Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 30.01.2012 30.01.2012

Cristina Judar: escritora fala sobre adaptação de contos para HQ

Por Maira Reis
Capa de Vermelho, Vivo
 
“Numa época em que todos os dias corriam iguais… Eu caminhava e caminhava por trilhas já conhecidas, passos que me levavam sempre ao mesmo lugar. Ou ao que eu imaginava que fosse o mesmo lugar. Passos que deixavam marcas idênticas no mesmo tempo e no espaço. Mas a vida é dada a mistérios, e a reviravoltas inimagináveis”.
 
Esse trecho está na HQ, recentemente lançada, Vermelho, Vivo (Devir),e quem o assina é a escritora Cristina Judar.
 
O interessante dessa publicação é que seu roteiro é originário de um conto.
 
Cristina explica que “é um trabalho bastante delicado, já que a linguagem é totalmente diferente. A história, antes contada apenas com palavras, passa a ter imagens, que têm um papel fundamental na narrativa e muitas vezes dispensam as palavras. Para que a adaptação seja bem-sucedida, é preciso ter sensibilidade para perceber o que deve ser incluído e o que deve ser dispensado".
 
Para ela, "também é fundamental que haja uma grande sintonia entre o roteirista e o ilustrador, pois a obra, antes de caráter individual, passa a ser conjunta. Ou melhor, é criada uma nova obra, baseada em outra já existente”.
 
Antes de adaptar Vermelho, Vivo, Cristina já tinha realizado também a adaptação de outro conto de sua autoria no livro Lina (Estação Liberdade).
 
Lina
 
“No Lina tínhamos apenas o esqueleto da história, que ficou concreta durante o desenrolar do projeto, quando já estávamos em pleno processo de produção. Posso dizer que a história foi finalizada junto com o processo de finalização do livro. Agora, no Vermelho, Vivo, as coisas já estavam mais definidas, sabíamos onde iríamos chegar, um horizonte. O grande desafio mesmo foi ampliar algo que já tínhamos em mãos, como dito anteriormente. O fato de termos a experiência do primeiro livro foi fundamental para que, no segundo, tudo fosse mais rápido e mais tranquilo também”.
 
Engana-se quem pensa que adaptar um texto é só cortar imagens e palavras.
 
Cristina ensina que, em alguns casos, é justamente o contrário. “Como originalmente a narrativa de Vermelho, Vivo era breve, de desfecho rápido, eu e Bruno Auriema – ilustrador e responsável por toda a concepção artística do projeto – sentimos a necessidade de ir mais fundo na história e explorar o universo interior da Clara, a personagem principal, além de incluir novos personagens e passagens".
 
E complementa: "Com isso, ampliamos nossas possibilidades de criação, o que acrescentou muito ao resultado final. Não tínhamos limites para a adaptação para HQ e aproveitamos isso da melhor forma possível. Já com o nosso primeiro livro, Lina, foi um pouco diferente, já que a história não estava 100% fechada quando começamos a trabalhar no projeto. A HQ aborda diferentes épocas, culturas e contextos históricos – além do atual – ou seja, um prato cheio para que muita coisa nova e interessante pudesse ser incluída. Eu achava que isso iria acontecer naturalmente e estava preparada para incluir todos os personagens que quisessem fazer parte da história (risos). E foi justamente isso que aconteceu!”
 
Personagem de Vermelho, Vivo
 
O mais curioso nesses dois livros de Cristina é o desenvolvimento de um enredo em que as duas personagens buscam ir ao encontro de suas realidades por intermédio de um discurso filosófico/existencialista.
 
Para ela, “é um processo absolutamente natural, que faz parte da minha escrita, por isso é algo que se mostra claramente através das personagens principais dos dois livros. Acho perfeitamente possível incluir um discurso mais filosófico/existencialista nos quadrinhos, já que eles não deixam de ser literatura – aliás, é uma das suas vertentes. Hoje há espaço para tudo, e o mercado tem refletido isso ao lançar obras de diferentes formatos e abordagens, assim como leitores interessados em diversificar e em conhecer novas linguagens”.
 
 
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