Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Livros 20.11.2014 20.11.2014

Criador do Delegado Espinosa, Luiz Alfredo Garcia-Roza lança ‘Um Lugar Perigoso’

Por André Bernardo
Em seu escritório no Centro do Rio, Luiz Alfredo Garcia-Roza exibe, orgulhoso, exemplares de alguns de seus livros, traduzidos para o francês, o russo e o grego. Aos 78 anos, é a prova viva de que, às vezes, o crime compensa. Pelo menos na literatura policial, é bom que se diga.
Desde que lançou o primeiro romance, O Silêncio da Chuva, em 1996, o ex-professor de Filosofia e Psicanálise já vendeu mais de 200 mil exemplares, foi traduzido para 12 idiomas e ganhou dois dos mais importantes prêmios literários brasileiros: o Jabuti e o Nestlé. “Jamais passou pela minha cabeça que, um dia, eu estaria aqui, dando entrevista para você”, diverte-se.
Ao longo desses 18 anos, Luiz Alfredo já lançou 11 livros, 10 deles protagonizados pelo Delegado Espinosa. Honesto, culto e introspectivo, o titular da 12ª D.P., em Copacabana, é uma homenagem a Baruch de Spinoza, pensador holandês que Luiz Alfredo considera “de uma integridade ética notável”.
A exceção à regra é o romance Berenice Procura, de 2005. Nele, a história é conduzida não por um delegado de polícia, mas por uma motorista de táxi. “Jamais cogitei a hipótese de tirar a vida do Espinosa. Não queria passar pelo vexame do Arthur Conan Doyle,que teve que ressuscitar o Sherlock Holmes dez anos depois”, avisa.
Este ano, Luiz Alfredo chega às livrarias em dose dupla. Primeiro, a Cia. das Letras lança seu 11º romance, Um Lugar Perigoso. Em seguida, a Casa da Palavra publica Rio Noir, antologia policial organizada por Tony Belloto e encabeçada, entre outros, por Luiz Alfredo, que escreveu um conto, “Butim”, especialmente para a coletânea.
Além disso, o escritor vendeu os direitos de Uma Janela em Copacabana para o canal GNT e a produtora Zola. A ideia de José Henrique Fonseca, filho de Rubem Fonseca, outro famoso escritor policial brasileiro, é transformar o romance em série de TV. A estreia está marcada para 2015.
O Delegado Espinosa, de Um Lugar Perigoso, é provavelmente o personagem mais longevo da literatura policial brasileira. Nenhum outro – Mandrake, de Rubem Fonseca; Bellini, de Tony Belloto; ou Ed Mort, de Luís Fernando Veríssimo – teve tantos livros publicados. Que cuidados você toma para o público não se cansar dele?
Luiz Alfredo. O único cuidado que eu tomei foi o de escrever, em 2005, Berenice Procura. Esse romance foi uma espécie de pausa que eu dei para nós três descansarmos: eu, o público e o Espinosa. A cada livro que escrevia, me sentia na obrigação de apresentar o Espinosa para o público. Se o leitor estivesse acompanhando a série desde O Silêncio da Chuva, tudo bem. Mas e se não estivesse? E se tivesse começado a ler por Uma Janela em Copacabana, por exemplo? A cada livro, eu tinha que repetir que a torradeira do Espinosa vive quebrada, que ele só compra comida congelada, e assim por diante. Mas a Berenice não veio para substituir o Espinosa. Eu só queria dar uma pausa e sentir a reação do público.
Em nenhum momento você cogitou a hipótese de tirar a vida dele, como Conan Doyle fez com Sherlock Holmes em 1893, no conto “O Problema Final”?
Luiz Alfredo. Não. Jamais! Não queria passar pelo vexame do Conan Doyle, que teve que ressuscitar o Sherlock Holmes dez anos depois… (risos) Se tivesse que matá-lo, eu simplesmente deixaria de falar nele, entende? Mas o tiro saiu pela culatra. O público não só não admitia que eu matasse o Espinosa, como ainda propôs que eu casasse o Espinosa com a Berenice. Até então, eu só tinha um problema. Depois de Berenice Procura, passei a ter dois… (risos) Aí, retomei o Espinosa e fui em frente. Sem querer me comparar, mas o Georges Simenon manteve o Maigret por mais de 70 livros, e nem por isso a qualidade dele caiu.
E Berenice, por onde anda? Pretende retomá-la algum dia?
Luiz Alfredo. Já pensei nisso. Mas a pergunta que faço é: será que já não deixei passar tempo demais para retomá-la? Talvez o leitor nem se lembre mais da Berenice… Não sei.
De onde tirou inspiração para escrever Um Lugar Perigoso? Você é do tipo que recorta notícias de jornal e as guarda para quando tiver que escrever um livro?
Luiz Alfredo. Não. Eu sempre começo a escrever um livro a partir da tela em branco do computador. Em geral, não tenho a menor ideia de coisa nenhuma. Não imagino sequer como a história vai terminar. Se estou na primeira página, por exemplo, não sei o que vai acontecer na segunda. No caso de Um Lugar Perigoso, mudei o final dele pelo menos umas três vezes. Outro dia, li uma entrevista da escritora britânica P.D. James, onde ela diz que, quando começa a escrever um livro, já sabe o que vai acontecer com o personagem principal na última linha… Puxa, só inglês faz isso… (risos)
Em 1996, quando resolveu trocar a carreira acadêmica pela literária, você imaginou que, um dia, faria tanto sucesso como autor de livros policiais?
