moveu – apenas o braço, como um exercício a mais de todos que ele fazia, o cuidado de Narciso com os próprios músculos, às vezes ao espelho.

> Assista à entrevista exclusiva com Cristovão Tezza ao SaraivaConteúdo

 

 
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