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Crimes inspiram livros que exploram o interesse do público e bebem na fonte do jornalismo literário

Por Andréia Silva e Sarah Correa
O ex-policial e escritor Roger Franchini
Em sua recente passagem pelo Brasil, o escritor Scott Turow, conhecido por suas tramas policiais, disse que o segredo do interesse do público “pela criminalidade é sua relação com a raiva, ciúme, paixão, cobiça, sentimentos comuns a todos”.
 
Essa proximidade (de certa forma, humana) que o espectador e o leitor sentem em séries e histórias policiais explicaria o sucesso do gênero que hoje é destaque na TV e na literatura, e que, no Brasil, ganha reforço com histórias baseadas em crimes que estão na memória dos brasileiros.
 
Entre os mais recentes lançamentos do gênero está Richthofen – O Assassinato dos Pais de Suzane, do escritor e ex-policial Roger Franchini, que leva o leitor aos bastidores de um dos crimes que mais chocou o país, pela visão de um homem que acompanhou de perto o desenrolar do caso.
 
Mas o que garante que um crime merece ser contado e recontado em um livro? “Não é a história em si, e sim a maneira como ela será contada. Toda e qualquer história pode ‘render’ um bom livro se for escrita de modo interessante e envolvente. O que talvez torne os meus livros diferenciados é o fato de que eu ‘estava lá’, ou seja, a história é contada por quem teve contato direto com pelo menos parte dos acontecimentos”, diz Ilana Casoy, pesquisadora de crimes violentos que se tornou escritora, estimulada pelo gosto pelo tema e pela curiosidade em desvendar o que há por trás dessas histórias.
 
São de sua autoria os livros Serial Killer, onde ela mergulhou em arquivos da polícia e da Justiça, do FBI e Scotland Yard, artigos de jornais e revistas para compor um perfil desses criminosos, analisando como, o porquê e com que métodos eles matam; O Quinto Mandamento: Caso de Polícia, sobre o caso de Suzane Richtofen; e A Prova é a Testemunha, sobre a morte da menina Isabela Nardoni.
 
Ilana Casoy, pesquisadora de crimes violentos que se tornou escritora
 
Ilana concorda com Turow sobre o que desperta o interesse do público por esse tipo de assunto, assim como nela própria. “O público gosta de histórias bem contadas, sejam elas ficção ou realidade, em contos, crônicas, novelas ou qualquer outro gênero literário. No caso dos livros de histórias criminais reais, o fascínio vem da tentativa de entender o lado mais perverso do ser humano, o imponderável, incontrolável. E a solução do enigma que se apresenta”.
Casos como o de Isabela Nardoni e de Suzane Richtofen ganharam destaque nacional pela brutalidade e pela relação entre criminoso e vítima.
 
No primeiro caso, a garota foi jogada da janela pelo pai, e no outro, uma jovem foi responsável por matar os pais. O que ambos os casos têm em comum? O fato de o assassino ser alguém de quem jamais se desconfiaria.
“Agatha Christie adorava criar todos os tipos de personagens e escolher justamente o mais improvável para ser o culpado. Há estudos que dizem que ela inclusive tinha vários culpados na manga e escolhia aquele que mais provocava empatia para usar como culpado. Dava ao leitor o sentimento de ‘oras, não pode ter sido ele’. Surpreender o leitor é a fórmula dos mais antigos e é usada até hoje pelos mais atuais, como Scott Turow e James Ellroy”, diz Sérgio Pereira, co-fundador do grupo Polígrafos, fãs da literatura policial e investigativa.
Outro livro de destaque para quem gosta do tema é a compilação Os Crimes que Abalaram o Brasil, da Editora Globo, lançado em 2007.
 
Organizada pelos jornalistas George Moura e Flavio Araújo, a obra traz relatos de crimes famosos no Brasil, com reportagens de Marcelo Faria de Barros e Wilson Aquino. Estão lá casos como o dos irmãos Naves, o desaparecimento do menino Carlinhos, Dana de Teffé – o Crime sem Cadáver, sobre o sumiço de uma personalidade da sociedade carioca, entre outros.
 
Capa do livro Richthofen – O Assassinato dos Pais de Suzane
Relatos literários de um crime
 
Voltando ao passado, foi justamente um livro sobre um crime bárbaro que dividiu o jornalismo em "antes" e "depois", inaugurando o jornalismo literário.
 
A Sangue Frio, de Truman Capote, conta a história de um homicídio quádruplo na pequena e até então pacata cidade americana de Holcomb.
 
A história foi publicada pela primeira veze em 1965 na revista “The New Yorker”, e a edição do livro só saiu depois da execução dos responsáveis pelo crime, ainda em 1965.
 
A obra passou dez semanas no topo da lista de mais vendidos do “New York Times”, ficando 32 semanas entre os dez mais vendidos dos EUA. Naquele ano, A Sangue Frio vendeu mais de 100 mil cópias e, depois que a adaptação para o cinema foi indicada ao Oscar no ano seguinte, o livro passou da marca de 158 mil exemplares vendidos.
 
Nesse caso, o texto de Capote mostrou certa simpatia pelo assassino, já que o escritor e o criminoso passaram horas conversando, e adicionou elementos que transformariam para sempre o jornalismo.
 
Com relação à mitificação dos “vilões” nessas histórias, tanto Ilana quanto Sergio acreditam que tal característica varia de autor para autor e, no caso de um crime real, é importante se ater aos fatos, embora, em alguns casos, os elementos da ficção se misturem com a vida real.
 
“O jornalista tem o compromisso de relatar o caso como ele realmente é, e o público vai julgar se deve ou não ter empatia com o personagem principal. Na literatura é o contrário: muitos personagens são pensados já para conquistar a empatia do público, apesar de serem assassinos confessos. Alguém torce para que 'Dexter' seja preso nos romances impressos?”, diz Sergio, citando a história da série 'Dexter', sobre um analista forense da polícia que mata criminosos. Nesse caso, muitos acabam torcendo pelo protagonista, uma mistura de vilão e mocinho.
 
Ilana concorda. Segundo ela, a linguagem pode até ser a mesma, “mas a fidelidade aos fatos é o que diferencia” um estilo do outro. “Quem escreve a vida real tem de se ater aos fatos ocorridos, não pode amenizá-los, modificá-los ou inventar um final feliz para apaziguar o coração”, diz ela. E finais felizes, nós sabemos, são os que menos fazem parte dessas histórias.
 
 
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