Luiz Alfredo. Na verdade, não troquei a vida acadêmica pela literária. Eu me aposentei na universidade, onde dei aula por quase 40 anos, e passei a me dedicar exclusivamente à ficção. Na época, sequer passou pela minha cabeça que, um dia, eu faria uma carreira literária. Não sabia, por exemplo, se depois do primeiro livro viria um segundo. E um terceiro. Não fazia ideia que, um dia, seria publicado em 10, 12 países. Nem que venderia a quantidade de livros que vendi. Tenho uma venda bastante regular ao longo desse tempo. Lá atrás, eu não me via, por exemplo, sentado aqui hoje, concedendo esta entrevista para você… (risos)
Em 18 anos de carreira, o autor , que agora divulga seu 11° romance policial, já vendeu mais de 200 mil exemplares, foi traduzido para 12 idiomas e ganhou um Jabuti logo em sua estreia literária
Na internet, seu nome é associado aos mais curiosos títulos, como “George Simenon brasileiro”, “Dashiell Hammet carioca” e “Raymond Chandler de Copacabana”. De quais desses títulos gosta mais? E com quem se identifica mais?
Luiz Alfredo. De quem eu gosto mais? Bem, minha autora favorita é Patricia Highsmith. Acho O Talentoso Ripley uma pérola. Dos homens, oscilo entre Dashiell Hammet e Raymond Chandler. Acho o Chandler melhor que o Hammet. Por outro lado, acho o Hammet mais ousado que o Chandler. O Hammet tem um livro, Continental Op, de 200 e tantas páginas. Você acredita que o protagonista de Continental Op não tem nome? É um detetive anônimo! Isso é de uma ousadia absoluta. E olha que o Hammet já tem outro personagem magnífico, o Sam Spade, de O Falcão Maltês. Bem, no final das contas, os dois são excelentes. Se eu tivesse que escolher um deles, teria que recorrer ao uni-duni-tê… (risos)
Tanto o senhor quanto sua esposa, Lívia, são escritores. Já aconteceu de um recorrer ao outro em caso de bloqueio criativo? Pode-se dizer que a Lívia seja a primeira leitora do Luiz Alfredo ou vocês procuram não conversar sobre trabalho em casa?
Luiz Alfredo. Até conversamos sobre literatura em casa. Mas não sobre o livro um do outro. Um Lugar Perigoso, por exemplo, a Lívia só veio a ler depois de publicado. Os livros que escrevemos são inteiramente diferentes. Do ponto de vista ficcional, habitamos universos distintos. Posso até comentar que estou há três dias sem conseguir sair do lugar, por exemplo, mas pedir a Lívia que dê uma lida no que estou escrevendo… Isso é muito complicado!
Você já escreveu 11 livros de ficção, todos romances. Alguns autores, como Conan Doyle, Agatha Christie e George Simenon, também se aventuraram por narrativas mais curtas. Nunca pensou em escrever contos?
Luiz Alfredo. Nunca tinha escrito contos. Escrevi três recentemente. Um deles, “Última Entrega”, a pedido da revista “Playboy”. Outro, “Meio-Dia”, que saiu numa coletânea da Cia. das Letras, Boa Companhia Contos. E um terceiro, “Butim”, que vai sair agora, pela Casa da Palavra, numa série chamada Rio Noir. Curiosamente, nenhum deles tem o Espinosa. Embora tenha gostado de escrevê-los, [isso] não me transformou num escritor de contos. Sinto que preciso de mais espaço para desenvolver as minhas tramas.
Em 2006, o cineasta José Joffily transpôs Achados e Perdidos para o cinema. Agora, o canal GNT e a produtora Zola se preparam para transformar Uma Janela em Copacabana em série de TV. O que achou da adaptação do Joffily? E o que espera da versão do José Henrique Fonseca?
Luiz Alfredo. Bem, gostei do filme, desde que não vejam aquilo como sendo o Achados e Perdidos. Diria que é a mesma coisa que adaptar Conan Doyle e excluir o Sherlock Holmes. Quando penso em um livro, seja ele qual for, já penso no Espinosa como protagonista dele. O Espinosa pode até não ser o personagem mais importante da história, mas certamente é o personagem central. É em torno dele que a história gira. Ao retirar o Espinosa do filme, o Joffily retirou o recheio do pastel. Ficou um pastel de vento… Quanto à adaptação do José Henrique Fonseca, devo confessar a você que não vejo TV. Tenho a impressão de que, se os primeiros episódios tiverem audiência, a série deverá ganhar uma segunda temporada. Acho que é isso. Mas a minha ignorância em termos de mundo televisivo é vergonhosa… (risos)
Cena de Achados e Perdidos
Há quem goste mais de reler do que ler. Você é esse tipo de leitor? Que títulos ou autores costuma sempre revisitar?
Luiz Alfredo. Sim, é verdade. Costumo dizer que sou um leitor selvagem. Minha primeira leitura é sempre impressionista. Quando pego um livro e o leio pela segunda vez, faço uma leitura mais crítica. Há casos que leio o mesmo livro por três, quatro, cinco vezes. Não sei quantas vezes li, por exemplo, Crime e Castigo e Os Irmãos Karamázov, só para citar dois do Fiódor Dostoiévski. A cada leitura que faço deles, tenho a impressão de estar lendo um livro diferente. Reler não é ler outra vez, é ler diferente. Tem um livro do Joseph Conrad, Lord Jim, que tive a oportunidade de reler 50 anos depois. Quando li da primeira vez, eu devia ter uns 17, 18 anos. E tornei a lê-lo exatamente 50 anos depois. Foi outro livro. Daí, concluí: o Joseph Conrad não é bom, ele é muito bom. Ele é genial… (risos)
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