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Cristovão Tezza e o espírito da prosa de “O Professor”

Por Zaqueu Fogaça
 
A carreira literária do escritor catarinense Cristovão Tezza pode ser dividida entre antes e depois da publicação do romance O Filho Eterno (Record). Foi graças ao sucesso estrondoso alcançado pelo livro que Tezza tomou uma importante decisão: abandonar a vida em salas de aula para se dedicar inteiramente à literatura.
 
O tempo proporcionado por essa escolha foi determinante para o autor finalizar um projeto que andava paralisado, O Professor (Record), romance transcorrido em poucas horas de uma manhã da vida do professor aposentado de filologia românica Heliseu da Motta e Silva, que se prepara para receber, aos 70 anos, uma homenagem dos colegas de Universidade por sua impecável carreira.
 
Enquanto articula o discurso de agradecimento que soltará durante a homenagem, Heliseu recorre às suas lembranças fragmentárias numa tentativa de encontrar o fio que possa lhe explicar o verdadeiro sentido de sua vida. Desde o momento em que desperta até seus afazes cotidianos, como tomar banho, beber café, ler o jornal e se barbear, revisita momentos e pessoas que foram marcantes em sua trajetória.
 
Homem solitário e apegado ao passado, Heliseu se perde nas lembranças da relação fria com o pai, a morte emblemática e acidental da mãe, o casamento infeliz com Mônica, a relação conflituosa com o filho gay e sua aventura amorosa com a jovem francesa Therèze.
 
Em uma narrativa quase que inteiramente construída pelo fluxo de consciência de Heliseu, o romance entrelaça passado e presente num jogo bem elaborado em que cada personagem se torna uma janela aberta para as paisagens políticas do país das últimas décadas.
 
Em entrevista ao SaraivaConteúdo, Cristovão Tezza fala sobre o processo de construção de seu novo romance, revela como vê a crítica literária brasileira hoje e explica o fascínio pelo universo digital.
 
Desde a publicação do romance O Filho Eterno prevaleceu um hiato de quase cinco anos até publicar, agora, O Professor. O que justifica esse longo intervalo entre um romance e outro?
 
Cristovão Tezza. O Filho Eterno mudou muito a minha vida. Pedi demissão da universidade e passei a viver dos livros e seus derivados – palestras, feiras, bienais –, o que bagunçou minha velha rotina de escritor. Escrevi textos mais leves, um livro de contos, Beatriz (Record), e uma novela, Um Erro Emocional (Record), que nasceu justamente de um conto. Depois, saiu uma coletânea de crônica, Um operário Em Férias (Record), e minha autobiografia literária, O Espírito da Prosa (Record). Mas eu estava querendo mesmo era retomar O Professor, um projeto antigo. De dois anos para cá consegui me concentrar para tocar o novo romance.
 
O que o impossibilitou, naquele momento, de concluir o romance?
 
Cristovão Tezza. Estava com outros projetos em andamento, e compromissos demais agendados. Além disso, senti que precisava deixar a ideia amadurecer. Um romance é sempre um projeto grande e complicado – é preciso uma boa preparação, ou ficamos pelo caminho. Começar um livro e depois perder o embalo é uma experiência terrível. Esperei mais dois anos para me organizar e tocar em frente com mais tranquilidade. No ano passado eu praticamente não viajei para conseguir escrever com ritmo. Na verdade, cada vez mais sinto que meu tempo é curto e que escrevo mais devagar. E romances exigem rotina e método – são quase dois anos de trabalho direto, todas as manhãs, um pouco por dia.
 
A trama de O Professor se passa em uma única manhã, e a narrativa, quase que inteiramente em primeira pessoa, é conduzida pelas lembranças fragmentárias do professor Heliseu. A que se deve a escolha de trabalhar as memórias?
 
Cristovão Tezza. Do ponto de vista gramatical, a linguagem do livro alterna a primeira e a terceira pessoas, o “eu” e o “ele”, às vezes na mesma frase – mas O professor é de fato um romance inteiro concebido a partir do ponto de vista de Heliseu. Ou seja, o narrador não sabe nada além do que o próprio Heliseu saiba. O leitor vê o mundo pelos olhos do personagem. Mas confesso que a escolha do ponto de vista de um romance é um processo meio instintivo para mim.
 
Heliseu é um professor que joga com as palavras em seus discursos e é um homem apegado ao passado. Quando fala sobre palavras da contemporaneidade, como Blu-ray, mantém certo distanciamento… 
 
Cristovão Tezza. O tema da linguagem está o tempo todo presente no livro pela própria profissão e especialidade de Heliseu: a gramática histórica da Língua Portuguesa. Mas, na verdade, o português antigo que o fascina é um dos modos que ele encontra para iluminar o presente que viveu e está vivendo no momento da narração.
 
A linguagem do romance é marcada pelo tom erudito, com referências ao português arcaico. Como se deu o processo de composição do texto desse romance?
 
