Saraiva Conteúdo por Saraiva Conteúdo Filmes e séries 18.03.2011 18.03.2011

“”Cópia fiel””, um ensaio sobre a verdade

Por Bruno Duarte
Foto de divulgação

Um escritor inglês vai até a Itália lançar seu polêmico ensaio, um tratado sobre a relevância e a originalidade das cópias no mundo das artes plásticas. Na palestra de lançamento, uma galerista de arte irrequieta, que parece não dar muita atenção às palavras do autor, e cuja dispersão ganha volume com a chegada de seu filho apressado. Tudo muito casual se o nome da publicação não fosse Cópia fiel, o mesmo do filme que narra essa história, o novo longa-metragem do diretor iraniano Abbas Kiarostami. 

A galerista em questão é Juliette Binoche, que pela atuação recebeu o prêmio de Melhor Atriz na edição 2010 do Festival de Cannes. O escritor, William Shimell, consagrado barítono inglês que faz sua estreia nos cinemas com muita classe. A dupla vive Elle e James Miller, personagens que a princípio são apresentados como dois recém-conhecidos em um elegante jogo de sedução, que ao longo da narrativa rasgam os véus que tentam sobrepor verdade e mentira. 

“Esqueça o original, consiga uma cópia”. A frase proferida pelo protagonista na cena de abertura deflagra o conflito do filme que poderia, grosso modo, ser divido em dois momentos. Na primeira parte, a discussão gira em torno do conceito de autenticidade da arte. Um questionamento que geralmente limita-se à arte contemporânea, levado para os clássicos, principalmente para as obras do Renascimento – não por acaso, a trama se passa na Itália, primeira vez que Kiarostami filma fora do Irã. O casal entra em um carro, símbolo recorrente na cinematografia do diretor, e parte em direção ao interior da Toscana. É a partir daí que o mote do filme, o questionamento entre verdadeiro e falso, sai do plano das artes para a esfera da relação do casal.

Se no início do longa James e Elle eram dois desconhecidos – ele, um estrangeiro que não fala italiano, nem francês; ela, uma francesa que vive numa aldeia ao sul da Toscana –  ao final do filme, que se passa em um ou dois dias, eles formam um casal que se divorciou há alguns anos, têm um filho e decidiram se encontrar no aniversário de 15 anos do matrimônio – no mesmo vilarejo onde passaram a lua-de-mel. Se antes se comunicavam em inglês, e só a mulher dominava os três idiomas falados no filme, agora o homem ordena o garçom em italiano e aumenta o tom pra falar com a companheira em francês.

Em Cópia fiel, Kiarostami desloca o valor da obra de arte para o espectador, aquele que interpreta, a partir de um sistema de significação e classificação, a relevância de um objeto. O diretor, que antes de se dedicar ao cinema graduou-se em Belas Artes na Universidade de Teerã, capital do Irã, cita desde artistas renascentistas até os grandes da pop art, como Jasper Johns e Andy Warhol. No início do filme, há inclusive a aparição figurativa de Sophie Calle, a artista francesa notabilizada por borrar os limites entre ficção e realidade, vida e arte, público e privado. 

O longa é a prova da existência de novos caminhos na construção da narrativa cinematográfica. Um avanço nas discussões, que geralmente ficam estagnadas no campo teórico, sobre as relações entre documentário e ficção – o primeiro constantemente associado ao real e o segundo à inventividade – terreno no qual a cinematografia de Eduardo Coutinho encontra seu maior expoente no Brasil. Cópia fiel é um filme de ficção que firma-se como um documento sobre a verdade pela contundência de seu argumento e pela construção de uma narrativa que não oferece respostas prontas.

 

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