Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 29.04.2011 29.04.2011

Coproduções promovem intercâmbio no cinema

Por Danielle Motta
Na foto, cena do filme O Sonho Bollywoodiano

 
O Brasil anda bem visto no mercado cinematográfico internacional. O nome do País figura na lista das nações que se destacam pela produção de filmes de qualidade fora do eixo Estados Unidos-Inglaterra, que inclui os já consolidados Índia, Japão, Alemanha, França, China e Canadá. O fenômeno de bilheteria nacional Tropa de Elite 2, por exemplo, atiçou distribuidores do mundo todo depois que foi divulgado o número de público no primeiro fim de semana de exibição por aqui.

Essa exposição mundial dos filmes brasileiros, especialmente após a retomada do cinema nacional, a partir de 1995, tem atraído a atenção de grandes produtoras além das fronteiras do Brasil, interessadas em realizar coproduções com profissionais já renomados e com aqueles que estão dando os primeiros passos.

Walter Salles e Fernando Meirelles são alguns dos diretores mais requisitados, assim como Andrucha Waddington, que assinou o longa-metragem Lope. O filme foi coproduzido com a Espanha e financiado com recursos públicos e privados dos dois países. O convite partiu de lá em 2005, mas foi necessário um período de quatro anos para estruturar a produção, estabelecer a parceria e levantar orçamento, além de oito semanas de ensaio, nove e meia de filmagens em Madri e no Marrocos, e mais longos meses de edição e finalização até que chegasse às salas de cinema espanholas e, depois, às do Brasil.

Indicado ao Oscar 2011 na categoria de “Melhor Documentário”, Lixo Extraordinário é outra coprodução de sucesso. Desta vez, a parceira é a Inglaterra, que, sob o comando da inglesa Lucy Walker e com o apoio dos brasileiros João Jardim e Karen Harley, mostrou nas telonas o trabalho do artista plástico Vik Muniz num dos maiores aterros sanitários do mundo: o Jardim Gramacho, em Duque de Caxias (RJ). Apesar de ter sido gravado por dois anos no Rio de Janeiro e de ter elenco quase 100% nacional, o longa é apresentado com falas em inglês e português. “Esta é uma evolução importante do ponto de vista de mercado. É válido os filmes brasileiros se utilizarem da língua inglesa para penetrar no resto do mundo. Quase todas as cinematografias internacionais fazem isso em determinados projetos”, destaca João Jardim.

Lançado no dia 29 de abril, O Sonho Bollywoodiano é a estreia em longa-metragem da diretora Beatriz Seigner e a primeira coprodução entre Brasil e Índia. O filme, que conta a história de três atrizes brasileiras que vão tentar a sorte na indústria cinematográfica de Bollywood, foi gravado 99% em território indiano e a atuação dos parceiros locais foi além da produção. “Nossos coprodutores, os Studios Prasad e a Rattapallax Films, forneceram hospedagem, transporte, logística, equipe técnica, tradutores e estúdios, em troca de 30% da renda líquida do que o filme fizer”, afirma Beatriz. Ela também é roteirista e diretora de fotografia do documentário On The Road with Bob Holman – The World State of Poetry, filmado em Gambia, Senegal, Mali, Palestina, Israel, Brasil e Índia. “Estamos preparando, ainda, uma coprodução com a Colômbia, o longa de ficção Barqueiras Aires, e desenvolvendo o roteiro do filme O Sorriso de Marissol, a ser feito entre Brasil, Angola e Portugal”, revela a diretora.

O documentário Marcha da Vida, que também chegou aos cinemas no dia 29/04, tem roteiro e direção da americana Jessica Sanders e trilha sonora do compositor brasileiro Pedro Bromfman. Em uma parceria entre Filmland e Conspiração Filmes, a produção relata a viagem que os sobreviventes do Holocausto fizeram aos campos de concentração de Auschwitz e Birkenau, na Alemanha, acompanhados de milhares de jovens judeus de várias partes do mundo, incluindo brasileiros. As filmagens foram realizadas em São Paulo, Los Angeles, Berlim e Jerusalém, além de vários campos de concentração nazistas da Polônia. “Foi um desafio filmar em tantos lugares: Brasil, Estados Unidos, Alemanha, Israel e toda a Polônia. Outra dificuldade é o fato de eu não falar português, já que parte do filme se passa no centro comunitário judeu de São Paulo. Mas Pedro Kos, diretor de segunda unidade, foi um hábil tradutor para mim”, relembra Jessica.

Foto: cena de Marcha da Vida

UM BOM NEGÓCIO PARA O BRASIL

A realização de coproduções cinematográficas internacionais é um sinal de maturidade do cinema brasileiro e uma forma de fomentar a produção nacional e levantar recursos para a independência de um filme. É um movimento que tende a ser cada vez mais comum no Brasil, influenciado pela tecnologia e pelos programas de apoio à cultura, como a Lei do Audiovisual e o Programa Cinema do Brasil, criado em 2006 para promover a internacionalização das produções nacionais através das coproduções, da distribuição internacional e da venda de serviços.

“O fato de um projeto ser uma coprodução internacional já faz com que o filme seja encarado com mais respeito no exterior. É claro que tudo depende da qualidade do conteúdo e, se este permitir que a história seja contada em inglês, as possibilidades de visibilidade aumentam bastante”, afirma a produtora Paula Barreto, da LC Barreto. A empresa fez parceria com a americana Goldcrest para rodar, ainda este ano, A Arte de Perder, de Bruno Barreto, que revela a história de amor entre a poetisa norte-americana Elizabeth Bishop e a arquiteta brasileira Lota de Macedo Soares, interpretada por Glória Pires. O filme, ambientado no Brasil dos anos 50 e 60, será gravado no Rio de Janeiro, Petrópolis, Nova York e Veneza.

Para Beatriz Seigner, as coproduções são o reflexo natural da época pós-moderna de globalização. “Vivemos com histórias de pessoas desenraizadas ciclicamente. Faz parte pensar a humanidade como um todo, planetária, para além de fronteiras, línguas ou nacionalidades. Além disso, essas parcerias acrescentam muito em termos interculturais. Toda fertilização entre duas ou mais culturas e seus diversos pontos de vista são extremamente salutares para o desenvolvimento de qualquer sociedade”, destaca.

De olho nas possibilidades de negócios e na viabilização de projetos, algumas produtoras brasileiras estão se especializando nessas parcerias. Além da O2 e da Conspiração Filmes, a VideoFilmes se destaca pela quantidade de coproduções com Argentina, França, EUA e, em especial, Portugal, devido ao acordo luso-brasileiro regulamentado pela Ancine (Agência Nacional de Cinema). A LC Barreto também não fica de fora desta lista. “Sempre foi a intenção da LC Barreto focar em coproduções internacionais, pois acreditamos que os filmes (e as histórias) têm de ser universais para viajar e estar ao alcance de todos”, finaliza Paula.

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