Cristovão Tezza. A erudição de Heliseu aparece em pequenos sinais que dão consistência ao personagem, mas o tom realmente dominante do romance é a oralidade – o livro inteiro é uma conversa mental de Heliseu; a estrutura das frases, a sintaxe, toda a composição se faz pelo ritmo da fala. Os elementos de citação arcaica, os trechos dos cronistas antigos que ele encaixa no seu memorial, são como ilustrações da permanência do tempo. Por exemplo, ao se referir aos torturados da ditadura, vêm-lhe à memória trechos de uma crônica portuguesa do século 14 em que El Rei mandou matar e queimar os inimigos. A ortografia antiga apenas encobre os mesmos crimes.
 
Capa do livro O Professor
 
Enquanto articula o discurso que fará durante a homenagem que receberá, Heliseu demonstra controle das palavras, selecionando frases de impacto e pressentindo a reação do público, tudo muito bem arquitetado. Essa precisão de Heliseu também é tomada em sua escrita?
 
Cristovão Tezza. Heliseu fica testando formas e fórmulas de se dirigir ao público, mas nenhuma delas na verdade vai adiante – a narrativa inteira se fragmenta, voltando às obsessões pessoais. Bem, ao escrever eu me senti um pouco malabarista – tinha de manter o fio e a tensão da narrativa básica, a manhã do professor, enquanto encaixava os azulejos da memória, cuidando sempre para não perder o fio da meada. Mas a esta altura da minha vida este é um trabalho intuitivo – ao escrever, eu avanço como que por instinto.
 
Entre O Filho Eterno e O Professor, você publicou outros livros, entre crônicas, contos e ensaios. Como sabe se uma ideia serve para um romance, um conto ou uma crônica?
 
Cristovão Tezza. Na ficção, sou basicamente um romancista – minhas ideias sempre surgem numa moldura de 200 páginas, por assim dizer. Os contos, para mim, são sempre acidentais, ideias avulsas e raras que me ocorrem. Mas, no livro Beatriz, o interessante é que todos os contos têm a mesma personagem, o que é um sinal de romancista, não de contista. Os ensaios já têm outro registro, para mim completamente diferente da ficção. Bem, a ficção pode se apropriar de alguns recursos da linguagem ensaística, pela cabeça dos personagens; mas eu acho que o contrário seria um desastre, um ensaio ficcional.
 
Em um momento em que se fala sobre a crítica literária no país, qual é o seu olhar sobre ela e a maneira como é executada?
 
Cristovão Tezza. A crítica literária é fundamental – ela cria padrões consistentes de referência estética e cultural. E, é claro, funciona em vários graus, desde a breve resenha de jornal até o alentado ensaio da revista acadêmica. A crítica literária brasileira acompanha as vicissitudes do próprio espaço em que circula. Na época da ditadura, ela perdeu público e espaço no jornal, enquanto a universidade passava a ser a grande referência; mais tarde, cadernos culturais jornalísticos começaram a incorporar conquistas teóricas da crítica acadêmica. Já a internet ampliou consideravelmente a presença da crítica, ao mesmo tempo em que banalizou-a no varejo dos blogs. Mas tenho uma visão otimista; ao contrário dos apocalípticos, acho que a crítica sempre vai se manter uma referência forte e séria da boa produção literária. E, também como sempre, é preciso lembrar que há uma segmentação forte no mundo literário, arquipélagos culturais bastante distintos.
 
Recentemente você publicou algumas obras em plataformas digitais por iniciativa própria. Como se dá sua relação com esse universo digital e de que maneira acredita que ele foi benéfico para o autor?
 
Cristovão Tezza. Eu acho sensacional a plataforma digital para livros. E, ao contrário de muitos, acho que ela ajuda substancialmente a circulação do livro de papel e a leitura em geral. A ideia de que o livro digital vai acabar com o livro de papel é uma bobagem. O livro físico é um objeto de uma perfeição imbatível. Ao mesmo tempo, sem dúvida, o e-book é um potencializador de leitura. No meu caso, que sou fascinado por computadores, internet e cultura digital, estou me divertindo um pouco colocando na rede livros que eu não publicaria em papel, romances de formação que eventualmente podem interessar ao leitor de meus livros mais maduros. Faço até as capas, por hobby. Também lancei uma coletânea de uma centena de resenhas e ensaios literários que publiquei na imprensa desde os anos 90. Para mim, não teria sentido publicar esta coletânea em papel, mas é uma obra que pode ser útil ao leitor ou estudante interessado. Com a mesma ideia, lancei minha tese de doutorado, Entre a Prosa e a Poesia – Bakhtin e o Formalismo Russo – já esgotada há anos. Enfim, é um modo de colocar à disposição dos leitores, de modo acessível, títulos que estavam desaparecidos ou textos dispersos em publicações antigas.
                                                                                                         Guilherme Pupo
Em seu novo romance, Cristovão Tezza recorre às memórias para versar sobre a velhice e as paisagens políticas do país
 
 
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