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Cristina Branco traz o fado nos sentidos

Por Priscila Roque

Uma cantora completa, capaz de mesclar ao fado uma enorme bagagem adquirida pelo mundo.

 
Com uma carreira iniciada na Holanda, Cristina Branco não se considera uma fadista, mas sim uma intérprete que usa referências lusas do estilo para traçar suas canções.
 
E é com ela que damos sequência ao especial sobre fado contemporâneo aqui no SaraivaConteúdo.
Nascida em Almeirim, na região do Alentejo, ela consegue emendar o tango ao jazz e sobrepõe tudo à sua base tradicional portuguesa.
Em suas letras, poetas do mundo todo aparecem em diversas línguas, como o português, espanhol e o francês.
A paixão pelo fado teve início em sua adolescência, quando foi presenteada por seu avô com o álbum Rara e Inédita, de Amália Rodrigues.
No final de 2012, completa 40 anos de vida, sendo mais de 15 deles dedicados à música. Durante esse tempo, lançou 11 discos – entre eles Corpo Iluminado (2001), Ulisses (2005) e Não Há Só Tangos em Paris (2011).
Em janeiro, Cristina deu início a mais uma turnê internacional. No momento, segue uma agenda com mais de 20 shows pela Holanda. E foi no intervalo dessas apresentações que ela respondeu ao bate-papo proposto pelo SaraivaConteúdo.
Você não se considera uma fadista, por caminhar entre diversos estilos musicais e línguas. Existe um limite para o seu fado?
Cristina. Assumindo que a criatividade é ilimitada, não. Mas há limites, sim. Como nunca desrespeitar a raiz do fado.
A sua estreia como cantora foi em um palco na Holanda. O que foi apresentado naquela noite de 1996?
Cristina. Alguns temas do fado tradicional – dois, se bem me lembro – e o restante era original, feito propositadamente para o momento. Eram textos selecionados por mim com música original e criada ao redor do fado, ou seja, não deixando de ser fado, apenas diferente do tradicional.
As influências de Rara e Inédita (compilação de Amália Rodrigues) estavam presentes nas suas primeiras apresentações? “O Fado Veio a Paris”, desse mesmo disco, adiantou aquilo que seria parte da sua história?
Cristina. Sim, podemos dizer que sim. Com esse disco, cheguei à certeza de que o fado poderia trilhar diferentes caminhos sem se desvirtuar. A voz de Amália era o mote, o timbre… A modulação profundamente fadista "vestia" músicas de outras paragens, a voz ditava a influência e as palavras ganhavam a dimensão que eu julgava impossível no universo do fado. Tomei coragem e fui por aí, fiz a minha própria história, e o meu fado foi, além de Portugal, a Paris, Amsterdã, Nova Iorque, Tóquio, Berlim, Sidney…
Misturar novos ritmos e temáticas ao fado tradicional é uma forma de se fazer entender pelos mais jovens e pelo público de outros países que não falam a língua portuguesa?
Cristina. Sem dúvida. É tornar inteligível por outras gerações e outras culturas uma música que foi, por várias décadas, hermética e fechada sobre si mesma – fruto da história deste país e da ortodoxia da classe vigente. Levantar o véu, permitiu que outros a entendessem e admirassem. Popularizando-a, aguçamos a curiosidade e o interesse do público internacional e assistimos a uma plateia cada vez mais jovem e esclarecida.
Em seu último trabalho, Não Há Só Tangos em Paris, você passeia pelo francês, pelo português e pelo espanhol, misturando instrumentos, mas marcando a guitarra portuguesa e seu timbre fadista. Qual foi a proposta desse disco?
Cristina. Não creio que seja uma ideia peregrina, afinal até no fado tradicional existe um "Fado Tango". O que me levou a essa viagem foi a paixão pelas pessoas e a proximidade que existe nas duas músicas, apesar de um oceano as separar. Fado e tango, duas músicas urbanas de cariz profundamente social e sensual. E a viagem, a travessia do Atlântico, a história dos homens de um e do outro lado, a esperança, a paixão e a morte. Os sentimentos humanos a unir-nos, humanos, onde quer que tenhamos nascido!
Você está em uma grande turnê mundial. Há chances de trazer a sua música ao Brasil ainda neste ano?
Cristina. Claro que sim. Seria maravilhoso! Estamos preparando uma turnê na América do Sul que inclui Brasil, Uruguai e Argentina. Entretanto, ainda não há nada confirmado por questões de logística.
Qual é o papel da poesia em suas canções?
Cristina. A poesia é metade da canção. Além disso, me parece interessante levar o autor – que tantas vezes passa despercebido ou está esquecido do grande público – à luz. Quantas vezes a grande massa leu Pessoa, Camões, Mourão-Ferreira, Homem de Mello, Baudelaire ou Shakespeare? Despertar a curiosidade, estimular a leitura e a inteligência também é o papel pertinente e social da música.
Dos anos 1990 para cá, podemos dizer que estamos passando por uma renovação do fado?
Cristina. Sem dúvida. O reconhecimento internacional trouxe a curiosidade dos outros gêneros. Toda a fusão pode e deve ser saudável, desde que não se omita a influência e respeite a raiz, mais uma vez!
Assista ao vídeo de “Não Há Só Tangos em Paris”, de 2011:
Esta entrevista faz parte do especial sobre fado contemporâneo do SaraivaConteúdo. Veja as outras que já foram publicadas: Ana Moura , MísiaPedro MoutinhoMafalda ArnauthMarco RodriguesMargarida Guerreiro e Camané – cantor que encerra o especial.
 
 
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